Pular para o conteúdo principal

A cruzada contra a religiosidade no Brasil


Luciano Alvarenga  

O Ministério Público Federal, na esteira do ativismo político do judiciário, move ação para que seja retirada das notas de Real a frase “Deus seja Louvado”. Segundo argumentos do MPF é o fato de que o Estado brasileiro é laico. Ocorre-me dizer que a frase diz muito mais sobre um traço da cultura brasileira, sua religiosidade, do que sobre o teor laico do Estado, mas...
Que o Estado brasileiro é laico já o sabemos desde que a Constituição de 1891 separou Igreja e Estado no Brasil. Chama atenção, entretanto, a agenda - em nome do teor laico do Estado – de desidratação jurídica das expressões culturais religiosas da sociedade brasileira. De repente o Estado laico não pode comportar como seria natural, qualquer sinal ou vestígio de religiosidade - não religião - por que isso atenta contra a cidadania do povo. Ora, mas não é o povo em sua maioria religioso?
O que quero dizer é que o que está em jogo no Brasil e capitaneado pelo MPF e, outros órgãos, não é o perigo de contaminação religiosa do Estado, perigo que não corremos há 120 anos, o que está em andamento é uma campanha de instituições do Estado contra as expressões religiosas do povo.
Uma nova geração de profissionais destes órgãos, antenados com algo que julgam equivocadamente moderno, tem levado a cabo uma agenda de mudanças jurídicas e que significa que qualquer coisa que nos remeta ao passado, como as complexas e profundas raízes religiosas da nação deve ser passo a passo empurrada para guetos e espaços privados de expressão.
Religiosidade segundo o entendimento dos profissionais do Ministério Público Federal é atraso por que é oposto ao que é Laico, sendo laico bom simplesmente por que não é religioso. Que uma frase num dinheiro possa ferir o teor laico do Estado aponta muito mais a fragilidade do Estado no Brasil do que necessariamente o desejo de uma religião qualquer de se apoderar do Estado.
Interessa observar que o mesmo MPF não é tão atendo aos fatos quando esses apontam a imensa precariedade do Estado que no Brasil até hoje foge às suas obrigações constitucionais como oferecer Educação de excelência, saneamento básico a todos em todos os lugares, segurança pública, saúde de qualidade em todos os lugares, distribuição equitativa da renda nacional, cuidado com a criança e o adolescente, e o atendimento integral aos portadores de qualquer deficiência. Aqui o Estado é Laico e ineficiente, mas nesse caso tudo bem.
Que a justiça de uma maneira geral e o MPF de forma particular não se interesse por aquelas cruciais questões nem aponte criminalmente os responsáveis, mas por outro lado, seja tão cioso pelo caráter laico do Estado é uma evidência de que a questão central para eles não é se o papel do Estado junto à população está sendo cumprido como manda a Constituição, mas sim a necessidade de cravar no ceio da vida nacional a bandeira contra qualquer tipo de expressão religiosa.
O atraso do país segundo esta nova geração de profissionais do MPF é a religião. Que o Brasil tenha uma das piores distribuições de riquezas do mundo, que a Educação oferecida aos brasileiros nos coloque na rabeira do planeta, que mais de 50% dos brasileiros vivam sem saneamento básico, que ter casa e morar dignamente ainda seja um luxo entre os brasileiros nada disso é importante e nada significa a respeito de qual é de fato o problema. O que explica tudo é a expressão religiosa da nação.
O fato de que o atraso do Estado laico no Brasil não chame a atenção do MPF me faz lembrar a Constituição de 1824 que proclamava o Brasil livre e liberal quando sua economia e sociedade assentavam na escravidão. Parece que as ideias continuam fora de lugar.
Assim como os comunistas nos 1960 foram os “responsáveis” pelo golpe militar que muito nos atrasou e atrasa, que os caipiras e nacionais tenham sido anos 1860 os responsáveis pela continuidade da escravidão por mais duas décadas, que o medo do endurecimento da ditadura nos tenha dado de presente o Sarney nos anos 1980, agora é a expressão religiosa do povo a responsável pela cruzada em nome do Estado laico, quando todos sabem que o Estado já é laico.
Por fim, nossa questão é o fato de que o Estado no Brasil é patrimonialista, clientelista e privatizado, nada tendo a religiosidade do povo com tais questões e, é exatamente por isso que a ação do Ministério Público Federal que se pretende vanguardeira e iluminada é na verdade um cacoete antigo dos estratos de poder no Brasil.         

