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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Terra Brasilis


Brasil – um caminho para o mundo
Que tipo de desenvolvimento queremos para a sociedade brasileira, um desenvolvimento apenas econômico, de consumo, de predação da natureza, da produção permanente de necessidades artificiais e que cada vez mais aumenta a destruição da natureza? Ou um desenvolvimento que significa equilíbrio, com a natureza, com as pessoas, com a gente mesmo? A questão colocada para o mundo não é sobre aqueles que não fazem parte do desenvolvimento, mas, sobretudo àqueles que o desenvolvimento está impedindo de continuarem a sobreviver.
Assistimos praticamente todos dias nos telejornais catástrofes como secas, tufões, enchentes, terremotos, e uma miríade de cientistas e intelectuais apontando o desenvolvimento econômico como causador de tudo isso. Ao mesmo tempo nos assombramos com os índices econômicos que apontam que podemos crescer menos este ano. Como podemos ao mesmo tempo nos sensibilizarmos com a catástrofe ambiental que se anuncia e nos recearmos com os percalços da economia. Acreditem! Não existe desenvolvimento econômico sustentável.
Em relação aos países centrais, ou desenvolvidos, o Brasil muito recentemente iniciou seu processo de desenvolvimento econômico. Desenvolvimento baseado, assim como nos países ricos, na destruição da natureza, no esgotamento do solo, das reservas de água e no desflorestamento via monocultura exportadora de matérias primas. Esgotamento ambiental resultado de uma sociedade baseada cada vez mais numa vida artificial, urbana e distante da natureza e de meios naturais de vida. Em resumo, nosso desenvolvimento não difere daquele praticado nos países ricos e que hoje respondem pela grave crise ambiental que a sociedade humana está vivendo.
A crise econômica financeira mundial que se alastrou pelo mundo a partir dos E.U.A em 2008 e, que hoje afeta grande parte do mundo não é uma crise apenas econômica, é uma crise civilizacional, é uma crise de um projeto de sociedade que não é mais possível de existir. Não são os Estados Unidos que estão em crise é o American way of lif, é o modelo de vida urbana e de consumismo. E o que o mundo espera do Brasil nesse contexto?
O grande desafio colocado ao Brasil é justamente ousar a criação de uma nova possibilidade de coexistir que signifique reequilibrar nossa relação com a natureza e com toda uma parte da sociedade mundial apartada do atual desenvolvimento econômico. Apenas o Brasil pelo seu tamanho continental, pela sua força cultural, pela complexidade e harmonia religiosa, e fundamentalmente pela complexidade de suas riquezas naturais tem condições de propor ao mundo uma nova possibilidade civilizacional.
O que o século XXI nos chama a realizar é a construção de uma sociedade humana que signifique trazer para o centro da vida outras riquezas que não apenas econômica, por que esta é falsa e nos condena ao colapso ambiental. Outra sociedade que signifique religar nossa capacidade de amar, de ter fé, de sermos solidários, fraternos e vivermos em comunidade a partir daquilo que acreditamos e que é parte de nossa cultura brasileira. O que o mundo espera de nós, enfim, não é o de realizarmos o fracasso societário que eles vivem retroalimentado pelo desenvolvimentismo consumista, mas de oferecermos uma alternativa civilizacional capaz de regenerar a vida natural e social. Luciano Alvarenga, Sociólogo.


2º Parte.
Quando se fala em equilíbrio ambiental fala-se numa vida o mais simples possível, baseada em elementos o mais natural possível e numa sociedade baseada em outros fatores que não o econômico-produtivista-consumista. Em resumo, uma volta à vida simples.
A grande expectativa do mundo em relação ao Brasil nesse sentido está calcada no fato de que somos um país de desenvolvimento retardatário, com grande parte, a maior parte, do patrimônio natural ainda preservado, com uma força cultural imensa, tendo em vista nossa heterogeneidade religiosa, ainda que toda ela cristã, uma miscigenação de etnias, inicialmente negra, índia, e branca, mas que nestes últimos 150 anos vieram se juntar, eslavos, russos, italianos, espanhóis, árabes, sul americanos, japoneses e mais recentemente chineses.
Somos um caldeirão de todas as culturas do mundo que aqui se juntaram para formar o que o mundo e nós conhecemos por Brasil. Diferentemente dos Estados Unidos onde as ondas migratórias não resultaram em miscigenação, mas numa miríade de países dentro da grande América, aqui não, aqui todos se juntaram para formar a civilização brasileira.
A contribuição de todas estas culturas, aqui transmutadas numa antropofagia como lindamente nos descreveu Oswald de Andrade, é a argamassa do projeto Brasil para o mundo. O Brasil tem imponência territorial, exuberância natural, a força de sua cultura musical, folclórica, artística, interiorana e mais do que isso, com uma experiência de limitação material extremamente necessária nos dias atuais, resultado de centenas de anos de pobreza, mas de riqueza antropológica.
Do que o mundo precisa mais hoje senão de viver de forma simples, equilibrada sem explorar o planeta além do que já estamos em débito, e quem mais criou uma cultura de equilíbrio com a natureza senão os tantos milhões de pobres que passaram a maior parte dos nossos primeiros 400 anos nas zonas rurais desse imenso país. O que quero dizer é que estamos formados sobre uma cultura de precariedade, de gambiarra, de acertos da vida sobre nada e que hoje precisamos resgatar como forma de oferecermos outra alternativa de vida que não seja essa que ai está. Que quanto mais se desenvolve, mais fracasso cria, quanto mais progresso produz mais tragédia anuncia.
Temos uma experiência de vida, de cultura, de rituais que sempre significou viver com muito pouco. Esse conhecimento precisa ser resgatado, uma horta, um pomar, um porquinho e alguns frangos, pequenas trocas comunitárias de subsistência. Como gerações antes da nossa viveram com tão pouco e, viveram, e agora somos nós que precisamos viver também com muito menos do que temos vivido.
Terra sem ódios, sem guerras, sem disputas étnicas e religiosas, onde todos, de norte a sul, nos reconhecemos como partícipes do mesmo país e do mesmo patrimônio histórico cultural. O que nos divide, a obscena distribuição de riquezas, talvez possa ter a partir de agora outro sinal. Um sinal positivo, afinal, qual é o problema senão a riqueza que rouba do futuro tudo o que as gerações vindouras precisarão para viver. O que o Brasil pode mostrar ao mundo é que podemos viver com o que cada tempo pode retirar da natureza para viver. Nossos problemas não podem mais ser resolvidos pela economia, muito pelo contrário, precisamos aprender a pensar sem ela. Luciano Alvarenga

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