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Religiosidade brasileira


Usos e abusos das igrejas em época de eleição Rudá Ricci

A Folha de São Paulo tem uma linha editorial peculiar em ano eleitoral. Assim que um candidato aparece à frente nas pesquisas de intenção de voto, começa a listar todas mazelas do infeliz. A sequência, não a notícia, é que é peculiar porque dá sensação de independência jornalística, assim como destila uma espécie de ceticismo (tipicamente liberal) a respeito da política. Há quem diga que não é exatamente assim com todos candidatos. Meu objetivo, contudo, não é avaliar os vínculos políticos da Folha. Minha questão é que Russomanno virou a bola da vez.
A Folha vem se dedicando a indicar o uso das igrejas evangélicas pelo candidato do partido evangélico. Haddad pegou a onda e sugeriu o risco do fundamentalismo religioso em um país que já se definiu pelo Estado laico.
Haddad não está desprovido de razão, mas entra num terreno pantanoso, além de se aproximar da falta de jogo de cintura do Marechal Lott, quando candidato a Presidente da República, que em encontro com evangélicos se declarava católico, assim como em encontro com sindicalistas dizia que acabaria com a farra das greves. Uma certa incontinência verbal que desconcertava os assessores diretos.
O problema é que desconsiderar a religiosidade brasileira em termos de organização social e política é o primeiro passo para abandonar o Paraíso. Este tema, inclusive, é caro à esquerda e já foi analisado por Gramsci, quando da identificação da construção da utopia socialista na Itália.
Os brasileiros são místicos. Muitas vezes, cultivam uma religiosidade instrumental e se aproximam da auto-ajuda, mas não há como desconhecer o caldo de cultura que a fusão da religiosidade portuguesa com a mitologia africana e indígena sedimentou na alma dos moradores desta terra. A religiosidade brasileira está mais para "Queijos e Vermes", que absorve causos, fragmentos teológicos, sentimentos e desejos, mitos e rituais, aproximando festa de veneração. Jesus, para muitos brasileiros, está mais para o menino na manjedoura, que merece afago e proteção, que para Cristo crucificado. Mesmo quando a imagem é o da crucificação, ainda assim desperta sentimento maternal. A velha intimidade que embala a religiosidade brasileira.
Não se trata, neste caso, de colocar em risco o Estado laico. Ao menos, no que tange a religiosidade brasileira que não vincula poder com sua fé. São as igrejas, e não todas, que fazem tal articulação.
Ora, que a Folha tente vender jornal para seus leitores (o Datafolha revela, de tempos em tempos, o que pensam seus leitores) é até compreensível. Mas que os candidatos explorem este tema, procurando atingir a subida de Russomanno, me parece miopia. Porque o correto seria dialogar com o espírito maternal, de compaixão, que envolve a religiosidade tupiniquim. Obviamente que em tempos de ascensão do consumo de massas, há exploração do sucesso pessoal por vários líderes religiosos. Mas aí, a questão não é exatamente de oposição às igrejas ou à religiosidade, mas de diálogo com as motivações da fé. Em outras palavras, trata-se (mais uma vez, Gramsci) de construção de um discurso hegemônico.
Enfim, continuo achando Haddad muito acadêmico, um certo academicismo europeu. Na Europa, o cristianismo (me ensinava um bispo amigo) é marcada pelo sofrimento, pelo temor à Deus, pelo ar taciturno. No Brasil, o cristianismo popular é solar, místico, marcado pela ressurreição (o renascer diário dos brasileiros, para quem o Paraíso é destinado aos pobres).
Se é fato que alguns líderes religiosos se aproximam em muito do esboço de um Estado fundamentalista (que seria o fim da liberdade religiosa), este discurso é estranho à religiosidade brasileira. Neste caso, Folha e Haddad, mesmo não querendo, fazem o jogo daquilo que combatem.

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