Pular para o conteúdo principal

Encontros e desencontros

Grande Luciano!

Veja essa matéria que fizemos mesmo antes de nos conhecermos:

Relações obsoletas

Ariana Pereira

A cada dia incontáveis novidades são adicionadas à lista de invenções tecnológicas desenvolvidas para ajudar o ser humano. Provavelmente, o computador de última geração comprado há um ano já é precedido por outras máquinas superiores, hoje. Assim acontece com aparelhos de televisão, telefones celulares ou técnicas desenvolvidas pela medicina. O homem e a mulher acostumaram-se a trocar rapidamente os produtos que ficam ultrapassados ou que não oferecem mais tantas vantagens quanto na época em que foram adquiridos. Em uma imensa confusão de valores, acaba-se transferindo a ânsia por novidades tecnológicas e novas aplicações de utensílios aos relacionamentos.

Dessa forma, não apenas as invenções humanas como também os relacionamentos tornam-se obsoletos e inicia-se, assim, uma busca incansável pelo parceiro ideal ou que ofereça mais “vantagens” do que o anterior. Relacionamentos relâmpagos, insatisfação constante e solidão são apenas algumas das consequências negativas de uma busca desenfreada pelo mais novo, pelo que proporcione melhores sensações com mais benefícios possíveis. Sem esquecer a necessidade de baixos investimentos de tempo e emoção. “O fato de estarmos vivendo em uma sociedade de consumo é que faz a diferença. As pessoas transferem para os relacionamentos a mesma subjetividade que vivem nas relações de consumo.

Como estamos habituados a trocar de celular e de carro compulsivamente assim que eles perdem o charme de coisa nova, as pessoas passam a ver a relação amorosa da mesma forma. Buscam permanentemente a sensação de novo que cada relação tem, mas que não é possível perdurar. A ansiedade dos primeiros beijos e transas abre espaço para outro padrão de relação em que o familiarizar-se ocupa o espaço do desbravar. Ocorre que estamos vivendo um momento histórico em que trocar pelo novo tem mais valor do que conhecer o ‘antigo’”, avalia o sociólogo Luciano Alvarenga. O costume de se afastar do outro quando a relação é custosa ou proporciona algum tipo de decepção natural a qualquer ser humano pode custar caro, na opinião do psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino.

Para ele, a cada dia as pessoas se afastam mais e o maior problema na redução do espaço dedicado aos vínculos com o outro é limitar o vínculo consigo mesmo. A capacidade de pensar é o que faz os seres humanos melhores e o pensamento só pode ocorrer quando se compreende o outro em si próprio. “Talvez por não ter ainda desenvolvido a capacidade de ‘ser’ e se ligar às pessoas como se liga às coisas, ou seja, por meio do ‘ter’, algumas pessoas encaram os parceiros como um produto que deve ser trocado quando encontra-se um defeito. Esse tipo de indivíduo me parece materialista. A característica da personalidade materialista tem raízes profundas na experiência da falta na capacitação do reconhecimento do real. Daí a necessidade de confirmação constante do concreto, material, o real sensorial”, afirma Prof. Martino.

Desmascarar
A melhor forma de encarar um relacionamento é saber lidar com o outro passada a magia dos primeiros encontros e iniciada a fase em que as máscaras caem e o parceiro (ou parceira) mostra, aos poucos, quem realmente é. Para isso, de acordo com o psicoterapeuta, é preciso aprender a criar vínculos com alguém real e cheio de incertezas, como qualquer ser humano. O vínculo, prossegue Prof. Martino, possibilita a alguém manter-se ligado a outra pessoa, ainda que não haja a presença física. “Na criação disso que aqui estamos chamando de vínculo é imprescindível a experiência da falta, ou seja, viver a falta deve ser algo possível. Do contrário nunca aceitaremos aquilo que difere do que desejamos que o outro seja, daquilo que ele realmente é.”

Crise sinaliza amadurecimento

O fato de as pessoas evitarem cada vez mais o envolvimento e a superação dos problemas que qualquer relação traz tem feito seres humanos cada vez mais solitários e indispostos a relações sociais. A dificuldade narcisista de sonhar com algo futuro, que inclua o outro, é cada vez mais frequente e o sonho diminui na mesma proporção em que se criam novas embalagens de produtos destinados a pessoas que optaram por viver só, de acordo com o psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino. “Porém, o outro entra em nossa vida sem pedir licença, e daí é muito prudente que possamos ter preparado um espaço dentro de nós para recebê-lo, caso contrário, a confusão é certa. A rivalidade é certa. Um filho aparece e se dá a formação de famílias não pensadas.”

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se o mundo tivesse 100 pessoas LEGENDADO (premio Cannes)

Ter pinto é crime

Luciano Alvarenga
Uma coisa é o movimento feminista, outra, são as mulheres. Feministas gostam de política, ou pelo menos de terem contra o que levantar suas bandeiras de ódio; mulheres gostam de homens e de uma vida alem da política. O movimento feminista foi desde o princípio, pelo menos aquilo que se pode chamar assim, nos anos 1950, não em direção as mulheres, mas contra os homens. O homem sempre foi o alvo do movimento; não se trata de libertar a mulher seja do que for que se imagine ela precise ser liberta, mas de constranger o masculino de tal forma que o movimento feminista, não as mulheres, tenha mais e mais poder. Aliás, o movimento feminista não está nem ai com as mulheres, basta ver o absoluto silêncio desse movimento em relação à presença de um jogador de vôlei masculino (há quem acredite que lhe terem amputado o pênis e convertê-lo numa vagina, o tornou mulher, kkkkk) num time feminino, sem que isso cause o menor constrangimento político no movimento feminista (aqui é mais…

Sem chão nem utopia

Luciano Alvarenga A grande promessa da modernidade foi oferecer liberdade contra tudo e qualquer coisa que pudesse impedir os indivíduos de fruírem a vida sem amarras. Podemos dizer que, tal liberdade foi conquistada plenamente, e ainda que alguns resquícios de passado, com suas imposições e limites ainda resistam, derretem rapidamente nesse momento; não deixando atrás de si nada que possa servir como estandarte pra novas rebeliões. Não há contra o quê se rebelar. Todos os sólidos do passado, seja moral ou secular, estão liquefeitos; ao indivíduo resta apenas o destino de se guiar, tendo a si mesmo como referência. Ao mesmo tempo em que goza de todas as liberdades, vividas ou sonhadas, realizadas ou posta como possibilidade, o que se desenha nas pegadas daquele indivíduo é o medo, o receio, a insegurança, a incerteza em relação a si mesmo e aos seus destinos possíveis. A própria ideia de destino nada mais é que uma imagem, uma ilusão de quem ainda pensa que se guia de acordo com alguma r…