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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Internação compulsória de dependentes é fácil e nada resolve


Combater o crack sem imposição, falando a língua dos dependentes? 

Marcos Lopes é ex-usuário e ex-traficante. Abandonou o tráfico em 2002, segundo ele, graças ao estudo. Formou-se em Letras e escreveu o livro Zona de Guerra (publicado em 2009 pela Matrix Editora) no qual narra sua trajetória. É fundador do Projeto Sonhar e, aos 29 anos, se dedica a apresentar portas de saída da dependência química e do mundo do crime a outros jovens em bairros da Zona Sul de São Paulo.
Marcos escreveu um artigo para este blog sobre a internação compulsória, política que foi adotada recentemente em São Paulo e tem gerado polêmica. Segundo ele, é possível convencer dependentes do crack a buscarem tratamento sem usar da violência, falando a mesma língua que eles.
Por que a internação compulsória de usuários não é a melhor solução para lidar com a droga, por Marcos Lopes
Os veículos de comunicação e redes sociais tem nos bombardeado com a discussão sobre a internação compulsória de dependentes químicos. Fazem parecer algo simples e banal definir o destino de pessoas que vivem às margens de uma sociedade caótica, de uma educação falida e de uma saúde precária. Mas tirá-los à força das ruas e trancafiá-los num hospital, sob efeito de remédios, só causará ao usuário mais indignação, revolta e até uma posterior recaída.
De dentro de suas salas com ar-condicionado, médicos e representantes do governo traçam políticas públicas para consertar uma realidade da qual eles não têm a menor noção porque nunca a vivenciaram. Por alguns anos, usei cocaína e fui traficante e afirmo que ninguém entra nesse mundo simplesmente porque quer virar “noia” ou se tornar andarilho. Há todo um contexto que deve ser levado em consideração. O histórico de vida do dependente: quem é ele, de onde veio, quem são seus pais, irmãos e principalmente: qual é o sonho desse indivíduo. Muitas vezes ele quer deixar aquele mundo, trabalhar e reconstruir sua família, mas o vício é algo incontrolável que nos tira o raciocínio e a sanidade.
Por isso, mais do que simplesmente tirá-los das ruas, é preciso oferecer-lhes ferramentas para ajudá-los a reconstruir outra vida pós-crack. E o usuário precisa se convencer de que alcançará esses objetivos depois de largar o vício. Como dizia Nietzsche: “detesto quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”. O poder público quer tirar os dependentes de seu uso solitário da droga, mas o que pretende oferecer depois às pessoas que tem o centro da cidade como casa, o lixo como refeição, as ruas como escola e a sociedade como inimiga? Retirá-los à força das cracolândias do país é simplista. O difícil é mostrar-lhes um caminho alternativo depois do tratamento. E para isso o governo ainda não ofereceu respostas ou alternativas.
O tratamento compulsório é ineficiente, pois o usuário ficará afastado do vício somente por um período. Depois ele voltará às ruas, encontrará as mesmas pessoas, o mesmo ponto de tráfico e não necessariamente deixará de usar cocaína ou crack. Compulsoriamente, ele também tomará os remédios exigidos pelos médicos da instituição pela qual passará. Só mudará o tipo da droga e da dependência.
Já convencer o dependente a largar o vício é oferecer-lhe, em parceria com ele, uma nova opção de vida. Trata-se de resgatar sua autoestima e apontar como ele pode fazer efetivamente parte da sociedade. É fazê-lo deixar a clínica de cabeça erguida e mostrar que ele é digno de viver por si próprio e não sobreviver de comportamentos perversos para conseguir a droga. E disso depende o tipo de abordagem do técnico e sua maneira de falar, olhar, tocar e gesticular. O dependente deve sentir que a pessoa que o aborda sabe do que está falando, que é conhecedor do problema dele não porque simplesmente viu pela TV, mas por já ter vivido situação semelhante ou já ter ajudado pessoas assim.
