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Mensalão Rudá Ricci


Roberto Jefferson tem razão

No final de sua entrevista à Folha, o presidente do PTB afirma:
A imprensa tratava o PT como se fosse o único partido bom, o filete de água limpa no cano de esgoto.
Uma frase de efeito, estilo Jefferson. Diz que o sistema partidário é todo um esgoto, incluindo o PT. Mas não era bem assim. O PT, até a virada para os anos 1990, era majoritariamente sério. Era, realmente, uma UDN de esquerda e tocar em dinheiro público causava uma síncope cardíaca em qualquer petista.
O que Jefferson acerta é que o mensalão é um divisor de águas (do ponto de vista público) na história do PT. Mais: que os envolvidos (e saberemos, com o julgamento no STF, quem são os culpados) faziam parte do núcleo que alterou profundamente a história e o ideário do partido. Aí está uma história a ser contada com detalhes. Houve uma relação promíscua com o baixo clero petista, incrustado na burocracia partidária e abençoado por lideranças que somente no final dos anos 1990 emergiram publicamente. Tais lideranças tinham experiência em organização política. Mas o baixo clero não conseguia nem falar corretamente. E não estou fazendo uma crítica elitista. Vários não sabiam organizar as ideias com clareza e dificilmente enfrentavam um debate apenas no campo das formulações. Debate para eles era algo parecido com MMA. Se acostumaram à troca de favores e por este motivo não acharam nada de errado em receber carros ou presentes ofertados pelo povo branco que chegava à orla das praias virgens do país. Este PT não estava lá, quando da elaboração do manifesto do partido. Nem na formulação de programas de governo ou seminários teóricos. Não assinavam manifestos de apoio porque seu apoio não acrescentava muita coisa. Daí a felicidade em ridicularizar os intelectuais petistas. Porque não tinham meios para formular ou mesmo discordar do que nunca entenderam. O fato é que abriram a porteira para a realpolitik que era profundamente desprezado na década inicial do PT. Hoje, é a ideologia petista. Ou a substituta de ideologia. O que faz da frase final de Roberto Jefferson algo tão arguto que dificilmente este pessoal terá capacidade para compreender.

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