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domingo, 9 de dezembro de 2012

Classe média alta de Rio Preto no tráfico de drogas

Cocaína e ecstasy rolam solto na alta roda

Allan de Abreu Diário da Região

Arte sobre fotos/Adriana Carvalho
Médicos são acusados de induzir o consumo de cocaína e ecstasy em festas rave
Festas caras com música eletrônica e bebida à vontade durante dois ou três dias seguidos, promovidas por jovens de classe média-alta de Rio Preto, se tornaram cenário para o consumo de drogas, principalmente ecstasy e cocaína. A constatação vem de processo judicial em que os médicos Oscar Victor Rollemberg Hansen, 31 anos, e Ivan Rollemberg, 25, primos, são acusados pelo Ministério Público de induzir o consumo de entorpecentes nesse tipo de evento.

Oscarzinho e Ivanzinho, como são conhecidos, organizam há seis anos a festa eletrônica La Locomotive. A última será neste fim de semana, em Rio Preto. Cada festa chega a reunir de 3 mil a 4 mil pessoas. Segundo a denúncia do Ministério Público, os primos “integram um circuito de festas de elevado padrão social e seus frequentadores, em especial os participantes do círculo de amizade de ambos, fazem uso de entorpecentes (cocaína e ecstasy)”.

O envolvimento de Oscar e Ivan com drogas aparece em diálogos captados com autorização judicial em 2009 pelo Gaeco, braço do Ministério Público que investiga o crime organizado. As conversas telefônicas surgiram durante as investigações da Operação Ouro Branco, em que Oscar era acusado de liderar esquema de fraude tributária no comércio de borracha. Um novo inquérito foi aberto pelo Gaeco para investigar as tratativas de compra de drogas por Oscar para consumo dele e dos amigos em festas promovidas pelos primos.

No dia 17 de maio de 2009, Oscar telefona para o amigo Marcelinho e pede para ele levar um terceiro colega, Danilo, à festa La Locomotive, mas deixa claro que é para Danilo não levar drogas: “Então cê faz o seguinte, cê vai pousar do lado da minha casa, cê vai ficar hospedado lá no hotel comigo, cê (inaudível) com teu amigo, e cê leva aquele Danilo pão duro lá e fala pra ele pará de levar bala essas coisas que fica tudo doido, lá tem tudo, relaxa”.

Ainda naquele mês, dia 30, o médico convida outro amigo, Fábio, para uma festa em Campos do Jordão: “O flyer da festa de Campos já tá pronto, eu vou mandar pra vocês. Eu quero vê-los somente em Campos cara, lá vai nevar, porque lá é muito frio”. Ao que o amigo responde, rindo: “Nós vamos convocar o Evo Morales”. Para o Ministério Público, referência indireta à cocaína, uma vez que a Bolívia, país presidido por Morales, é produtor da droga.

Oscar começa então a se movimentar para comprar droga. Em 10 de junho, telefona para um taxista e, segundo a Promotoria, encomenda droga. “Nós vamos passar um feriado em Campos (do Jordão), aí eu precisava duma corrida lá daquelas de 500 reais, cê num tem? (corrida, segundo o Ministério Público, é gíria para cocaína).” Ao que o taxista, de nome Erivandro, responde: “Mas é muito pra mim levá”. Oscar insiste: “(Leva) daquela especial lá, um abraço”.

Ivan, primo de Oscar, também se refere a drogas em diálogos captados na investigação. No dia 8 de junho, um amigo pergunta a Ivan como conseguiriam droga para uma festa. “Cê num vai gastar com a ida, com nada, pelo menos o polvilho cê vai tê que levar”, diz o médico. Polvilho, no entender do Ministério Público, é gíria para cocaína. O colega diz que compraria na Capital para não viajar com droga no avião: “Tem que arrumar em São Paulo pra comprá. Cê acha que eu vou ficar voando com essa porra, tá loco?”

Indução

Para o promotor Julio Sobottka, autor da denúncia, “é inequívoco que Oscar não só arcava com os gastos decorrentes das festas realizadas, bem como era o principal articulador na aquisição da droga consumida por ele e seus amigos, assim como seu primo Ivan era certamente o principal organizador dos eventos em tela, e ainda colaborava com a inserção das drogas nas festas”.

A La Locomotive foi alvo de investigação em 2010, desta vez da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes. Naquele ano, porém, os policiais encontraram apenas uma pequena porção de cocaína e comprimidos de ecstasy dentro de uma caixa de som. Um dos participantes da festa foi enquadrado por porte de entorpecente, e liberado.