http://www.youtube.com/user/lucalvarenga?feature=mhee                                               

Comentários

Eder Juno disse…
Amigo Luciano, a retirada da frase “Deus seja Louvado” das notas de Real não significa que questões básicas estão sendo deixadas de lado ou desvalorizadas, no entanto lembre-se de qual é o valor de um signo para o ser humano, pois são estas representações imagéticas que movem nas vontades, desejos, enfim, nossa natureza.

Quando você diz que o povo brasileiro é em sua maioria marcado pelo traço da religiosidade isso não significa, ao mesmo tempo, que as suas religiosidades se assemelhem, na verdade estas tendem a se diferenciarem por questões naturais (diferentes perspectivas do mundo).

O Estado apesar de ser dito "Laico", nem sempre se apresenta como tal, por exemplo: a imunidade de impostos direcionado às igrejas, que tratadas como orgãos filantrópicos acabam se aproveitando da 'fé dos fiéis', "pedindo-lhes", (em nome de Deus), contribuição financeira.

Viva o Estado Laico, a ciência agradece, e ,principalmente, por que saber é, indiscutivelmente, mais sábio do que crer.

Postagens mais visitadas deste blog

Se o mundo tivesse 100 pessoas LEGENDADO (premio Cannes)

Ter pinto é crime

Luciano Alvarenga
Uma coisa é o movimento feminista, outra, são as mulheres. Feministas gostam de política, ou pelo menos de terem contra o que levantar suas bandeiras de ódio; mulheres gostam de homens e de uma vida alem da política. O movimento feminista foi desde o princípio, pelo menos aquilo que se pode chamar assim, nos anos 1950, não em direção as mulheres, mas contra os homens. O homem sempre foi o alvo do movimento; não se trata de libertar a mulher seja do que for que se imagine ela precise ser liberta, mas de constranger o masculino de tal forma que o movimento feminista, não as mulheres, tenha mais e mais poder. Aliás, o movimento feminista não está nem ai com as mulheres, basta ver o absoluto silêncio desse movimento em relação à presença de um jogador de vôlei masculino (há quem acredite que lhe terem amputado o pênis e convertê-lo numa vagina, o tornou mulher, kkkkk) num time feminino, sem que isso cause o menor constrangimento político no movimento feminista (aqui é mais…

Classe média alta de Rio Preto no tráfico de drogas

Cocaína e ecstasy rolam solto na alta rodaAllan de Abreu Diário da Região Arte sobre fotos/Adriana CarvalhoMédicos são acusados de induzir o consumo de cocaína e ecstasy em festas raveFestas caras com música eletrônica e bebida à vontade durante dois ou três dias seguidos, promovidas por jovens de classe média-alta de Rio Preto, se tornaram cenário para o consumo de drogas, principalmente ecstasy e cocaína. A constatação vem de processo judicial em que os médicos Oscar Victor Rollemberg Hansen, 31 anos, e Ivan Rollemberg, 25, primos, são acusados pelo Ministério Público de induzir o consumo de entorpecentes nesse tipo de evento.

Oscarzinho e Ivanzinho, como são conhecidos, organizam há seis anos a festa eletrônica La Locomotive. A última será neste fim de semana, em Rio Preto. Cada festa chega a reunir de 3 mil a 4 mil pessoas. Segundo a denúncia do Ministério Público, os primos “integram um circuito de festas de elevado padrão social e seus frequentadores, em especial os participa…