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domingo, 6 de março de 2011

Wisconsin - EUA. A jihads americana

Para especialista, movimento trabalhista nos EUA vive momento decisivo

Especialista em relações trabalhistas, Robert Bruno é professor da Universidade de Illinois, onde dirige um programa de Educação Trabalhista que fornece treinamento técnico e desenvolvimento profissional para líderes sindicais.

Para ele, o conflito no Wisconsin marca um ponto de inflexão na história recente do movimento trabalhista nos Estados Unidos. Na entrevista a seguir, Bruno avalia as consequências do embate entre os sindicatos do setor público e os governos conservadores de diversos estados norte-americanos.

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Quais serão as consequências para os trabalhadores do setor público se o projeto de lei do governador do Wisconsin realmente for aprovado?
Se esse projeto de lei for aprovado, os trabalhadores perderão seus direitos para negociar coletivamente com seus empregadores sobre a qualidade, a natureza e as condições de seu trabalho. E a implicação é que outros estados logo fariam o mesmo. Então veríamos nos Estados Unidos uma redução da liberdade que os trabalhadores têm nos seus locais de trabalho.

Isso seria um grande passo para trás em relação a um padrão histórico estabelecido nos anos 1950. E sabemos que, quando os trabalhadores não têm direitos, eles ganham menos, são mais suscetíveis a trabalhar em condições difíceis e a qualidade do trabalho cai. E isso tem implicações negativas para os consumidores e os contribuintes. Há muita coisa em risco aqui.

University of Illinois

O professor Robert Bruno, da Universidade de Illinois

O que há por trás dessa tentativa de enfraquecer os sindicatos do setor público?
Os trabalhadores do setor público ganham em média menos do que seus colegas no setor privado, quando se comparam os níveis de preparação acadêmica. Mas os sindicatos deles conseguiram manter planos de saúde e de aposentadoria e um grande número de membros.

Nos Estados Unidos, um pouco mais da metade do movimento trabalhista é composta por funcionários públicos. O enfraquecimento do poder de negociação coletiva já aconteceu no setor privado, onde a taxa de sindicalização não chega a 7%.

Já no setor público, os sindicatos cresceram um pouco ou mantiveram sua densidade, tornando-se os principais financiadores de campanhas políticas do partido democrata. Então a única influência real que vemos como uma força política no movimento trabalhista vem dos sindicatos de setores públicos. Eles estão sendo atacados porque têm poder.

Isso faz parte de uma estratégia de trinta anos da direita norte-americana para enfraquecer toda instituição que possa redistribuir a renda de maneira justa, enfocar temas de justiça social e posicionar o Estado como protetor dos direitos individuais.

É muito mais que política partidária, o objetivo é destruir a única instituição da sociedade civil nos Estados Unidos que poderia defender os interesses da classe trabalhadora e da classe média. Sem o movimento trabalhista, o processo político não se interessaria por assuntos como justiça econômica.

Que consequências esse conflito pode ter no futuro do movimento trabalhista nos Estados Unidos?
Se enfraquecerem o direito de negociação coletiva no setor público, a porcentagem de trabalhadores sindicalizados vai diminuir de maneira dramática e isso certamente terá um impacto negativo na capacidade dos sindicatos de atrair novos membros e atuar no sistema político. O que só vai aumentar o desequilíbrio do poder nos estados e em Washington. Mas também é verdade que essa luta em Wisconsin galvanizou os membros dos sindicatos como não acontecia há décadas.

Há uma possibilidade real de que, mesmo se eles perderem em alguns estados, em algum momento do futuro próximo assistiremos a uma ressurgência do ativismo trabalhista. E uma coisa interessante e muito positiva é o fato de que parte do movimento vem de pessoas que não são ligadas a sindicatos.

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O presidente Barack Obama ainda não se posicionou claramente em relação a esse conflito.
Em sua campanha presidencial Obama prometeu proteger os direitos dos sindicatos. Mas não é uma surpresa completa, porque é comum que presidentes democratas não defendam com muito empenho os interesses dos trabalhadores depois de eleitos. Obama precisa do Wisconsin para se reeleger em 2012.

Ele não sabe quem vai ganhar nessa história e não quer escolher o lado perdedor. Acho decepcionante que ele não tenha apoiado sua base, mas isso é típico de políticos democratas que concorrem aos mais altos cargos neste país.

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