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Dia das mães



As mães do Mercado
Luciano Alvarenga

As escolas não comemoram mais o dias das mães, tendo em vista que muitas crianças não têm mãe, ou não moram com ela, ou sua mãe é na verdade um pai homossexual masculino. Para evitar constrangimentos é melhor deixar a data pra lá. Chama a atenção, no entanto, que se as escolas aboliram a tal data, esta é a segunda data mais comemorada pelo comércio. Perde em vendas apenas para o natal.
O comércio acha que o dia das mães é lindo, as escolas fingem que elas não existem ou se existem não podem ser lembradas para não melindrar aqueles que não as possui. Estranho isso.
Se muitas crianças não possuem mães, todas as outras possuem. A ausência de mãe na vida de uma criança deveria apontar mais para a gravidade desta criança não tê-la, do que o fingimento de que o dia das mães não é necessário. Negar o dia das mães é negar a importância da criança.
Mas como uma parte não possui, ao invés de discutirmos, também com as crianças, a realidade toda destrambelhada das relações amorosas atuais, preferimos convencê-las de que mãe não tem importância (ou está muito ocupada fazendo algo importante) quando ao mesmo tempo profissionais das mais diversas áreas, especialmente aquela da psicanálise, apontam para o papel fundamental desta figura na formação emocional e psíquica do infante.
Mas como na sociedade do divertimento a idéia é escondermos as conseqüências dos erros e desacertos que cometemos em nome do nosso ego infantilizado, é mais fácil dizermos às crianças que mãe não é importante, do que pensarmos em como transformamos a vida numa grande Terra do Nunca. Em uma linha, descarregamos sobre as crianças o peso das nossas escolhas egoístas.
Mães que jogam seus filhos no lixo ao lado de pais incógnitos são apenas mais um lado de uma sociedade em que as mães perderam o sentido e a razão. Segundo o psicólogo Renato Martino, autor centrado nestas questões, o bebê não existe sem a mãe, e a mãe não existe sem o pai. Com o desmonte da família o primeiro que deixa de existir enquanto sujeito possível de si mesmo é o bebê.
O simbólico da mãe que joga filhos no lixo, e estes casos já somam milhares pelo país a fora, é o apagamento deste ser – a mãe – em nome de nada. A multi mulher (substituta empobrecida da mãe) que na verdade é apenas a mulher explorada várias vezes, sem receber nada por isso, a não serem promessas de realização que até agora não se cumpriram, é o outro lado das mães que se desfazem dos filhos arremessando-os na lata mais próxima. A multi mulher moderna, arejada, antenada com as tendências que, segundo os especialistas de última hora, são o melhor que a mulher deve querer e desejar é um engodo. A multi mulher é mais um passo para o fim da maternidade, e o bebê no lixo é a sua trágica caricatura.
Não é por outro motivo que ser mãe hoje nada tem a ver com maternidade. Maternidade ficou associada apenas ao período de gestação em que mulheres desfilam pelas ruas e shoppings suas imensas e vitoriosas barrigas prenhes de seus futuros filhos. Passado este período de paparicos e atenção coletiva para seu estado especial, o pós nascimento é na verdade a inclusão do bebê ao lado de outros afazeres da multi mulher. Com isso quero apenas dizer que ser mãe perdeu completamente a transcendência, seu sentido profundo de ligação entre a vida e seu sentido.
Entre a mulher que dá vida a um novo ser, e a mãe que empresta sentido a esta vida, restou apenas obrigações, afazeres, necessidades, e o desejo nem sempre fraco de voltar à ativa. Segundo o conhecimento produzido pelos periódicos de fim de semana, ser mãe é apenas uma possibilidade que pode caminhar ao lado de outras igualmente importantes. Cabe dizer, entretanto, se estas outras importantes possibilidades são as mulheres que definem ou, o mercado. Aliás, toda a realidade vivida pelas mulheres com seu assentimento ou não é imposição de interesses do mercado.
Que as creches acolham crianças com dois meses de idade aponta apenas nossa esquizofrenia social e o sucesso do mundo divertido do rei indivíduo. A multi mulher é mais uma vitória do mercado sobre a sociedade, é a vitória da falta de sentido sobre o sentido da vida.
Viva o dia das mães sem filhos.

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