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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

PSDB, um projeto político perdido nos descaminhos eleitorais


PSDB, um projeto político perdido nos descaminhos eleitorais

Por DanielQuireza
Muito bom comentário de ontem, do Jotavê, que tomo a liberdade de reproduzir aqui. Cabe muito bem nesse post: 
De Jotavê
O dilema do PSDB
O dilema do PSDB, após a derrota em São Paulo, não diz respeito apenas à opção entre continuidade ou renovação de quadros. Arthur Virgilio expressou muito bem a parte mais profunda do dilema vivido pelos tucanos. O partido tem que se decidir. Ou bem continua sendo o porta-voz da extrema direita brasileira, abrigando desde o discurso preconceituoso contra homossexuais até uma critica neoliberal a políticas de distribuição direta de renda; ou então retoma o discurso social-democrata que motivou sua formação e seu batismo, desvinculando-se desse discurso antipovo que o transformou no principal opositor de um governo que tirou 30 milhões de brasileiros da miséria absoluta.
O que Arthur Virgílio não disse, nem irá dizer, é que a história não termina aí. Se resolver voltar às origens, o PSDB precisará rever completamente seu posicionamento no jogo político nacional.
A questão é bem simples. O PT é, hoje, o partido que implementa o projeto social-democrata no Brasil. Não é possível para os tucanos "voltar às origens" e, ao mesmo tempo, manter uma oposição diametral em relação a Lula e ao Partido dos Trabalhadores. Se fizer isso, será um partido esquizofrênico, bifronte, com duas personalidades - uma inscrita no programa partidário, outra constitutiva de seu arco de alianças.
O único caminho de volta às origens dos tucanos passa necessariamente por uma aliança ESTRATÉGICA com o PT, dando-lhe sustentação no Legislativo. Em princípio, isso não teria nada a ver com o lançamento de candidaturas independentes às eleições majoritárias. A depender das circunstâncias, essas candidaturas concorrentes seriam perfeitamente viáveis. Quando não o fossem, seria relativamente fácil fechar questão em torno de um candidato único da base governista com base numa partilha do poder. Não há dificuldade alguma aí. Funciona assim no mundo todo.
Se é tão fácil, por que isso não é feito? Por um motivo simples. O PSDB tornou-se refém de um discurso raivoso e cheio de preconceito. Sua base eleitoral (ou parte significativa dela) se identifica com a truculência verbal, e se regozija entretendo o pensamento ilusório de que constitui uma espécie de "elite intelectual" capaz de ver na política profundezas de que as pessoas comuns não desconfiam.
Mais ainda. Esses militantes se veem como uma espécie de "elite ética" da nação, numa postura muito semelhante àquela que caracterizava o petismo nascente. A diferença é que, no PT da década de 80, esse sentimento era de algum modo justificado. Enquanto os outros partidos montavam suas campanhas com dinheiro doado pelas grandes corporações, ou simplesmente surrupiado dos cofres estatais pelas vias conhecidas, os petistas sustentavam o partido na base de rifas, quermesses, almoços e recolhimento de um dízimo do salário dos militantes eleitos. Sentiam-se diferentes, e ERAM diferentes. Parafraseando Woody Allen, os tucanos de hoje têm todos os sintomas da tal "superioridade ética", mas não têm a "doença". São santinhos do pau oco, caras-de-pau fingindo a preocupação ética na sala de visitas e recolhendo a graninha da Alston no quintal.
Seja como for, essa mitologia é poderosa. Basta ler os blogs que os tucanos frequentam para sentir isso imediatamente. Qual é a mitologia divulgada ali? O autor do blog se apresenta como um homem de cultura e sentimentos éticos superiores que se dirige a seus pares - uma elite que é mais inteligente, mais culta, mais educada e moralmente impoluta. Nada os abate. Dão capa para o Arruda e, quando este é pego com a boca na botija, dão capa ao Demóstenes. Sai Demóstenes, entra Joaquim Barbosa, que deverá ser logo logo vomitado das primeiras páginas, assim que se constatar que ele representa muito mais um perigo que uma esperança. Veremos.
Pouco importa. Cai um santo, outros são prontamente fabricados, e o eleitor tucano segue firme na sua convicção de que pertence ao mundo dos bons e dos justos. O Professor Hariovaldo foi quem melhor captou essa mitologia no registro do humor. Nem seria necessário. Ela não está oculta. Está escancarada nos textos com os quais essa gente se identifica e na qual sorve sua dose diária de satisfação narcísica.
O PSDB tornou-se, portanto, refém do eleitorado preconceituoso e reacionário que criou. É ali que tem sua base mais firme, seu militante entusiasmado, que vem às redes repetir termos como "apedeuta" e "petralha" de boca cheia.
Para "voltar às origens" sem exibir uma personalidade cindida, teria que abandonar seus fiéis seguidores, coisa que o partido dificilmente fará. É um beco sem saída, a meu ver. O discurso ensandecido de políticos como José Serra criou um monstro, que agora se volta contra seus criadores, tolhendo-lhes os movimentos e anulando as alternativas mais interessantes que, de outro modo, eles teriam. O prefeito Arthur Virgílio pode querer voltar, se quiser. Mas há um rio maior que o Amazonas a ser transposto, e todas as pontes que uniam as duas margens foram dinamitadas ao longo de dez anos da mais completa insensatez.
Que o destino trágico dos tucanos sirva de lição ao PSB. Também ele está sendo chamado pela imprensa conservadora a ocupar as primeiras páginas e receber as honras da casa, desde que concorde em representar o papel do canastrão careca que agora se aposenta. Se fizer isso, estará caindo na mesmíssima armadilha, e terá exatamente o mesmo destino. Ficará condenado a encarnar um personagem cada vez mais distorcido, cada vez mais virulento, cada vez mais antipovo, cada vez mais afastado da palavra "socialismo" que dá nome ao partido.
O Brasil precisa de uma base estável de esquerda que se reconheça enquanto tal e se oponha em bloco às tentativas de sabotar os projetos de modificação do perfil absurdamente injusto de distribuição de renda com o qual temos que conviver. O lugar do PSB é nessa base de apoio.
Quando chegarem as eleições presidenciais, veremos o que se faz. No limite, o partido será sempre livre para lançar candidatura própria e tentar a sorte, e o PT terá que ter a sabedoria de compreender que isso é perfeitamente natural. A alternativa é enveredar pelo caminho sem volta no fim do qual estão pessoas como Silas Malafaia e o coronel Telhada. É pegar ou largar.
Os principais líderes do partido, que são jovens, devem refletir muito a respeito disso, e não se esquecer de que, se um dia estiverem fazendo coro ao que há de mais nojento e irracional na imprensa brasileira, nem sequer terão o consolo de estarem mortos, como Mário Covas, para não ter que presenciar essa vergonha.

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