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Marcha das Vadias: 50 anos de atraso


Luciano Alvarenga

Com pelo menos 50 de atraso chega ao Brasil a Revolução Cultural que varreu a Europa e os Estados Unidos nos 1960. Este fim de semana algumas milhares de pessoas saíram em passeata em diversas cidades do país.
Como no Brasil tudo que vem de fora acaba ganhando cores nacionais, eis que aqui a Revolução cultural tem sua própria expressão e tempo. A Marcha das Vadias, nome inspirado em protestos surgidos num campus universitário do Canadá contra o machismo reinante, que veio nesse sábado último, dia 26 de maio, a ter sua segunda edição no Brasil.
Segunda consta o próprio Canadá participou da onda libertária que varreu o mundo rico nos anos 1960. Como se vê o machismo continua lá tanto quanto aqui. Gays, mulheres, ateus, “minorias” étnicas, o Brasil vai assistindo a crescente manifestação destes grupos e sua incursão em todos os cantos, inclusive forçando mudanças nos costumes e nas leis.
Ao contrário do que aconteceu naqueles países nos anos 1960, onde a Revolução Cultural foi rápida e transtornou tudo numa década, mudando a face dos Estados Unidos e da Europa Ocidental muito rapidamente, aqui o movimento anda na velocidade tropical do Brasil. O grande movimento cultural brasileiro atual e mais moderninho é incluir os pobres na classe consumidora. Isso os americanos fizeram nas três ou quatro primeiras décadas do século XX.
A revolução cultural ao norte do mundo deu lugar a um profundo desajuste social seja no plano da Cultura como no Econômico. Década de 1960 a revolução Cultural, nos fins dos anos 1970 e inicio dos 1980 o predomínio nos Estados Unidos e Europa do Neoliberalismo Econômico. A revolução Cultural preparou o terreno para um coice cavalar de conservadorismo econômico. O que os jovens viveram como vanguarda cultural nos anos 1960: liberdade sexual, a pílula anticoncepcional, desenlace da religião; foi vivido por seus filhos logo depois deles, nos anos 1980, como algo completamente diferente, ao ponto dos filhos dos libertários dos anos 1960 renegarem o que seus pais haviam tido como conquista e vanguarda.
No Brasil, país profundamente conservador mesmo quando é progressista, as mudanças vão chegando aos poucos e se amoldando ao solo nacional. Parada Gay, Marcha das Vadias, Cotas de todos os matizes, tudo isso vai dando novas linhas a tessitura da cultura nacional. Mas tenho a impressão que a linha de fundo do Brasil ainda não mudou. Que é o corte profundamente marcante em nossa cultura do duplo Casa Grande e Senzala.
Esse é o traço mais marcante e presente em quase todas as relações sociais, econômicas e culturais no Brasil: de um lado a senzala e do outro a Casa Grande. Vadias, negros ou gays somos na verdade divididos em “senhores e escravos”. Luciano Alvarenga

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