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A crise do jornalismo investigativo


Luis Nassif

Coluna Econômica - 11/05/2012
Nos próximos dias haverá congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Pelo Twitter é possível acompanhar a movimentação e o entusiasmo dos organizadores.
É uma boa oportunidade para a Abraji rediscutir seu papel e recuperar suas bandeiras originais.
A associação surgiu há tempos, com o sério propósito de aprofundar as técnicas de investigação jornalística. Entre seus fundadores, alguns dos melhores repórteres brasileiros, jornalistas que aprenderam não apenas a escarafunchar fontes sensíveis, como a entender as particularidades de mercados técnicos, complexos. E, principalmente, a tratar a informação com rigor.
De alguns anos para cá, de uma maneira geral o jornalismo investigativo enveredou por terrenos lúgubres, movediços, em muitos casos fechando parcerias condenáveis com o crime organizado e com lobbies empresariais. Em algumas redações, “jornalistas investigativos” se tornaram o pau-para-toda-obra, incumbidos do trabalho sujo.
Deixou-se de lado o rigor jornalístico. Em lugar de pistas, caminhos iniciais de investigação, os dossiês tornaram-se reportagens em si, muitas vezes inverossímeis e aceitas sem nenhum critério jornalístico.
Repórteres passaram a ser valorizados não pelo talento, mas pela total falta de escrúpulos, pelo acesso às fontes mais condenáveis, pela capacidade de atropelar os fatos que pudessem atrapalhar o marketing do escândalo. E, pior: muitas dessas armações foram premiadas.
Não se trata de um fenômeno exclusivo da revista Veja – que se associou ao bicheiro Carlinhos Cachoeira para reportagens estrondosas e, muitas vezes, não apenas falsas como inverossímeis.
Na Operação Monte Carlo foram gravadas conversas de Carlinhos Cachoeira com um assecla, que recebe a ordem de incluir determinada construtora – concorrente – em uma operação da Polícia Federal. A rigor, não havia um fato sequer que indicasse participação da empresa. O assecla se dispõe a levar para uma revista. Sai a reportagem, fuzilando a empresa, em cima de informações falsas.
Nos anos 70 e 80, com honrosas exceções, havia muito má impressão dos repórteres de polícia. Eram jornalistas que acabavam esquecendo de que lado estavam e se tornavam facilmente manipuláveis por policiais-fonte.
Nos anos 90 o jornalismo policial ficou marcado por um episódio vergonhoso, mais vergonhoso ainda que da Escola Base. No episódio do Bar Bodega – em que foi assassinado um casal de universitários –, pressionado pela opinião pública um delegado prendeu alguns jovens favelados. Passaram um mês presos, sendo torturados sob as vistas dos jornalistas.
Agora o jogo ficou pior. Em meio a repórteres sérios, que ainda zelam pelo rigor jornalístico, floresceu uma geração que se propõe às missões mais sujas. Alguns são repórteres inexperientes, que correm o risco de macular para sempre suas carreiras. Outros, são profissionais da infâmia, aceitos acriticamente pelo corporativismo jornalístico.
Seria bom a Abraji parar de ufanismo e resgatar sua missão original, de defender o jornalismo investigativo sério.

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