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terça-feira, 17 de julho de 2012

Occupy: confesso que reli - Rudá Ricci


Occupy: confesso que reli

Reli o livro publicado pela Boitempo sobre o que seriam os novíssimos movimentos sociais, com Occupy e Indignados na primeira fila. O livro é um libelo político. Reli porque queria esvaziar a possibilidade de ter sido muito rigoroso ou ofuscado por uma expectativa irreal sobre o livro. A segunda leitura me deixou ainda mais decepcionado.Os 11 autores quase deliram. Elaboram artigos ingênuos ou para leitores ingênuos, crédulos, desavisados. O que dizer do início do artigo de Immanuel Wallerstein que começa assim: "por qualquer ângulo, 2011 foi um bom ano para a esquerda mundial". Foi? Pelo motivo das crises econômicas que devastaram tantos empregos e economias domésticas?
Os artigos constatam. Vladimir Safatle afirma
Trata-se do profundo sentimento de mal-estar e desencanto que todos vocês sentem e que os faz estar aqui.
Só? Portanto, antes desses "movimentos" surgirem, o sentimento reinante era de bem-estar? Ou tal sentimento estava presente, não apenas de maneira latente, há anos? Se estavam presentes, o que detonou a revolta coletiva? O livro não se propõe a aprofundar tal questão. Nem hipóteses apresenta.
E o que dizer do artigo de Giovanni Alves? O autor afirma que os novos movimentos sociais não incorporam utopias grandiosas de emancipação social que exijam clareza político-ideológica. O que os define seria a indigação moral, as misérias do sistema sociometabólico (!!) do capital, na esteira da "cotidianidade insubmissa" (!!!). Uma nomenclatura à altura de Odorico Paraguaçu.
O retrato revela um sujeito coletivo tão frágil e inacabado que o próprio autor se pergunta se teria capacidade de elaborar em si e parar si (um ato falho marxista ou uma tentativa de sofisticação?) uma plataforma política mínima, se conseguirá criar condições efetivas para surgimento de novas organizações de classe, de conseguirá derrubar ou pautar governos. São muitas perguntas para algo até então apresentado como extraordinariamente novo e potente. Mas, então, qual seria o potencial efetivo?
A resposta mais inusitada vem de Slavoj Zizek. O festejado professor da Universidade de Londres afirma que o futuro é uma questão que os intelectuais devem responder. Porque as respostas políticas serão elaboradas pelos novos movimentos sociais a partir de questões postas para eles. E seriam os intelectuais (imagino que os de esquerda) que devem propor este programa educativo. Uma infantilização gritante dos novos movimentos sociais. Zizek tenta responder à questão de Applebum, para quem os ativistas globais podem acelerar seu próprio declínio, se não souberem usar o sistema político que criticam. Este foi justamente o dilema dos novos movimentos sociais brasileiros das décadas de 1970 e 1980: se colocaram em paralelo à toda institucionalidade pública vigente. Se postaram como reserva moral, como antípodas das estruturas de poder, iluminados pela diversidade de interesses que gerava uma constelação amarrada pela situação de marginalização política, social ou econômica. Os marginais se uniram contra os que os segregavam. Aumentaram, por aí, sua musculatura e voz. Mas quando tiveram condições de testar (com sucesso) sua representação, ingressaram no mundo político institucionalizado e revelaram que tinham muito pouco a sugerir ou acrescentar. Negavam, mas não sabiam como sugerir algo novo.
Occupy ou Indignados parecem ainda mais frágeis. Não são movimentos sociais. São mobilizações. Contestações pontuais. São excessivamente moralistas. Sem profundidade política. Sem lastro teórico.
E, por este motivo, criam imensas dificuldades para intelectuais que guardam simpatias com suas ações conseguirem produzir algo que vai além da mera descrição. Ao final, tentam sugerir que não são eles os responsáveis por superar suas deficiências. Ou, constrangidos, listam dúvidas a respeito de sua longevidade.
Sejamos sinceros: pode ser tudo, mas está longe de ser um trabalho intelectual.

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