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domingo, 24 de julho de 2011

Europa: o mundo desaba, a juventude aparece

Movimento 15-M: Crônica de um mês e meio de efervescência social em Barcelona

A dinâmica da praça, pela sua magnitude e intensidade, ultrapassou tudo e todos: organizações, coletividades e até redes que estavam organizando-se através da Internet. Na Espanha e em outros países, em especial na Grécia, a ocupação de praças está sendo um catalisador poderoso da indignação popular face ao sequestro da soberania popular e da expropriação do patrimônio público perpetrada pela oligarquia financeira e seus braços políticos. Por Luis Juberías e Quim Cornelles

No dia 30 de junho era desocupada a Praça Catalunha de Barcelona, praça onde ainda permaneciam algumas pessoas, depois de a maior parte do movimento ter decidido descentralizar-se, dividindo-se pelos bairros e mantendo a Praça Catalunha como um ponto de encontro e um símbolo. Durante 44 dias a Praça Catalunha esteve ocupada, tal como muitas outras praças do Reino de Espanha. Tanto aqui como noutros países, em especial na Grécia, a ocupação de praças está sendo um catalisador poderoso da indignação popular face ao sequestro da soberania popular e da expropriação do patrimônio público perpetrada pela oligarquia financeira, através da chantagem resultante da especulação da dívida pública, com o consentimento da UE e dos partidos políticos no poder.

Na segunda-feira, 16 de Maio, no rescaldo do que acontece em Madri (onde no domingo, 15 de Maio, um grupo de pessoas acampa na Praça do Sol depois da manifestação e é violentamente desalojado), quase uma centena de pessoas decide acampar na Praça Catalunha. Convocadas através das redes sociais, sob o olhar dos meios de comunicação e do fenômeno de massas que se verifica no acampamento da Praça do Sol em Madri, primeiro centenas, depois milhares de pessoas, acorrem à praça. Milhares de pessoas de várias gerações, diversas procedências sociais e com diversas trajetórias de vida e cultura política, encontram-se na praça.

A praça transforma-se em Ágora onde se discute política e se verifica um fenômeno de socialização política acelerado de dezenas de milhares de pessoas. Abre-se a perspectiva de que a ação colectiva é possível e a resignação, de repente, desvanece-se. Tudo parece possível no círculo central da Praça Catalunha. Adotam-se princípios como a não visualização de siglas e de identidades coletivas, a assembleia como princípio organizativo, a não-violência e o respeito, códigos para a discussão (onde impera a lógica do consenso) como o aplauso surdo, que consiste em agitar as mãos para expressar acordo, e os braços cruzados para expressar bloqueio, e palavras de ordem como, entre outras, «não nos representam», «o povo unido jamais será vencido», «não é uma crise, é uma burla», «cortar na saúde é assassinato».

É verdade: havia jovens do movimento estudantil que viveram a luta contra o Plano Bolonha; gente mais velha para quem a transição representou uma frustração; jovens adultos que viveram o ciclo de mobilizações que finalizaram em 2004, que confiaram no projeto político de Zapatero e foram desiludidos por ele; ativistas e militantes que assistiram em 2008 à ruptura do mundo que conhecíamos e ao início de uma mudança de era; ativistas da esquerda autonomista envolvidos no ciclo de luta dos movimentos sociais da última década (mobilização contra o Banco Mundial, movimento V de luta pela habitação, etc.); ativistas pela liberdade na Internet; gente do movimento Okupa; mas também pessoas da esquerda política e social organizada (comunistas, anarquistas, anarco-sindicalistas, socialistas, sindicalistas, gente do mundo associativo), etc. Mas, sobretudo e de uma forma absolutamente majoritária, gente para quem esta era a primeira experiência de socialização política, com uma grande presença das classes médias e profissionais que começam a sentir a crise na carne, e de precários e desempregados sem expectativas de saída, com grande competência profissional.

