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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Artigo: Os jovens e as lan Houses

Luciano Alvarenga


Está ocorrendo um fenômeno interessante de se observar, trata-se da explosão das lan houses, especialmente por bairros onde a precariedade de infra-estrutura é mais notável. “Políticos, são nas lan houses que vocês têm de entrar”.
Quer saber o que o que a molecada quer, ou por onde andam seus interesses é só freqüentar essas casinhas apinhadas de computadores e cheia não apenas de moleques, adolescentes, às vezes até crianças, mas também adultos. As lan houses são a porta ao mundo que, se abre a milhões de jovens que de outra maneira não teriam como interagir com uma nova sociedade que se descortina neste início de século. A internet não é apenas a possibilidade para molecada se endiabrar em jogos de guerras, mas muito mais importante, por ser a viabilidade de se aprender uma nova linguagem, uma nova forma de se ver e desenhar a vida e a sociedade. A loucura pela internet e pelas lan houses, não são os jogos, mas a inserção em um mundo novo, rico em possibilidades e onde se encontra as vias para a interação e construção da identidade pessoal e de grupo, o meio de fazer parte, sentir-se protagonista e tendo o mundo digital como ferramenta para esta inserção.
As lan houses expandem na mesma velocidade em que fecham os botecos. As lan houses são, ao lado das igrejas evangélicas, as maiores concorrentes do tráfico de drogas, pois é onde os jovens sem perspectivas encontram possibilidades de fazerem seus próprios caminhos. Os políticos ainda não se deram conta deste novo cenário, ainda não se atinaram do interesse que este novo eleitorado, com outras idéias, outras visões, outros ângulos de percepção pensam, querem e fazem.
Esta molecada já sacou, mesmo que intuitivamente, que não há mais chances, nem eles querem, de ingressar no mercado de trabalho à moda antiga – carteira assinada, patrão, cartão de ponto -, muito mais mundo é possível e desejável quando se domina a linguagem digital e se tem a oportunidade de fazer com as próprias mãos, ou melhor, com os próprios programas, hardwares, softwares e a criatividade que cada um tenha.
Esta molecada sacou há muito tempo que, escola é perda de tempo, é mais passa tempo com os amigos do que aprendizado. Já sacou que os professores ou já sabem disso e facilitam as coisas ou, estão por fora e de nada adianta manter contato - foram engolidos pela revolução digital. Há dois anos encontrei pela rua um aluno meu do primeiro ano do curso de administração de empresas, aproveitei para perguntar por que andava sumido. Disse-me que estava trabalhando com internet, criação de jogos e outras coisas relacionadas que não entendi bem. Mas entendi que ele estava fazendo melhor para si mesmo navegando em seus próprios mares, do que assistindo minhas aulas que, mais atendiam as exigências da Faculdade do que as necessidades desse aluno.
A internet é a possibilidade que, jovens de periferia e de todos os cantos esquecidos do país nunca tiveram, de fazerem por si mesmos o que a educação formal nunca fez nem se propôs a fazê-lo. A internet é a matéria-prima, o computador a ferramenta, a única coisa que se espera do governo, especialmente os municipais, é que possibilitem aos jovens acessarem o mais que puderem tais meios. Esqueçam as escolas, distribuam computadores com internet em banda larga a todo mundo, e deixem as transformações ocorrerem por si mesmas. Aliás, as próprias escolas deveriam, em nome de sua sobrevivência, fazerem parcerias com as lan houses, permitindo que os alunos tão logo saiam das infrutíferas aulas, possam em seguida recuperar o tempo nas lan houses.
Luciano Alvarenga, Sociólogo

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