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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"Sou ateu". E daí?


A discussão sobre o ateísmo

Por Luiz Augusto Rocha
Em um período em que as discussões sobre o peso da religião anda tão em alta, achei interessante este artigo do Camilo Gomes Jr. Ele trata sobre o ateísmo e, para além disso, faz uma crítica aos ateus desconectados de uma visão humanista que mantém visões e comportamentos tipicamente reacionários.
Do A Voz da Espécie
Camilo Gomes Jr
Vou direto ao ponto: tenho verdadeira aversão àqueles autoproclamados ateus de internet, que acham que seu ateísmo pelo ateísmo em si é uma grande causa e um indiscutível sinal de superioridade intelectual. Em primeiro lugar, porque não é preciso ser nenhum gênio para se declarar ateu — estamos cansados de ver revoltadinhos semialfabetizados em vários fóruns virtuais, blog comments e comunidades do Orkut, enfim, onde quer que se discuta sobre crenças religiosas, “gritanto” coisas não muito brilhantes como “Mande esses f**** da p*** se f***** e tomar no c*, entre aí se vc quer mandar pro inferno essa crentaiada” (comunidade no Orkut; os termos chulos foram vetados por mim), ou então “Seu crente de m****, anticristo é a p*** que te fez ok, uma vez que botou mais um asno nesse mundo” (comentário num blog sobre profecias), dentre muitos exemplos ainda mais deprimentes.
Em segundo lugar, causas estão diretamente associadas a direitos fundamentais de todo ser humano que precisam ser reconhecidos sob um legítimo Estado democrático de direito. Portanto, o ateísmo em si mesmo não é nenhuma causa, mas a liberdade de crença (e de descrença), sim. Nesse sentido, a luta é pela coexistência pacífica entre as várias crenças e a descrença, e, não, pela propagação ideológica do ateísmo, com o vão propósito de que esse meme infecte todas as mentes do planeta, blindando-as de vez contra qualquer forma de fé religiosa ou crendice espiritualista.
Até porque há evidências que corroboram a tese de que a seleção natural favoreceu na espécie humana o desenvolvimento de cérebros mais propensos a cometer erros de tipo I (falsos positivos) do que erros de tipo II (falsos negativos), devido ao custo maior destes, no que dizia respeito a nossas chances de sobrevivência e reprodução no ambiente ancestral — ou seja, há uma tendência natural à credulidade no ser humano. Some-se a isso o fato de que, conforme lembra Steven Pinker em Tábula rasa (Companhia das Letras, 2004), as crianças parecem demonstrar uma inclinação espontânea para leituras dualístico-animistas das coisas que veem no mundo à sua volta. Em suma: é de uma enorme ingenuidade achar que se pode persuadir toda a humanidade a tornar-se ateia e filosoficamente fisicalista. A religiosidade humana, conforme nos levam a crer as evidências e estudos disponíveis, muito provavelmente estará sempre por aí, ao nosso redor, ainda que o número total de crentes possa ser diminuído, algo que o aprimoramento do sistema educacional, combinado à melhora de outros indicadores, parece estar conseguindo em vários países europeus, como a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia etc.
De fato, como o processo de desconversão religiosa consiste numa resolução de manifesta dissonância cognitiva na mente da pessoa, trata-se de um fenômeno de natureza invariavelmente subjetiva. Eis por que o acesso à informação, em especial à informação científica, pode ser eficaz no sentido de conduzir alguns à libertação da mentalidade religiosa que lhes foi inculcada desde a infância. Todavia, tal acesso ao conhecimento não garante essas desconversões — e por isso continua havendo tanta gente crente mesmo nesses países mencionados acima.
Agora, por que é que o pubescente ateísmo pelo ateísmo me incomoda tanto? Simples: porque quando alguém diz “Eu sou ateu”, e só, minha pronta reação não é outra senão replicar: Tudo bem, mas… e daí? Pois a verdade é que ser ateu por ser ateu não significa nada! Ao menos, nada que valha a pena admirar. O fato de alguém se declarar ateu não diz nada sobre esse indivíduo, pelo simples detalhe de que o ateísmo não é o tipo de meme que resulta em lavagem cerebral e condicionamento de posturas homogêneas e unanimemente desejáveis. É por isso que o autoproclamado ateu pode ser um analfabeto funcional ou um intelectual de peso, um vegetariano fanático ou um onívoro sem consciência culpada, pode ser um homofóbico neonazista ou um humanista secular. E é aqui que chegamos ao que realmente interessa: para o cético e humanista secular, categoria em que eu e muitos de meus amigos nos inserimos, o ateísmo é apenas consequência da apropriada aplicação dos modelos filosóficos em que pautamos nossa conduta.