A dinâmica da praça, pela sua magnitude e intensidade, ultrapassou tudo e todos: organizações, coletividades e até redes que estavam organizando-se através da Internet. Só os grupos de afinidades e os contatos pessoais tiveram capacidade de reação. A praça transformou-se num mundo auto-referencial, quase um fim em si próprio. As comissões de trabalho e as suas respectivas subcomissões funcionavam em pleno durante horas intermináveis, fomentando debates sistemáticos e bastante ideológicos, em especial na mastodôntica comissão de conteúdos. Situação replicada simultaneamente em centenas de assembleias e de acampamentos em diversas localidades de todo o Estado.

Tudo começou no domingo, 15 de Maio. O que aconteceu em 15 de Maio? Para começar, podemos dizer que se acendeu o rastilho de um barril de pólvora, o do mal-estar provocado por uma situação econômica e social que se caracteriza por uma taxa de desemprego de 20%, com cerca de 45% de desemprego juvenil, a taxa mais alta da Europa, e por um nível elevado de precariedade laboral, que afeta principalmente a juventude e as mulheres. Situação agravada pela orientação política do governo Zapatero com a adopção da autodenominada política de austeridade: reforma laboral por decreto, acordo de pensões que aumenta para os 67 anos a idade da reforma, entre outras restrições de direitos.

Na Catalunha, temos de somar a esta situação os cortes selvagens e as privatizações postas em marcha pelo governo CiU que, na prática, resultarão no colapso do sistema público de saúde. Em segundo lugar, podemos falar da revolta social verificada nos últimos meses, que deu lugar a muitas iniciativas cidadãs como as Mesas de Convergência Social, apresentadas em fevereiro em Madrid; da Juventude Sem Futuro, que convocou milhares de pessoas a 7 de Abril através das redes sociais; do Estado de Mal-Estar, que apelava às pessoas semanalmente, pedindo-lhes que demonstrassem na rua o seu descontentamento, etc. Em terceiro lugar, temos de destacar o papel da plataforma Democracia Real Já, que reúne a experiência do activismo na Internet, activada por experiências como #nolesvotes, no rescaldo da Lei Sinde e pela luta a favor da liberdade na Internet.

Democracia Real Já foi capaz de organizar, através das redes sociais, 60 manifestações simultâneas em diversas cidades do Estado. As chaves do sucesso da convocatória, capaz de estabelecer a ligação com o subconsciente popular, podem encontrar-se na linguagem simples e eficaz «não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros» e na utilização das redes sociais, capazes, quando utilizadas com critério, de mobilizar grandes massas humanas em espaços enormes. Em Madri dezenas de milhares de pessoas saíram para a rua e poucas decidiram acampar, mas a repressão posterior e o seu seguimento em directo por milhares de pessoas através das redes sociais provocaram, como vimos, uma reação solidária, e os acampamentos em Madri e em todo o Estado espanhol.

No domingo, 22 de maio, realizavam-se as eleições municipais e a crítica centrou-se na crise de representação: «Não nos representam». Denuncia-se a falta de capacidade para fazer alguma coisa que não seja o que os poderes económicos impõem. Em 19 de maio a Junta Eleitoral Central proíbe os acampamentos no dia de reflexão. A polícia vê-se incapaz de os extinguir e a 21 de Maio os acampamentos continuam.

A partir das eleições, a participação diminui na Praça Catalunha (o que quer dizer que a afluência de pessoas deixa de aumentar e, pouco a pouco, se passa de assembleias com 10 000 participantes para assembleias com 8 000, 6 000, etc.) e começam a organizar-se assembleias de bairro, povoações e cidades, enquanto vão surgindo novas assembleias e acampamentos por toda a Catalunha. Em 27 de maio, logo de manhã, com o pretexto de limpar a praça e de evitar incidentes face a uma possível comemoração da vitória do Barça na final da Liga dos Campeões, os mossos d’esquadra, a polícia catalã, tentam desocupar a Praça Catalunha e, de fato, levam e destroem todo o material e estruturas construídas até à data.

