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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Igreja Católica como espaço social

A Igreja Católica como espaço social

Em “Corpo Celeste”, a passagem à fase adulta é vista pelo prisma do catolicismo, da família e da política.

Por Bruno Carmelo, do blog Discurso-Imagem.
Corpo Celeste é o filme de estreia da diretora italiana Alice Rohrwacher, filósofa de formação, uma jovem que nunca teve uma educação religiosa, que sequer conhecia uma missa ou uma prece, e que no entanto decidiu começar sua carreira cinematográfica com um filme justamente sobre a vida social dentro da Igreja Católica.
A escolha parece curiosa, mas talvez a cineasta tenha escolhido de propósito um sujeito que não conhecia bem no início, a fim de tratá-lo com a objetividade e o distanciamento de um objeto de pesquisa. Por isso, nada de declarações apaixonadas à religião, nem ataque fervoroso às suas derivas. O catolicismo desta obra é visto como uma organismo social, um sistema a mais que une as pessoas, e que poderia também se chamar “partido político”, “evento esportivo” etc.
No mesmo ano em que chegou às telas Lourdes, uma formidável reflexão sobre as dificuldades de se inserir o conceito de “fé” nos dias de hoje, Corpo Celeste aparece como um momento posterior, espécie de reflexão melancólica, triste e portanto perfeitamente pacífica sobre a falência completa da religião como promessa de completude individual e espiritual.
No centro desta história está Marta, garota de 13 anos que sempre viveu na Suíça, e que se muda para a sua Itália natal nas vésperas de uma eleição local. O país que ela conhece está longe de ser um paraíso de sol, música e comida, pelo contrário: nesta Itália pobre e suburbana os dias são brancos, as ruas estão desertas e apenas os milhares de folhetos políticos no chão indicam que pessoas passaram pelo local. A cidade é marcada por construções de todos os lados; concreto, vigas e escavadeiras pontuam um horizonte sem árvores.
Sem nenhuma explicação sobre sua rotina anterior (Ela era sociável? Onde está o pai? Por que a mãe decide voltar?), ela se encontra perdida num mundo de adultos, que parece não ter reservado um lugar para ela. Com as melhores das intenções, e com um afeto evidente, a mãe lhe diz como se vestir, a tia lhe aprende a comer direito, a professora de catecismo diz como ela deve rezar, em que(m) deve acreditar. Este não é um filme-catástrofe, mas a sensação é a mesma: Marta parece não se conectar com nada nem ninguém, ela não acredita em nada, nada ao redor é apaixonante aos seus olhos. Ela perambula pela cidade vazia, olha para os lados, mas a sociedade não vem ao seu encontro.
A transição geográfica faz dela uma pessoa sem rumo, ingênua o suficiente para acreditar nos adultos e crédula o suficiente para perceber que a política que o padre prega está longe de ser honesta, e que o Deus que ela deveria amar parece estar em algum lugar muito longe dali. Corpo Celeste se passa como a crônica de um verão muito desbotado, maltrapilho, mas sem catarses, apenas uma calma íntima e permanente que esconde a violência que exerce nela o mundo dos adultos. Raras vezes a passagem à idade adulta tinha sido tratada de maneira tão forte no cinema, sem um pingo de didatismo, nem de exotismo.
Este é daqueles filmes que acreditam que o aprendizado (de Marta, do espectador) não passa pelos risos nem pelas lágrimas, mas pela exposição dos conflitos, pelo trabalho das nuances. O rosto impassível, a ausência de falas da protagonista busca uma identificação com o espectador que pode projetar nela todos os seus desejos, encarnar na jovem todas as suas interpretações. Preferindo as metáforas ao minimalismo (vide a perturbadora cena final), à reflexão à ação, Corpo Celeste é uma das melhores surpresas do ano, um filme imenso, de uma complexidade ímpar.

Corpo Celeste (2011)
Filme italiano dirigido por Alice Rohrwacher.
Com Yle Vianello, Salvatore Cantalupo, Anita Caprioli, Pasqualina Scuncia, Renato Carpentieri, Paola Lavini.

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