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O massacre do Rio do Janeiro


O massacre de Realengo

O massacre de uma dezena e meia de jovens na escola estadual no Realengo/RJ, por um jovem de 23 anos que aparentemente e, até agora, motivo explícito nenhum teria para cometer esta tragédia nos coloca algumas questões que extrapolam o universo da tragédia produzida.
Afirmar que o jovem Wellington era louco ou esquizofrênico ou algo assim, como alguns analistas estão fazendo, é escamotear as razões sociais por trás do crime.
O fato particular e especial de ter colocado sua sanha assassina em andamento na escola onde estudou é muito significativo. Por que a escola e não um shopping, ou uma rodoviária, ou um ponto de ônibus cheio de gente? Voltar até a escola é o sinal mais evidente deixado por este jovem para entendermos suas razões.
Matou na escola por que foi lá que viveu parte de sua vida infanto-juvenil. Descobrir e entender como foi sua vida estudantil naquela escola é a melhor forma de se compreender o que se passava em sua cabeça. A escola pública é hoje o caldeirão que sintetiza a sociedade inteira, especialmente naquilo que ela possui de problemas sociais, desajustas familiares, exclusão econômica, déficit emocional, falta de referências comportamentais e de valores que possam ser reproduzido pelos jovens.
A escola pública a muito deixou de ser um lugar de formação e preparo, e há décadas que se resume a reunir uma camada social desajustada e no mais abandonada e para o qual os poderes públicos não têm projeto nem programa que possa lhes servir para transformar a vida. Explosões de violência entre alunos, descaso e inércia da burocracia escolar, professores agredidos e agredindo alunos mais uma infinita gama de coisas, já projetava a escola como o lugar potencial para uma tragédia como a que vimos.
Wellington não enlouqueceu, ele resulta de um caldo cultural social urbano que ele não conseguiu contornar nem dá outro sentido, senão o sentido, trágico, que ele ofereceu para a sociedade. Morto socialmente (é um invisível), marginalizado numa instituição social, a escola, que nada oferece em termos de possibilidade futuras, largado a própria sorte (a morte da mãe), convivendo com tipos sociais com tão poucas possibilidades como ele, lançou mão do que possuía e conhece – a violência, a mesma violência que a sociedade reproduz todos os dias com seus discursos agressivos de felicidade e realização no consumo.
Se o Brasil ofereceu a 3 ou 4 dezenas de milhões de pessoas a oportunidade de comer iogurte e comprar uma máquina de lavar, outros tantos que já comem e consomem não estão conseguindo ver luz no fim do túnel para além de um supermercado. Aqui mora a angústia. Comprar não torna ninguém mais feliz nem responde outros tipos fundamentais de pergunta.
Wellington nos chama a atenção para coisas que estão além de nos satisfazermos na alegria infantil de consumidor. A vida social nas cidades do mundo está cercada de um nível intolerável de incerteza e indeterminação. Os níveis mais elevados de violência se encontram entre jovens de até 25 anos, faixa etária de jovem Wellington. Os jovens são os que mais estão expostos a liquefação da vida e ao desaparecimento de qualquer coisa ou instituição com que se possa contar. A incerteza, a indeterminação, a imprevisibilidade de qualquer coisa, especialmente sobre si mesmo e o próprio futuro, joga as novas gerações num grau de angustia, estresse e pressão que crescentemente tem terminado em quadros crônicos de Bullying, anorexia, bulimia, violência contra tudo e todos, quando não na explosão alucinada como a da escola do Realengo.
Lembremos que vem crescendo ano a ano a violência contra a mulher, contra o gay, contra o idoso e contra a criança. Se cada caso é um caso, e é certamente todos eles se enlaçam como parte do mesmo caldo de transformações sociais e culturais que o Brasil e o mundo estão vivendo. A promessa de felicidade e realização via mercado não se cumpriu e as pessoas não encontram outra via para viver e se realizar.
Wellington matou e muitos outros gostariam de fazer o mesmo. Segundo a OMS a sociedade ocidental está doente (referindo-se a quantidade de remédios do tipo seja feliz com um comprimido que as pessoas ocidentais tomam) e, Wellington é fruto desta doença.
Este jovem estourou como um tumor na pele da sociedade, mas todos os dias a conta gotas vemos milhares de pessoas morrendo anônima e violentamente nas cidades brasileiras.
Wellington matou dezenas e isso é um massacre, mas a crise financeira de 2008, produzida a partir de Wall Street, levou a falência países inteiros por todo o mundo e a morte de milhares de pessoas e, isso é a barbárie. Mas tanto um como outro resultam da mesma cultura de morte. Luciano Alvarenga, Sociólogo



Orkut: perfil falso de Bolsonaro anunciou massacre


Agência Globo
 Reprodução
Um perfil anônimo no Orkut postou, sete dias antes da chacina na escola Escola Municipal Tasso da Silveira, uma mensagem que falava de uma chacina num colégio do Rio de Janeiro. O texto, que também foi publicado por um perfil falso do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) na mesma rede social, num fórum que debate o bullying afirma que em breve teremos um documentário estilo Columbine nas telinhas nacionais, se referindo ao massacre na escola americana em Littleton, Colorado, que terminou com 13 mortos e 25 feridos .
Nem estou chorando, apenas me preparando para uma chacina que irei fazer no colégio que fui bulinado (sic). Em breve teremos um documentário estilo Columbine nas telinhas nacionais. Aguardem...., diz a mensagem.
O deputado Jair Bolsonaro afirmou na quinta-feira que não sabia sobre o perfil falso. Bolsonaro disse ainda que não possui qualquer conta numa rede social, e se colocou à disposição para ajudar nas investigações:
Meu nome foi o mais falado esta semana no twitter, nas páginas eletrônicas. Eu sou o nome do momento. Isso pode ser alguém querendo associar minha imagem ao caso. Se eu começar a tentar processar todo mundo eu vou ficar maluco, mas, lógico, que tudo que puder fazer para ajudar eu faço. Deixo meu computador ou o que precisar à disposição para as investigações afirmou ele.
A comunidade No Escuro, onde a mensagem foi postada, convoca seus mais de 46 mil membros a contarem seus segredos e medos, e a confessar suas fraquezas. De acordo com a assessoria de imprensa do Google, responsável pela rede social, não há como falsificar a data que uma mensagem é postada, o que confirma que o texto foi publicado sete dias antes do ataque.

Comentários

Vivian Kato disse…
Ótimo texto, eu particularmente não li muitas noticias sobre esse assunto, é horripilante, e nas maioria das noticias tinham como sub-título "Dilma se emociona com o acontecimento e declara 6 dias de luto" luto? oq q vai adiantar? por que o poder nunca pensa numa forma de educar melhor a juventude, por que não se preocupam com as situação das escolas... e a mídia então...nem comento o sensacionalismo que fazem... Isso me revolta.
Anônimo disse…
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