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sexta-feira, 30 de março de 2012

A Rede Social





Facebook e a incomunicabilidade no filme "A Rede Social"

"A Rede Social" (The Social Network, 2010) é mais do que um filme sobre a história do Facebook: é sobre as consequências da virtualização das relações humanas. O filme explora o paradoxo de como a incomunicabilidade pode definir uma geração que, como nenhuma outra, teve em suas mãos tantas mídias e ferramentas de comunicação.
O diretor David Fincher já havia nos brindado com o filme “O Clube da Luta” nos anos 90 centrado na personalidade dividida de um executivo yuppie, incapaz de se comunicar com o mundo exterior e diluindo sua ansiedade por meio do consumismo e da violência ao arrebentar a cara dos outros no Clube da Luta, irmandade marcial underground do qual aos poucos vai perdendo o controle até se transformar numa gigantesca rede terrorista.
O filme “A Rede Social” desenvolve um tema muito semelhante. 
Um jovem nerd de Havard (Mark Zuckenberg, interpretado por Jesse Eisenberg), gênio em algoritmos e linguagem de programação, com uma grande dificuldade em se comunicar e estabelecer uma rede de relacionamentos, desconta sua ansiedade difamando pessoas em um blog enquanto tem uma ideia divertida, pelo seu ponto de vista: um jogo com as fotos de todas as moças da universidade para que as pessoas possam escolher qual a mais bonita.
Dessa ideia vai surgir o Facebook que, de rede de relacionamentos de alguns campi universitários nos EUA, cresce até atingir outros continentes. Pela sua incomunicabilidade em relações humanas, perde a noção das tramas de interesses e dos inimigos que vai acumulando ao longo do caminho na medida em que o projeto cresce empresarialmente.
“A Rede Social” é muito mais do que um filme sobre a história do site Facebook e relacionamentos humanos. É sobre a virtualização dos relacionamentos humanos e do perfil da geração desse início de século por trás da idealização de sites de relacionamentos como o Facebook.
Por um lado, apresenta o paradoxo da incomunicabilidade numa geração que, como nenhuma outra, teve à sua disposição tamanha variedade de mídias e ferramentas de comunicação. E a ambígua mentalidade de uma geração anti-corporativa (atitude herdada dos seus pais “baby boomers” da contracultura dos anos 60 e 70), defensores de comunidades virtuais livres de censura ou restrições e, ao mesmo tempo, defensores da ideologia de mercado competitiva e dos valores conservadores neoliberais da especulação financeira.
Capazes de apresentar um cartão de visita onde se lê “Sou CEO, sua puta!”, ter uma atitude arrogantemente punk diante de investidores e, ao mesmo tempo, travar acirradas batalhas judiciais ao melhor estilo do jogo pesado de empresas gigantes como a Microsoft.
A Classe Virtual e a Ideologia Californiana
Para entender esse paradoxo da incomunicabilidade em ambientes altamente midiatizados como os atuais, temos que colocar o contexto social que o filme “A Rede Social” apresenta para essa questão: a ascensão da chamada “classe virtual”.
O filme divide claramente duas locações geográficas distintas: a Costa Leste (Nova York), onde está o mundo das finanças, dos anunciantes, do mundo bruto da grana onde nada é bacana. E a Costa Oeste (San Francisco/Vale do Silício) onde “tudo está acontecendo, as conexões, a energia... tudo está se movendo mais rápido que cada um de nós”, como afirma o protagonista, tentando convencer o seu diretor financeiro a deixar de procurar anunciantes caretas e embarcar nos “angelicais” investimentos das empresas do Oeste americano.
O filme é sobre uma geração da chamada elite virtual, uma classe constituída:
“pela tecno-intelligentsia dos cientistas da cognição, engenheiros, cientistas da computação, criadores de jogos eletrônicos e todos os outros especialistas em comunicação..." (KROKER, Arthur, WEINSTEIN, Michael A. Data Trash: the theory of the virtual class. Montreal: New World Perspectives, p. 15, 1994).
Na verdade Mark Zuckenberg, o criador do Facebook, é um representante da segunda geração desse classe virtual. A geração de Steve Jobs e Bill Gates já representava a chamada “ideologia Californiana” surgida no movimento de contracultura dos anos 60 (uma peculiar leitura Zen-Taoísta de um misticismo da natureza, um renascimento dos mitos da Terra e do elogio dos seus ciclos naturais, combinados com um socialismo cristão, mitos comunais e, paradoxalmente, combinado com o impulso transcendentalista das viagens alucinógenas, utopias tecnológicas libertárias combinado com o liberalismo econômico de mercado).
A construção dos PCs nos anos 70 como desafio libertário aos gigantescos mainframes corporativos trazia, dentro desse propósito, toda essa ideologia. É o exemplo de gigantes como a Microsoft, com um discurso messiânico da expansão das mentes, liberdade de informação na Internet combinado com práticas clássicas de monopólio e ações jurídicas contra concorrentes.
Facebook é a segunda geração, um projeto dos filhos dessa classe virtual. Após a quebradeira das empresas “ponto com” em 2000, compreenderam bem a verdadeira vocação não só da Internet como o próprio ciberespaço: potencialização das redes de influências (já existentes no mundo real) até levar ao paroxismo do tempo real. ICQ e MSN já ensaiavam essa tendência.
Saber a qualquer momento sobre quem está falando o quê, sobre quem, quando e onde vira uma angústia e obsessão. Virtualizar as relações pessoais até o ponto que sejam transferidas para o ciberespaço e ali elas se desenvolvam.
A certa altura do filme Sean Parker (criador do Napster, interpretado pro Justin Timberlake) fala em um novo projeto, que sintetiza a nova sensibilidade dessa geração:
“A seguinte transformação a ser desenvolvida? Um pedido de compartilhamento de imagens. Um lugar onde você possa ver imagens que coincidem com a sua vida social. É a verdade... a digitalização da vida real. Você não vai só a uma festa. Vai a uma festa com uma câmera digital. E seus amigos revivem a festa on line.”
É a própria concepção de ciberespaço: deixar de habitar o espaço e passar a viver o tempo. Embora o corpo se desloque e habite o espaço, a consciência estará constantemente em outro plano, como um terminal (munido de dispositivos de digitalização e captação de imagens) plugado na rede, constantemente on line, sem interagir com o espaço, apenas no tempo.

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