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Artigo: Internet e Juventude

Luciano Alvarenga


A internet chegou para ficar, mesmo que muita gente não queira nem goste. A internet não é uma moda, nem um maneirismo, a internet é o emblema de outro tempo, não outra época, mas uma nova era. Não é apenas a forma de fazermos as coisas que muda com a internet, como comprar um carro ou pagarmos nossas contas, isso é uma lateralidade deste fenômeno, o que muda é a forma como vemos o mundo e como o concebemos que se altera profundamente a partir de agora.
Tem muita gente que usa a internet para mandar e-mails e ter uma conta no Orkut ou um blog, fazendo destes espaços usos não muito diferente dos murais escolares ou diários íntimos, muito comuns nos séculos XIX e XX. Estamos diante de algo completamente distinto, não apenas pela ferramenta internet, mas em função de todas as transformações sociais, religiosas e de comportamento que são estimuladas pela internet, mas que ao mesmo tempo caracterizam a grande rede de computadores.
A idéia de um futuro mediado pelas info-estradas está aos poucos se fazendo concretizar nas novas gerações que não conseguem conceber a vida sem os computadores e a internet, aliás, um computador sem internet é como uma sala de aula sem lousa décadas atrás. O mundo não estará na internet, mas é lá que nós iremos procurar por ele, e apenas lá será possível encontrá-lo. Isso significa que se não tivermos uma identidade na internet é como se não estivéssemos no mundo. Nossa face pública que não estará no espaço público como ainda o entendemos agora, só será vista pela forma como a construirmos na internet. As atuais gerações terão suas identidades amadurecidas on-line, isto é, construirão sua identidade neste espaço de uma forma diferente a cada fase de sua vida. Dos joguinhos eletrônicos passando pelas páginas de relacionamento, aos blogs e sites, o que veremos é a transformação das pessoas sendo acompanhadas por amigos ou não, e que ficarão registradas permanentemente na rede; coisa estranha para nós sabermos que podemos ver ou relembrar de nossas páginas pessoais de quando tínhamos 3 anos de idade tendo agora vinte, trinta anos. Já existe gente perdendo o namorado ou o casamento por que foram flagrados em fotos nada convencionais tiradas 10 anos atrás. Filmar uma transa pode ser muito excitante, mas assisti-la 15 anos depois quando sua vida já é outra, pode ser embaraçoso.
Outra coisa ainda não assimilada pelos moradores do século XX é o fato de que as pessoas participarão sem participar; eu vou sem sair daqui. Se ficarmos sabendo das coisas pela internet, por que não discutir e debater e falar pela internet? Um exemplo pessoal sobre isso é o de que participo politicamente da cidade onde nasci e cresci estando a 500 km de distância, coisa que não é aceita por alguns na cidade que se consideram mais conterrâneos da cidade do que eu. É difícil para essas pessoas, nativos do século XX, entenderem que alguém com acesso a internet tem mais informações sobre qualquer cidade do mundo, do que outro que more nessa mesma cidade e não tenha acesso à rede. Trocar experiências, impressões, ouvir falas e assistir imagens pela internet pode ser mais informativo do que conversar no mercado municipal com uma ou duas pessoas. Aliás, a capacidade de convencer e se fazer ouvir por um grande número de pessoas só é possível, especialmente para quem não tem acesso à grande mídia, pela rede. Ficar na rua reclamando sobre a legitimidade de quem fala pela rede é perda de tempo e não leva a lugar algum, a rua não é mais na rua.
Enfim, é na internet onde estão sendo forjadas as novas identidades e de lá que teremos as linhas do que será o mundo e de como vamos lidar com ele. Assim, ter um espaço no mundo é antes construí-lo na rede, e só se constrói espaços na rede criando uma identidade, e identidade só possui quem não é anônimo. Luciano Alvarenga, Sociólogo.

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