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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Artigo do Libération analisa novo eleitor e novo PT


Artigo do Libération analisa novo eleitor e novo PT Rudá Ricci

No final de ano fui entrevistado pela jornalista Chantal Rayes, do jornal francês Libération. O artigo foi publicado na virada do ano, mas somente agora tive acesso (ver ilustração desta nota).
Publico, a seguir, uma tradução livre desta matéria, mas o internauta pode acessá-lo na íntegra AQUI .

Ele conhece a marca e o modelo do smartphone na ponta dos dedos e faz a diferença entre uma tela de LED e plasma. Mas, e a política? "Não me interessa" diz Eguinaldo, 25 anos. "E se o voto não fosse obrigatório no Brasil, eu nem me incomodaria" Mas ele não reclamou do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda), no poder desde 2003, com Lula e Dilma Rousseff , eleita há dois anos, graças ao equilíbrio social de seu antecessor e agora mais popular do que ele (77% a favor).

Nos últimos anos, com a melhoria de sua renda e a democratização do crédito Eguinaldo e sua esposa adquiriram bens antes inacessíveis: forno, geladeira, máquina de lavar, vídeo game ... A lista é longa.
Foi ao centro de compras de São Paulo para saber o preço de uma TV nova. "A nossa tem dois anos e meio", explica o porteiro, que cobiça um home theater.

VorazEguinaldo pertence ao que institutos de pesquisa denominam de "Classe C", o segmento da população cujos rendimentos estão entre 105 e 370 euros por mês. Em dez anos, com a criação de empregos e o aumento do salário mínimo (231 euros), a "Classe C", que muitos especialistas relutam em chamar de "média": saltou de 38 % para 52% da população, "passando de lumpemproletariado para proletariado", diz o cientista político André Singer, um ex porta-voz de Lula. Eles possuem menos de 30 anos. Se transformaram em consumidores vorazes, com endividamento crescente.

Conservadores, eles são contra o casamento gay ou o aborto. Sem muita instrução e bastante apolíticos, se opõem a qualquer forma de mobilização, sinônimo de desordem: são os novos eleitores PT em desacordo com a sua base tradicional, a classe média, que se afasta do partido devido à corrupção, mas também porque é ela - e não os ricos - que pagou o preço da política de redistribuição de Lula. Ao permitir o acesso de pobres a bens de consumo e reduzir o conflito social, Lula superou a desconfiança que envolvia o PT e sua história de lutas sociais.

No entanto, nas eleições de outubro, em São Paulo, esses eleitores optaram inicialmente pelo apresentador de TV Celso Russomanno. "As pessoas o conheceram como guardião da defesa do consumidor", afirma o presidente do PT, Rui Falcão. 
Para André Singer, o déficit de cidadania vem do fato dos pobres não necessitarem lutar para melhorar suas vidas: "A mobilização política faz as pessoas sentirem que obtiveram a conquista de um direito. Caso contrário, nem sempre sabem exatamente por qual motivo sua vida melhorou. Podem crer que foi somente através do seu esforço pessoal."

"Os brasileiros que deixaram a pobreza, não o fizeram pela afirmação de seus direitos, mas pelo consumo, acrescenta o cientista político Rudá Ricci. Antes, eles não eram bem-vindos nos shoppings, porque não podia comprar nada. Agora, são respeitados. O comércio os  recebe, os bancos emprestam dinheiro a eles.  Ex-petista, lamenta o tempo em que Lula percorria o Brasil em" caravanas da cidadania "para despertar a consciência política das massas privadas.  "Hoje não se fala em política, mas no consumo como garantia de dignidade humana." Para Ricci, "os pobres não são fiéis ao PT, mas votam para a pessoa que irá permitir-lhes continuar a consumir. É o triunfo do individualismo."


Fernanda, chefe de família, confirma esta análise: "Os brasileiros não se movem um dedo para o bem coletivo." No entanto, se a pobreza diminui, os serviços públicos, como educação e saúde, não melhoraram. "As pessoas pagam uma escola e um seguro de saúde privado em vez de exigir que o Estado cumpra com as suas responsabilidades", acrescenta ela.


O movimento de camponeses sem terra, outrora poderoso, não é capaz de mobilizar, e a reforma agrária estacionou. "Não há mais uma liderança que consiga pensar uma solução para os nossos problemas", sustenta Rudá Ricci. "Desde que o PT chegou ao poder, o Estado passou a tutelar associações e sindicatos com financiamento direto. Os espaços da sociedade civil independente são cada vez mais restritos, assim como os da oposição, e isso não é bom para a democracia."

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