1) Somos céticos, exigindo evidências cientificamente corroborantes dos postulados que aceitamos como verdade — por isso não acreditamos em deuses, nem em espíritos desencarnados ou coisas do tipo. 2) Somos humanistas seculares, prezando os direitos fundamentais de cada pessoa e a devida separação entre a religião institucionalizada e o Estado democrático — por isso não nos identificamos com nenhuma doutrina religiosa, já que todas se fiam em pelo menos algum dogma que ameaça certos direitos dessa natureza, bem como nos opomos à postura das igrejas no tocante a estarem sempre tentando influenciar determinadas ações do Estado sob o qual nos encontramos, fato do qual uma militante bancada de deputados evangélicos constitui indiscutível evidência. Ou seja, o ateísmo para nós não é nenhuma causa, nenhuma bandeira a sacudir pelas ruas (a não ser quando da defesa de nossa liberdade de expressão, na esfera da liberdade de crença constitucionalmente garantida, ou pela proteção de nossa imagem e reputação perante a sociedade, jamais passível de dano moral pelo simples fato de sermos descrentes). Nosso ateísmo é efeito direto de sermos céticos e humanistas seculares, apenas isso.
É por essas e outras que acho simplesmente irônico quando alguém vem discutir comigo, quase sempre tendo por objeto o tema da homofobia, e começa seu discurso com a frase “Eu também sou ateu, mas…“. Completando com a famosa falácia do “não concordo com o homossexualismo (sic); não concordo, mas respeito“. Ora, primeiramente, a homossexualidade é uma condição natural das pessoas que manifestam essa orientação, e é tão normal quanto nascer com o nariz do pai e as orelhas da mãe — portanto, não há com o que concordar ou do que discordar a esse respeito; é um fato natural de que só podemos tomar conhecimento e que devemos aceitar, tal como ninguém põe em questão a realidade de que seres humanos não botam ovos. Em segundo lugar, se não concordo com determinada conduta humana é porque a condeno moralmente, já que não existem objeções científicas ao gênero daqueles com quem mantemos relações sexuais. Sendo assim, se eu condeno moralmente um comportamento é porque não o respeito coisa alguma, a despeito de meu discurso com ares politicamente corretos.
Quer dizer, se você é ateu, mas também é homofóbico, o que diabos quer dizer com isso? Em quê, afinal de contas, seu alegado ateísmo o torna menos ignorante do que um boçal, motivado pelo mais primitivo e extremado conservadorismo religioso? O que espera ganhar de mim com essa autorreferência como sendo “ateu”? Simpatia? Cumplicidade por supostamente jogarmos num mesmo time? Ora, meu caro! Se você é ateu e humanista, eu diria que temos, sim, muita coisa em comum. Agora, se é ateu, e apenas isso, se acha grande coisa ficar berrando na internet que Deus não existe, mas não se considera compromissado com a defesa de grupos minoritários injustiçados, como os homossexuais que, numa situação absurda, têm seus direitos civis cerceados sob um Estado dito democrático — apesar de serem plenamente capazes conforme os requisitos legais, além de serem vítimas de assassinatos e agressões num índice alarmante —, então, definitivamente nós não temos nada em comum que valha a pena levar em conta.
Afinal, se você é precisamente o tipo de ateu que acabei de descrever, o que o difere de uma figura reprovável e repulsiva como, p. ex., o Dep. Jair Bolsonaro? Ou, deixando de lado a questão dos homossexuais, se você é ateu, mas acha muito inteligente e engraçado o Rafinha Bastos, quando diz que “mulher feia” deveria era agradecer por ser estuprada, o que isso nos revela sobre o tipo de caráter que esse seu enunciado “Eu sou ateu”, propagado como um rótulo de admirável iluminismo pessoal, tenta inutilmente disfarçar?
Muito mais importante do que ser ateu é ser humanista, é preocupar-se com a causa daqueles que estão tendo direitos cerceados e alinhar-se ao lado deles. Muito mais sério e admirável do que ficar gritando que Deus é um delírio e que todo crente é “um filho da p…” é lutar pela efetiva laicidade do Estado, é fazer oposição à imisção da moralidade religiosa em nosso ordenamento jurídico como que “legitimando” a violação de direitos fundamentais de cidadãos que não aderem a esses valores.
No final das contas, a verdade é que, para mim, uma pessoa dizer que “ateia”, e apenas isso, é tão relevante quanto dizer que é “sagitariana”.

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