O Ministério Público denunciou os Rollemberg com base no artigo 33, parágrafo 2º, da lei 11.343/06 (induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga). A denúncia já foi aceita pelo juiz Caio César Melluso, da 5ª Vara Criminal de Rio Preto. Não há prazo para o julgamento do processo. Se condenados, os médicos podem pegar pena de um a três anos de prisão, além de multa.

Do látex para a coca

Não é a primeira vez que o médico e empresário Oscar Victor Rollemberg Hansen tem problemas com a Justiça. Em janeiro de 2010, ele foi alvo da Operação Ouro Branco, que investigou um grande esquema de sonegação fiscal no comércio de borracha na região. Pelo menos R$ 40 milhões teriam sido sonegados do fisco paulista.

Oscar, dono da empresa SP Látex, é apontado como o líder do esquema que conta ainda com outros dez integrantes. Em agosto do ano passado, ele foi condenado pela 5ª Vara Criminal de Rio Preto a 14 anos de prisão por estelionato, falsidade ideológica, formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Chegou a ficar um mês e meio preso, mas acabou solto por decisão do Tribunal de Justiça, e desde então aguarda o julgamento de recurso ao TJ em liberdade. Em janeiro deste ano, sua empresa foi autuada em R$ 104 milhões.

Defesa tentará trancar ação contra acusados

Roberto Podval, advogado do médico Oscar Victor Rollemberg Hansen, disse que pretende ingressar com recurso no Tribunal de Justiça (TJ) na tentativa de trancar a ação penal na 5ª Vara Criminal de Rio Preto em que os primos Oscar e Ivan Rollemberg respondem por indução ao uso de drogas.

“(O processo) não tem o menor sentido, é pura perseguição contra ele (Oscar)”, afirmou Podval. “Tenho certeza de que vamos suspender essa ação no TJ.” O Diário entrou em contato com Ivan na tarde de sexta, mas ele não quis comentar o assunto. Pediu para que a reportagem ouvisse o advogado dele no processo, Edlênio Xavier Barreto. Mas Barreto também não quis falar sobre o caso, alegando que a ação penal tramita sob segredo de Justiça. “Se eu fizer qualquer comentário posso estar convalidando o crime de quebra de sigilo judicial”, argumentou.

Tanto Podval quanto Barreto já se manifestaram dentro do processo, já que, em ações referentes à lei 11.343, de 2006, o juiz deve ouvir as alegações dos advogados de defesa antes de decidir se aceita ou não a denúncia do Ministério Público. No caso dos primos Rollemberg, o juiz Caio César Melluso acatou a denúncia e instaurou formalmente a ação penal.

Festa

Uma das festas eletrônicas mais badaladas do País, a La Locomotive Weekend tem sua 8ª edição neste fim de semana. O evento será dividido em três partes. A primeira, chamada “Festa do Branco”, foi anteontem, na boate Pink Elephant. Ontem à tarde estava prevista a segunda parte, uma “pool party” apenas para VIPs na Casa Pink, uma mansão na avenida Anísio Haddad.

A terceira fase da festa, a principal delas, começaria ontem à noite e se arrastaria domingo afora no Automóvel Clube de Campo. A festa era open bar, com direito a uísque Johnny Walker, vodca, cerveja, suco e água. Preço do ingresso: R$ 260 para homens e R$ 180 para mulheres.


Guilherme Baffi
Diário flagrou tráfico e uso de drogas na Playground Music Festival, rave com parque de diversões
Drogas são comuns em festas eletrônicas

O tráfico e consumo de drogas sintéticas, como ecstasy e LSD, são comuns em festas rave da região. Em novembro de 2010, o Diário flagrou o crime na Playground Music Festival, uma mistura de rave com parque de diversões itinerante que começou em 2006. A festa ocorreu no Recinto de Exposições de Rio Preto.

Apesar dos 100 seguranças e de policiais civis infiltrados, o tráfico e consumo de drogas era descarado, mas ninguém foi detido. Entre a meia-noite e as três da madrugada, em três ocasiões a reportagem flagrou rapazes diferentes vendendo comprimidos de ecstasy e micropontos (selo minúsculo de papel) embebidos de LSD. Uma ao lado da pista de dança e duas em frente aos banheiros químicos masculinos, a menos de dez metros dos seguranças. A própria reportagem comprou um microponto de LSD por R$ 50. Basta chegar no traficante e pedir pelo “doce”.

Naquela noite, foram feitos 30 atendimentos pela equipe médica de plantão na festa, de acordo com a assessoria da Playground. Desses, quatro precisaram ser removidos para hospitais da cidade por uso excessivo de bebida alcoólica e outros dois pela combinação de álcool e drogas. Após o caso ser revelado pelo Diário e pela TV Globo, o prefeito Valdomiro Lopes proibiu festas rave no município. 

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