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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Árvores


As árvores sujam as ruas.

Dia desses estava saindo do apartamento onde moro – ia até uma banca de jornal no outro quarteirão – quando dei de cara com um senhor que estava podando as árvores da rua. Tendo em vista que o calor nesta cidade dura quase o ano todo, e que a maior parte da população se desloca a pé ou de ônibus, a poda de árvores, ou a forma como ela é feita, é de interesse público. Então vamos lá.
Como ia dizendo, estava indo à rua quando me deparei com um senhor fazendo poda, ou mutilação, das árvores do quarteirão. À medida que desferia tesouradas, a árvore ia perdendo sua frondosa forma, e sua sombra ficava cada vez menor e rarefeita. Como já venho observando há algum tempo a maneira exagerada com que podam as árvores, aproveitei a oportunidade de perguntar ao encalorado senhor qual o porquê do serviço que estava fazendo e da forma com que era realizado. Ele foi direto: “A empregada do condomínio aí em frente me pediu para cortar as árvores o máximo possível, por causa das folhas que caem e sujam a rua; ela não agüenta mais limpar a rua”.
Primeiro, me ocorreu saber quem tem o poder de autorizar tais podas; segundo, é dessa forma que deve realmente ser feito ou, se isso fica a critério das sugestões da população em geral. É interessante observar que, as podas geralmente começam a ser feitas, salvo engano, no segundo semestre do ano, logo quando a temperatura desta bela cidade começa a alcançar seus picos de calor. O que sobra das podas são ruas e quarteirões inteiros com árvores pelo tronco, as sombras desaparecem, e a sensação de calor é ainda mais forte.
As árvores vivem, nos centros urbanos, seus últimos tempos. A causa é o fato de que elas sujam as ruas. O grave é que cada vez mais muitas pessoas não têm se contentado em mutilar as árvores, agora estão cortando, arrancando ou coisa assim. A obsessão pela “limpeza” esconde na verdade uma série de recalques. A dificuldade de se relacionar com o espaço urbano fora do automóvel é um dos elementos recalcados. Ou o indivíduo está dentro de casa, dentro da empresa, dentro do bar, etc, ou dentro do automóvel. Como dentro de casa, da empresa, ou do bar não há “sujeira”, ele passa a entender as folhas espalhadas pela rua como incômodo a ser evitado.
As pessoas cada vez mais entendem limpeza como sinônimo de asfalto e concreto, às arvores e jardins sobram cada vez menos espaço, vide o tanto de espaço de terra que circunda as árvores nos centros urbanos. Os quintais das casas, na maioria dos casos, são um enorme espaço concretado, os condomínios então, nem se fale.
Estamos redimindo as árvores ao nosso ideal de beleza, devem ter formas geométricas e de preferência não ocupar espaço. Asfaltamos a rua para não sujarmos os pés, agora cortamos as árvores para não sujarmos os olhos. Antes, folhas de árvores caindo inspiravam poesias. Agora nos inspiram raiva contra a prefeitura. Não vai demorar a surgir empresas vendendo árvores de plástico ou fibras. “Chega de podas e folhas sujando sua calçada e rua, compre sua própria árvore. Vem com alarme antifurto”.
Se as sombras das árvores e o frescor que elas possibilitam fossem um lugar onde as pessoas confraternizassem, se encontrassem, certamente não assistiríamos tanta gente se lançando contra elas. Ocorre dizer que a quantidade de pessoas que se deslocam pela cidade a pé ou que se aproveitam das sombras das árvores para se protegerem do sol nos força dizer que a mutilação ou corte das árvores na cidade é uma atitude autoritária e individualista.
Em vez de se discutir de que forma o espaço urbano pode ser ocupado gerando maior convivência entre as pessoas e a comunidade, o que vemos é o contrário disso. “As sombras das árvores à noite possibilita que elementos suspeitos se escondam”, dizem. Ora, se escondem porque as pessoas estão abandonando as ruas, não conversam com vizinhos, não ficam papeando em frente aos seus portões, seus filhos não mais brincam pelas calçadas.
É interessante notar que, naqueles lugares onde o hábito de pôr uma cadeira na calçada, sentar no degrau do portão para conversar e assistir o movimento da rua as árvores raras vezes são podadas, ou são de forma a não comprometer sua sombra. Ali, as pessoas não estão preocupadas com as folhas que caem em seus colos, posto que estão mais interessadas no prazer de bater papo debaixo de uma boa árvore. São essas pessoas, nesses lugares, que não nos deixam esquecer que a vida na cidade pode ser melhor.
Não corte as árvores, você piora a vida urbana, atenta contra a paisagem da cidade, aumenta a sensação de aridez na convivência humana, e torna nosso habitat mais triste. Plante, não corte! 

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