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terça-feira, 5 de abril de 2011

Um olhar pelo mundo

Amigos,
 
Recebi este texto e repasso, caso queiram ler: tenho o péssimo hábito de querer compartilhar coisas que julgo inteligentes. O bom é que escolho àqueles a quem quero mandar e se foram escolhidos é porque, creio, são pessoas e não projetos.  Só espero, apesar disso, não incomodá-los tanto.
 
Um beijo
 
Sílvia Damacena
(17) 8115-0307
msn: silcena@hotmail.com
email: scrdamacena@gmail.com
skipe: silvia.damaceno
 
PASSEIO SOCRÁTICO

(por Frei Betto)

"Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos, e em paz nos seus mantos cor de açafrão...

Em outro dia, eu observava o movimento do Aeroporto de São Paulo: a
sala de espera estava cheia de Executivos com telefones celulares,
preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com
certeza, já haviam tomado o seu café da manhã em casa; mas, como a
companhia aérea oferecia outro café, todos comiam vorazmente.
Aquilo me fez refletir: "Qual dos dois modelos vistos por mim, até
aqui, realmente produz felicidade?".

Passados alguns dias, encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove
da manhã, e perguntei: "Não foi à aula?". E ela me respondeu: "Não. Eu
só tenho aula à tarde". Comemorei: "Que bom! Isto significa, então,
que, de manhã, você pode brincar, ou dormir até mais tarde!...".
"Não;", retrucou-me ela, "tenho tanta coisa a fazer, de manhã...".
"Que tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês; de balé; de pintura;
piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada...
Fiquei pensando: "Que pena! A Daniela não me disse: "Tenho aula de
meditação".

Vê-se que estamos construindo super-homens e super-mulheres,
totalmente equipados, mas, emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis
livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de
ginástica e três livrarias!
Não tenho nada contra malhar o corpo... Mas, preocupo-me com a
desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos
todos morrer esbeltos. Alguns perguntaram "Como estava o defunto?". E
outros responderão: "Olha..., uma maravilha, não tinha uma
celulite!"...

Mas, como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da
ociosidade amorosa? Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual.
Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga
íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação, porém, de conhecer o seu
vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos
virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também
eticamente virtuais...

A palavra hoje é "entretenimento". Domingo, então, é o dia nacional da
imbecilização coletiva. Imbecil, o apresentador; imbecil, quem vai lá
e se apresenta no palco; imbecil, quem perde a tarde diante da
telinha...
E como a publicidade não consegue vender felicidade, ela nos passa a
ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar
este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este
carro..., você chega lá!".
O problema é que, em geral, "não se chega"! Pois, quem cede a tantas
propagandas desenvolve, de tal maneira, o seu desejo, que acaba
precisando de um analista, ou de remédios. E quem, ao contrário,
resiste, aumenta a sua neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse
condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se
viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são
indispensáveis: a amizade, a auto-estima, e a ausência de estresse.

Mas, há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade
Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no
Brasil, constrói-se um Shopping Center. É curioso: a maioria dos
Shoppings Centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas;
neles, não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de
"missa de domingo". E ali dentro se sente uma sensação paradisíaca:
não há mendigos, não há crianças de rua, não se vê sujeira pelas
calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno: aquela
musiquinha de esperar dentista. Observam-se vários nichos: capelas com
os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas.
Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Mas, aquele que
só pode comprar passando cheque pré-datado, ou a crédito, ou, ainda,
entrando no "cheque especial" ou parcelamento do cartão, se sente no
purgatório.
E pior: aquele que não pode comprar, certamente vai se sentir no
inferno...excluído na sociedade consumista....
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na
mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald...

Por tudo isto, costumo dizer aos balconistas que me cercam à porta das
lojas, que estou, apenas, fazendo um "passeio socrático". E, diante de
seus olhares espantados, explico:

"Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça
percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês
o assediavam, ele respondia: "Estou, apenas, observando quantas coisas
existem e das quais não preciso para ser feliz!"

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