Pular para o conteúdo principal

Vergonha Rio Preto e a falência da Política


Luciano Alvarenga
A recente e mal fadada reunião entre algumas lideranças do Vergonha Rio Preto e o presidente da Câmara Municipal da cidade é bastante revelador das engrenagens que movem os interesses políticos e, os limites da sociedade civil ante o estado desolador da política institucional. Era cristalino que nenhum entendimento seria possível tendo em vista o fato de que as partes em questão, com interesses diametralmente opostos, nunca poderiam, por isso mesmo, chegar a nenhum consenso.
A política não é coisa de amador nem espaço que se dê a permeabilidade de interesses ou reivindicações, que não àquelas que façam parte do jogo de poder dos protagonistas da política. Dito em outros termos, os políticos são profissionais num jogo de interesses pesados que apenas e casualmente tem consonância com os interesses da sociedade de maneira geral. É por isso que a democracia se transformou, em função da profissionalização e mercantilizarão da política, num cínico teatro de confirmar eleitoralmente o que não pode ser mudado ou, em que qualquer escolha coaduna para o mesmo resultado.
A ideia ainda difundida, muito mais pelos cínicos, de que cabe ao indivíduo ingressar nas hostes partidárias e lutar pela melhora do quadro geral, desconsidera o fato bastante claro, a quem minimamente tenha participado de algum partido, de que nada nenhum interesse, projeto ou iniciativa tem bom grado destino dentro da lógica partidária. Simplesmente porque a prerrogativa mesma de sucesso dentro do labirinto da política significa abrir mão de qualquer veleidade de mudança. Entrar em um partido é a primeira e mais contundente forma de não conseguir fazer nada. Intimar a sociedade civil de maneira geral, ou indivíduos de maneira particular, a participar da política como fazem os políticos e seus representantes, e ainda afirmar que é apenas ali onde as coisas podem ser feitas, é a melhor maneira de calar a voz daqueles e levá-los à desqualificação social. Esse discurso mouco usado pelos agentes profissionais da política é um canto de sereia.
A política como ferramenta de transformação social está completamente corroída pelos interesses econômicos, financeiros, corruptos e particulares da plutocracia e de uma miríade de desqualificados que vê na política única e exclusivamente um meio de beneficio próprio. 
A cena brasileira atual é absolutamente pedagógica no sentido de evidenciar o cenário acima, somado ao fato de que a sociedade civil está completamente letárgica e desinteressada de qualquer coisa que não seja seu mundo particular. Entre pobres trabalhadores que acessam bens de consumo durável pela primeira vez e os milhões de miseráveis que conseguiram entrar no século XX, por meio da generosidade governamental, passando por uma classe média mal informada, preconceituosa e conservadora o que temos é a ausência da política como fermento de cidadania e ação social. A ação política praticada por movimentos como o Vergonha Rio Preto e uma infinidade de outros Brasil afora, movimentos completamente esvaziados de participação social significativa, é absolutamente desimportante do ponto de vista da magnitude do que deveria estar sendo feito.
O que se quer dizer é que o pano de fundo onde atuam estes movimentos não se altera de forma significativa com a ação praticada por eles. Basta olhar todos os índices internacionais sobre educação, saúde, investimento público em relação ao PIB, concentração de renda e IDH para ver que o quadro no Brasil é desesperançoso. O fracasso de uma reunião que se imaginou possível entre um importante movimento social recentemente fundado em Rio Preto e a presidência do poder Legislativo desta mesma cidade é pontual, mas significativa para clarear o estado de falência das instituições políticas em colocar os interesses sociais acima do jogo político.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se o mundo tivesse 100 pessoas LEGENDADO (premio Cannes)

Ter pinto é crime

Luciano Alvarenga
Uma coisa é o movimento feminista, outra, são as mulheres. Feministas gostam de política, ou pelo menos de terem contra o que levantar suas bandeiras de ódio; mulheres gostam de homens e de uma vida alem da política. O movimento feminista foi desde o princípio, pelo menos aquilo que se pode chamar assim, nos anos 1950, não em direção as mulheres, mas contra os homens. O homem sempre foi o alvo do movimento; não se trata de libertar a mulher seja do que for que se imagine ela precise ser liberta, mas de constranger o masculino de tal forma que o movimento feminista, não as mulheres, tenha mais e mais poder. Aliás, o movimento feminista não está nem ai com as mulheres, basta ver o absoluto silêncio desse movimento em relação à presença de um jogador de vôlei masculino (há quem acredite que lhe terem amputado o pênis e convertê-lo numa vagina, o tornou mulher, kkkkk) num time feminino, sem que isso cause o menor constrangimento político no movimento feminista (aqui é mais…

Sem chão nem utopia

Luciano Alvarenga A grande promessa da modernidade foi oferecer liberdade contra tudo e qualquer coisa que pudesse impedir os indivíduos de fruírem a vida sem amarras. Podemos dizer que, tal liberdade foi conquistada plenamente, e ainda que alguns resquícios de passado, com suas imposições e limites ainda resistam, derretem rapidamente nesse momento; não deixando atrás de si nada que possa servir como estandarte pra novas rebeliões. Não há contra o quê se rebelar. Todos os sólidos do passado, seja moral ou secular, estão liquefeitos; ao indivíduo resta apenas o destino de se guiar, tendo a si mesmo como referência. Ao mesmo tempo em que goza de todas as liberdades, vividas ou sonhadas, realizadas ou posta como possibilidade, o que se desenha nas pegadas daquele indivíduo é o medo, o receio, a insegurança, a incerteza em relação a si mesmo e aos seus destinos possíveis. A própria ideia de destino nada mais é que uma imagem, uma ilusão de quem ainda pensa que se guia de acordo com alguma r…