A resposta popular é impressionante e muitas pessoas largam os seus trabalhos e ocupações, dezenas de milhares de cidadãos cercam a polícia e forçam a sua saída em poucas horas, recuperando a praça e iniciando a reconstrução de tudo. Muitas das pessoas que se mantinham aí há já duas semanas foram descansar, tendo sido substituídas por novos voluntários. O apoio popular volta a aumentar mais uma vez, reforçado pelas imagens chocantes que circulavam pela Internet, e as pessoas questionam a actuação policial e pedem a demissão do Conselheiro do Interior, Felip Puig.

Passamos para 15 de Junho, data em que alguns milhares de pessoas convocadas pelo acampamento e pelas recém-formadas assembleias de bairros cercam o Parlamento da Catalunha, tentando evitar que os deputados votem um orçamento que consagra cortes sociais sem precedentes, política que, a propósito, não tinha sido referendada pelas urnas. Após alguns incidentes isolados com alguns deputados e com mais uma operação policial questionável, o Parlamento em pleno vota uma resolução contra a mobilização, alegando que esta estaria, violentamente, a pôr em causa a legitimidade do Parlamento.

Tem início uma campanha de criminalização do movimento de que fazem eco os principais meios de comunicação. A batalha da comunicação é brutal, o movimento é descrito como sendo anti-sistema e violento, e Felipe Puig chega a falar em «kale borroka». Poucos dias depois os meios de comunicação têm de recuar. A força da contra-informação do movimento, apoiado pelas redes sociais na Internet, é esmagadora.

Neste contexto, no domingo, 19 de Maio, é convocada uma manifestação contra o pacto do euro e, em Barcelona, também contra os cortes sociais e pela demissão do Conselheiro do Interior. De todos os bairros, povoações e cidades chegam colunas de cidadãos: 275 000 pessoas de acordo com a organização e 50 000 segundo o Departamento do Interior manifestam-se nas ruas de Barcelona (e, simultaneamente, noutras partes de Espanha e da Europa). De qualquer forma, trata-se de uma das principais manifestações da história da Catalunha. É a primeira experiência incontestável da força e do apoio efetivo obtido pelo movimento e toda a retórica criminalizadora é abandonada ipso facto. Mais uma vez, quanto mais força se utiliza contra o movimento, mais ele cresce. Convém destacar a presença e o apoio dos sindicatos maioritários e da plataforma Prou retallades (Basta de cortes). Plataforma que reúne a esquerda social do país e que convocou uma importante manifestação a 14 de Maio contra os cortes sociais, um bom antecedente para a necessária confluência da resposta social face à difícil situação que estamos a viver e que requer, sem dúvida, a implicação a fundo do movimento operário organizado em toda a sua extensão.

A partir desse momento, Praça Catalunha inicia um processo de esmorecimento, uma vez que o setor mais dinâmico do movimento achou que o efeito social e simbólico foi positivo, mas que seria necessário prosseguir a ação e abandonar o círculo vicioso da auto-referenciação do movimento e do acampamento. O peso da gravidade passou definitivamente para a organização das assembleias de bairros, povoações e cidades e para a articulação de lutas concretas. A luta passa a ser bairro a bairro e hospital a hospital contra os cortes na saúde, liderada pelo coletivo Indignad@s por la Sanidad; a luta contra as ações de despejo, impulsionada pela Plataforma de Afectados por la Hipoteca, passa para primeiro plano. Democracia Real Já passa a centrar-se na organização e mobilização global do próximo dia 15 de Outubro.

Em 30 de junho são desalojados sem incidentes os últimos resistentes desta primeira experiência que foi a ocupação das praças. Estejamos atentos ao segundo ato do espectáculo, este Outono, e a um interlúdio, este Verão: a 20 de Julho é aprovado o orçamento dos cortes na Catalunha e a 15 de Julho será lançada uma nova campanha impulsionada por Democracia Real Já: Ocupa a praia!

Publicado originalmente no Esquerda.Net

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