Em vez de usar da força, o educador tem de ser persuasivo, afetivo e emotivo. Deve-se insistir de acordo com o espaço que o usuário lhe dá e isso acontecerá ora sim ora não. Quando não houver diálogo e uma aproximação, o melhor é voltar outro dia. E quantos outros forem necessários. Quem usa crack não confia em qualquer pessoa. Quantos não passaram na vida dele fazendo promessas e depois foram embora sem sequer dizer adeus? O vínculo afetivo é extremamente importante, senão a principal arma para se aproximar do usuário, uma vez que ele é arisco, desconfiado e dificilmente deixa pessoas de outras “tribos” e realidades chegarem perto dele.
Convencê-lo a deixar esse mundo de exclusão em troca da realização de um sonho é o que Projeto Sonhar vem fazendo no Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo. Por meio do vínculo afetivo e recuperação da autoestima, o programa tem como finalidade orientar e resgatar toda a pessoa em situação de vulnerabilidade decorrente do contato com as drogas. Somos facilitadores de ações educativas que possibilitem criação de oportunidades ao usuário. Desde 2008, 30 garotos foram retirados do tráfico e do vício e hoje estão a caminho de realizar suas aspirações, sem recaídas.
É o caso, por exemplo, de Anderson, de 22 anos, morador do Parque Santo Antônio. Ele usava drogas, principalmente crack, com sua mãe desde os nove anos de idade. Foi numa abordagem direta e verdadeira que ele aceitou nossa proposta de tratamento. No primeiro contato, ele só disse que era usuário. Na segunda abordagem, o levamos para almoçar e ele se abriu. Contou-nos que queria parar de usar drogas para poder cuidar da mãe e dos irmãos. Tinha o sonho de se sentar à mesa de refeições pela primeira vez com outras pessoas e comer como gente. Também queria aprender a ler, a escrever e tentar um emprego com carteira assinada. Anderson topou se internar após saber que este educador já havia passado pela mesma situação que ele. E havia saído dela vitorioso.
Foram estabelecidos alguns acordos, como em qualquer parceria. Anderson cumpriria seu tratamento e eu levaria utensílios, mantimentos, medicamentos, material higiênico à sua família durante os meses que ele ficasse em recuperação. Após visitá-lo na clínica, a mãe também decidiu se tratar. Diagnosticada com um câncer, porém, ela faleceu tempos depois. Mas não sem antes ter realizado o sonho do filho que era ouvir dela: “Filho, vá comprar o pão”, ao invés de “Anderson, vá buscar a pedra”.
Hoje Anderson Odorico trabalha, estuda, cuida dos irmãos mais novos e é membro do Projeto Sonhar. Assim como Anderson, Edcarlos, Guilherme e Genildo também eram viciados. Perderam empregos, se afastaram da escola e da família. Hoje cada um deles se dedica a ajudar pessoas com o mesmo problema e com o mesmo sonho que um dia eles tiveram e que viram se tornar realidade tempos depois.
Nossa metodologia funciona pelo fato de falarmos a mesma língua dos usuários e por estarmos constantemente presentes em suas vidas. Todas as pessoas de sua convivência, como familiares e vizinhos, têm o telefone do projeto e podem recorrer a nós sempre que precisam. Isso lhes transmite confiança e nos dá credibilidade para continuar o trabalho.
Para fazer esse serviço funcionar como uma política pública é preciso estabelecer parcerias com comunidades terapêuticas para onde seriam encaminhados os usuários que aceitassem o tratamento por livre e espontânea vontade. Educadores que conheçam a área de atuação e, de preferência, tenham vivenciado aquela realidade também são peças fundamentais nesse processo. Ex-usuários poderiam ser recrutados para fazer esse trabalho. Outra medida essencial é o atendimento às famílias dos dependentes. Elas precisam saber como lidar com os novos hábitos, valores e costumes do indivíduo depois que ele deixar a clínica. Também é necessário se criar uma rede de apoio para que ele não tenha recaídas e continue a viver abstinente. Além de escolas e unidades básicas de saúde (UBS) locais, seria importante contar com a retaguarda de centros de atendimento ao trabalhador (CATs), agências de emprego, e cursos profissionalizantes para recolocá-los de volta ao mercado.
Só assim eles se sentirão importantes à sociedade.

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