Pular para o conteúdo principal

O nada incrível Huck

Desde que me entendo como gente ouço críticas à TV Globo, mas com o passar do tempo fui peneirando o que era verdade e o que não passava de teoria conspiratória. Fui também fazendo as minhas. No entanto, é sempre engraçado ver o pessoal dos comentários, principalmente na última coluna que era sobre o CQC da TV Bandeirantes, dizer coisas como: “ah, mas da Globo ninguém fala mal, apostos que vocês do Yahoo! são pagos”. Então vamos lá, cambada, para agradar vocês a Globo será o alvo da vez. Façam suas rimas e apertem seus cintos!

Como toda grande empresa de comunicação, a Globo é boa e má (para usar esses termos gastos) em iguais proporções. Nos tempos do pai-fundador Roberto Marinho foi tanto amiga dos militares quanto abrigo de muitos profissionais de esquerda, que acabaram assim escapando de prisões, tortura, exílio. Enquanto se calava no Jornal Nacional, dava liberdade a realizadores como Paulo Gil Soares, Eduardo Coutinho, Walter Lima Jr. e Maurice Capovilla para falar de coisas inéditas do Brasil nos áureos tempos do Globo Repórter, final da década de 1970 (sim, houve um tempo que o programa não falava só de bichos, alimentação e sexualidade na terceira idade).

É também a mesma que vem estimulando grandes artistas como Luiz Fernando Carvalho (“Hoje é Dia de Maria”, “Capitu” etc.), comunicadores como Regina Casé e ousadias cômicas como “Macho Man” ao mesmo tempo em que dá moral a figuras como Luciano Huck. E o Huck... bem, não sou uma pessoa de desprezar ninguém, muito menos de ter ódios, mas não fui com a cara dele desde que o vi pela primeira vez. Também acredito que ele é uma das piores coisas que aconteceram na TV aberta nacional com seu “orgulho coxinha”, seu assistencialismo barato, seu mau gosto galopante, seu humor playboy de Atlética de faculdade etc.


O seu “estilo” não mudou muito desde aquelas outras tardes de sábado, tempos do Programa H, Tiazinha e Feiticeira: gostosas no palco, plateia jovem, bandas ruins, “reportagens”, convidados e “entrevistas”. Eu olhava praquele sujeito, eternamente o irmão gêmeo de Rogério Ceni, e pra mim ele representava algumas das coisas mais detestáveis da classe alta paulistana, apesar do seu jeitinho inofensivo. Quando, em 2000, foi anunciada sua mudança para a Globo, fiquei pensando se o sucesso se repetiria. Sim, o sucesso sorriu novamente para Huck, só que dessa vez maior e acompanhado de um “casamento dos sonhos” com Angélica (dos sonhos para a Globo e para a publicidade).

Nunca entendi isso. O Caldeirão do Huck é repleto de quadros copiados de programas americanos, o jeito amigão como o apresentador trata as pessoas que vão lá em busca de um tapa no carango ou arrumar a casa caindo aos pedaços é nitidamente forçado, não vejo carisma nenhum em sua pessoa, mas ele é um cara inteligente, principalmente nos negócios, e sabe conversar com todo tipo de gente. Por outro lado, ninguém acha estranho, ou talvez nem saibam, que o bom moço foi multado por crime ambiental em Angra dos Reis (RJ) e que então contratou o escritório de advocacia da mulher do governador Sérgio Cabral. Poucos dias depois, como em um passe de mágica, o governo do Estado abriu brechas na lei e Huck não precisou nem pagar a multa.

Enquanto vou despejando esse tanto de críticas sobre o rapaz já prevejo alguns comentaristas dizendo coisas como “quem é você para criticar o Luciano Huck, seu paspalhão?!?!” ou “você tem é inveja do sucesso dele”. Não trabalhamos com inveja aqui, amiguinhos e amiguinhas, e tão somente com senso crítico (que pode até estar errado, mas é meu). Tenho é saudade daquelas tardes de sábado, nas quais o Velho Guerreiro jogava pedaços de bacalhau em sua platéia (escrevi sobre ele na minha sexta coluna por aqui, “Chacrinha continua balançando a pança”), ou de mais pessoas como a semi-xará Thafne Souza, que colocou Huck no seu devido lugar em um episódio daquele quadro “Soletrando”. E nunca se esqueçam: lugar de coxinha é no boteco ou na padaria.

Comentários

Eu e um amigo conversamos sobre o Huck semana passada. Dá pra notar a alegria dele ao chegar nas casas caindo aos pedaços porque ali o cara tira um sarro dos pobres, se sente superior.

Postagens mais visitadas deste blog

Se o mundo tivesse 100 pessoas LEGENDADO (premio Cannes)

Ter pinto é crime

Luciano Alvarenga
Uma coisa é o movimento feminista, outra, são as mulheres. Feministas gostam de política, ou pelo menos de terem contra o que levantar suas bandeiras de ódio; mulheres gostam de homens e de uma vida alem da política. O movimento feminista foi desde o princípio, pelo menos aquilo que se pode chamar assim, nos anos 1950, não em direção as mulheres, mas contra os homens. O homem sempre foi o alvo do movimento; não se trata de libertar a mulher seja do que for que se imagine ela precise ser liberta, mas de constranger o masculino de tal forma que o movimento feminista, não as mulheres, tenha mais e mais poder. Aliás, o movimento feminista não está nem ai com as mulheres, basta ver o absoluto silêncio desse movimento em relação à presença de um jogador de vôlei masculino (há quem acredite que lhe terem amputado o pênis e convertê-lo numa vagina, o tornou mulher, kkkkk) num time feminino, sem que isso cause o menor constrangimento político no movimento feminista (aqui é mais…

Sem chão nem utopia

Luciano Alvarenga A grande promessa da modernidade foi oferecer liberdade contra tudo e qualquer coisa que pudesse impedir os indivíduos de fruírem a vida sem amarras. Podemos dizer que, tal liberdade foi conquistada plenamente, e ainda que alguns resquícios de passado, com suas imposições e limites ainda resistam, derretem rapidamente nesse momento; não deixando atrás de si nada que possa servir como estandarte pra novas rebeliões. Não há contra o quê se rebelar. Todos os sólidos do passado, seja moral ou secular, estão liquefeitos; ao indivíduo resta apenas o destino de se guiar, tendo a si mesmo como referência. Ao mesmo tempo em que goza de todas as liberdades, vividas ou sonhadas, realizadas ou posta como possibilidade, o que se desenha nas pegadas daquele indivíduo é o medo, o receio, a insegurança, a incerteza em relação a si mesmo e aos seus destinos possíveis. A própria ideia de destino nada mais é que uma imagem, uma ilusão de quem ainda pensa que se guia de acordo com alguma r…