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Festa do divórcio: o avesso da comemoração



Ta virando moda comemorar o divórcio, tema, aliás, na próxima novela da Globo “Salve Jorge”. Ao fim de um casamento que se esperava desse certo, mas que tudo deu errado, nada melhor do que uma festa para comemorar o divórcio.
Segundo tenho visto a iniciativa da festa sempre é da mulher. Festa significa comemorar, comemorar é evocar algo marcante, coisas boas que pretendo relembrar, aniversário, por exemplo. Comemorar a data em que se nasceu é uma forma de nos dizermos e dizerem para nós que somos importantes. Agora, quando queremos marcar uma data de algo que acabou, o que fazemos é luto e não festa. Luto é a marca da tristeza.
O divórcio é expressão de um projeto conjunto que faliu, de um amor que se pretendia eterno e que acabou. Ninguém fica feliz com o fim de um casamento, ainda que terminar possa ser melhor do que ficar junto. O fato é que muito sentimento, sonhos, planos, energia foram canalizados para o casamento, e o fim do casamento só pode significar frustração, vazio, derrota e uma sensação profunda de perda de tempo.
Mas a festa do divórcio é também uma desforra, não apenas contra o ex que parte, mas sem dúvida contra toda a sociedade que ainda vende o casamento como algo bom e necessário. Fazer uma festa para ocasião tão lamentável é o mesmo que dizer: “casamento é uma armadilha, uma mentira”.
Com tal festa desforra-se contra tudo o que se acreditou de bom fosse o matrimônio; desforra-se contra tias e avós que empurram suas sobrinhas e netas para tamanha desgraça; desforra-se pela ingenuidade de abrir mão da juventude, da liberdade, da vida sem cabresto que se levava, para cair numa relação em que mais se odeia do que se ama.
A festa do divórcio é a alforria dos que se libertam não apenas do casamento que não deu certo, mas da idéia de casamento. Chama atenção nestas festas que os símbolos são invertidos. O buquê é queimado e não jogado, o bolo é toldado por dois bonecos dos noivos que estão de costas um para outro. Em vês de a noiva entrar com pai na Igreja, ela entra carregada por dois garotões sarados sem camisa numa boate.
As pessoas convidadas para a festa são certamente aquelas que são amigas dela e não dele, ainda que algumas pós-noivas convidem o ex para a festa. A festa do divórcio que tem cara mais de balada do que festa religiosa evidencia que o ambiente da liberta a partir de agora é à noite, a noitada. A festa do divórcio é a evidencia de que a partir de agora o casamento, seja lá de que tipo for, está com data de validade vencida.
Divórcio com festa é o outro lado do casamento sacramentado e jurado. Quem faz festa de divórcio, fez festa de casamento. A comemoração da separação é a vingança daqueles últimos que acreditaram nas promessas não cumpridas do matrimônio. Diga-se, entretanto, que quem imagina que a vida que espera depois do divórcio seja melhor do que o casamento engana-se.
A solidão das baladas cheias de gente, a repetição de noites após noites; as transas que nunca terminam em lugar algum; o amanhecer sem histórias para serem contadas; os dias e anos que se passam, deixando atrás si apenas a idade que se mostra com o cansaço que não podemos esconder de uma vida de alegria movida a drogas legais ou não.
A festa do divórcio não é a liberdade para todas as coisas que se quer fazer e se fará, mas o inicio de uma vida sem opção, senão a de sempre estar disponível para uma nova noitada que não termina em lugar algum. Estar sozinho é estar só consigo mesmo, esvaziado de qualquer coisa que não a si mesmo. Nas baladas cheias de gente só, a única coisa que pode acontecer é a promessa reiterada da solidão. Depois do fim do casamento, nos tornamos o que sempre fomos. Luciano Alvarenga, Sociólogo



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