Pular para o conteúdo principal

Crianças da Etiópia hackeiam um tablet em apenas cinco meses


A experiência com tablets entre as crianças da Etiópia

Por André Paulistano
A notícia saiu na semana passada, mas não deixa de ser interessante: a fundação OLPC (One Laptop per Children) deixou na mão de algumas crianças em várias aldeias da Etiópia unidades do Motorola Xoom. Crianças na idade entre 4 e 8 anos, paupérrimas, a maioria nunca tendo visto qualquer tipo de tecnologia mais avançada e analfabetos. O resultado ao final de cinco meses impressionou até mesmo os mais otimistas: as crianças foram capazes não apenas foram capazes de usar corretamente o tablet, como também conseguiram hackear o aparelho!
A experiência da OLPC era simples: em conjunto com alguns técnicos da própria Etiópia, eles criaram cabanas repletas de paineis solares (para que fosse possível recarregar os aparelhos) e em várias vilas do país deixaram um presente para as crianças. Caixas e mais caixas com o Motorola Xoom dentro. E só. Nenhum deles instruiu as crianças sobre o uso, não havia ninguém ali para ensinar as crianças a sequer ligar o tablet. A idéia era ver o que acontecia. Como relata Nicholas Negroponte (presidente da OLPC), o resultado foi impressionante (tradução livre):
“Nós deixamos as caixas ali. Fechadas. Sem instruções, nada. Pensamos: “as crianças vão brincar com as caixas! Mas em coisa de quatro minutos, uma das crianças abriu a caixa, e encontrou o botão liga/desliga. Ele nunca havia visto um botão desses em toda sua vida, mas mesmo assim ligou o tablet. Em menos de cinco dias, cada criança usava em média 47 apps por dia. Em duas semanas, eles já estavam cantando algumas canções em inglês. E, em cinco meses, eles já haviam hackeado o Android. Algum idiota em nossa organização havia desabilitado a câmera dos tablets! E as crianças perceberam que ali deveria haver uma câmera, e hackearam o Android para habilitá-la.”
(Antes que os haters do Android comecem, “hackear” aqui é utilizado mais em um sentido de alterar, modificar, e não de invadir)
A notícia em si parece bobagem, mais um experimento curioso, mas a verdade é que os resultados são mais interessantes do que parecem. As crianças não tiveram um instrutor, não tiveram nenhuma educação formal ali. Todas as descobertas foram feitas na base da tentativa e erro, do raciocínio lógico. E cada novidade era compartilhada entre as crianças. Elas se ensinavam, sem a supervisão ou interferência de um adulto. E em cinco meses elas foram capazes de feitos incríveis. Isso mostra que:
1 – A tecnologia como nós a conhecemos já deixou de ser uma coisa “técnica”. Dispositivos sensíveis ao toque transformaram a forma como interagimos com o mundo e aprendemos. Antes precisávamos saber ler, ou saber operar um joystick para jogar, ou operar um aparelho complicado para assistir um filme. Hoje tudo isso está na palma das nossas mãos, através de ícones coloridos e comandos simples de entender. Baseando-se nisso, boa parte da nossa educação tradicional está absurdamente ultrapassada.
2 – Se nossa educação tradicional está ultrapassada, os programas do governo (não importa qual governo) também estão ultrapassadas. Iniciativas como o “Projeto Cauã” de John Hall, que desde 2007 trabalha com a idéia de criar centros de tecnologia em comunidades de baixa renda, deveriam ser o modelo a ser seguido, o rumo a ser tomado.
3 – Crianças mostram como nós mesmos criamos nossas restrições, nossos obstáculos, ao longo dos anos. Cansamos de ouvir (e falar) “é difícil”, “é complicado”, “não sei se vou conseguir” e criar as mais diversas desculpas na hora de aprender uma atividade nova, um conceito novo. Quando fazemos como as crianças e simplesmente abrimos nossas mentes, não é difícil aprender algo novo. Seja por tentativa e erro, seja através de raciocinio lógico. Passamos tantas décadas em volta de tecnologias que facilitam nossas vidas que esquecemos como pensar em soluções que não tenham sido passadas através de manuais na escola.
4 – A noção que possuímos da capacidade de pessoas “necessitadas” está toda errada. Ao longo do anos fomos bombardeados com a noção de que as camadas mais pobres da população são incapazes de se virarem sozinhas, incapazes de conseguir grandes feitos sem a mão do “homem rico” lhe ensinando a passo o que deve ser feito. O fato das crianças da Etiópia terem sido capazes de se virarem sozinhas mostra justamente o contrário: elas podem não ter o recursos que nós temos, podem não ter acesso a toda a maravilhosa tecnologia que nós possuímos, mas a chama da curiosidade e da perseverança humana (a mesma que nos deu a roda, a eletricidade e a torta de limão) ainda estão lá. Talvez, só talvez, esse experimento mostre que pessoas de baixa renda precisem muito mais de um incentivo do que alguém 24 horas buzinando no ouvido delas como elas são incapazes de se virarem sozinhas.
Obviamente, professores ainda são importantes. Nem tudo pode ser ensinado através da nossa tecnologia atual. Mas essa história mostra que precisamos, urgentemente, rever muitas das nossas noções sobre educação e capacidade. A tecnologia está anos-luz à frente das nossas idéias.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se o mundo tivesse 100 pessoas LEGENDADO (premio Cannes)

Ter pinto é crime

Luciano Alvarenga
Uma coisa é o movimento feminista, outra, são as mulheres. Feministas gostam de política, ou pelo menos de terem contra o que levantar suas bandeiras de ódio; mulheres gostam de homens e de uma vida alem da política. O movimento feminista foi desde o princípio, pelo menos aquilo que se pode chamar assim, nos anos 1950, não em direção as mulheres, mas contra os homens. O homem sempre foi o alvo do movimento; não se trata de libertar a mulher seja do que for que se imagine ela precise ser liberta, mas de constranger o masculino de tal forma que o movimento feminista, não as mulheres, tenha mais e mais poder. Aliás, o movimento feminista não está nem ai com as mulheres, basta ver o absoluto silêncio desse movimento em relação à presença de um jogador de vôlei masculino (há quem acredite que lhe terem amputado o pênis e convertê-lo numa vagina, o tornou mulher, kkkkk) num time feminino, sem que isso cause o menor constrangimento político no movimento feminista (aqui é mais…

Sem chão nem utopia

Luciano Alvarenga A grande promessa da modernidade foi oferecer liberdade contra tudo e qualquer coisa que pudesse impedir os indivíduos de fruírem a vida sem amarras. Podemos dizer que, tal liberdade foi conquistada plenamente, e ainda que alguns resquícios de passado, com suas imposições e limites ainda resistam, derretem rapidamente nesse momento; não deixando atrás de si nada que possa servir como estandarte pra novas rebeliões. Não há contra o quê se rebelar. Todos os sólidos do passado, seja moral ou secular, estão liquefeitos; ao indivíduo resta apenas o destino de se guiar, tendo a si mesmo como referência. Ao mesmo tempo em que goza de todas as liberdades, vividas ou sonhadas, realizadas ou posta como possibilidade, o que se desenha nas pegadas daquele indivíduo é o medo, o receio, a insegurança, a incerteza em relação a si mesmo e aos seus destinos possíveis. A própria ideia de destino nada mais é que uma imagem, uma ilusão de quem ainda pensa que se guia de acordo com alguma r…