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Renato Dias Martino

Ainda sobre o pensar



Renato Dias Martino

Se existe algum sentido em se afirmar que fora do domínio da experiência não pode existir aprendizado, então temos ai o ponto de partida para se entender o processo que compreende o desenvolvimento mental, ou seja, como ocorre a expansão do pensamento. 
Na tentativa de examinar atentamente o que chamamos de ‘pensar’, estaremos cogitando sobre certa capacidade da qual o humano se gaba perante os outros animais. No entanto, esse mesmo humano ainda é muito pouco habilidoso no uso deste recurso mental. Digo isso apoiado no pressuposto de que esse mesmo humano atual que somos nós, ainda faz a maior parte das suas escolhas por motivos dos quais não puderam ser submetidos a um pensamento atido e dedicado. Faz isso por certas necessidades extremamente primárias, onde o pensamento não tem acesso. O humano escolhe sem pensar onde a urgência se pronuncia. Onde a necessidade de satisfação imediata não permite tolerar frustrações, recurso fundamental ao pensar. Num modelo muito primitivo de funcionamento mental é o modo como o ser humano contemporâneo faz suas escolhas. Mesmo assim, tentaremos aqui, fazer o possível para angariarmos o máximo de recursos nessa breve tarefa de pensar o ‘pensar’.  

A palavra pensar parte do Latim PENSAREA, que diz respeito a pesar, ou avaliar o peso. Aquilo que chamamos de ‘pensamento’ faz parte do processo de construção do espaço interno mental. Esse espaço serve à tarefa de conter os conteúdos mentais como é o caso das emoções e também aspectos colhidos na realidade. Pois bem, mas, que tipo de beneficio poderia nos trazer o exercício e aprimoramento da habilidade de pensar? Para Freud (1856-1939) o pensamento tem função fundamental no adiamento da ação, resultado do impulso. Freud escreve essa ideia num texto que serviu de inspiração para importantes pensadores da psicanálise atual que contribuíram para que o pensamento psicanalítico pudesse evoluir no que hoje se realiza. As Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental, publicado em 1911, foi uma obra que tornou claro certos conceitos dos quais, Freud lutara por anos no desafio do esclarecimento de aspectos dos processos psíquicos. Nessa obra ele escreve que, ‘o pensar foi dotado de características que tornaram possível o aparelho mental tolerar uma tensão intensificada de estímulo, enquanto o processo de descarga era adiado.’ O teste da realidade e os recursos criados pelo aparelho psíquico com intuito de viabilizar o confronto das fantasias com informações advindas da realidade. Assim, logo percebemos o beneficio de se expandir essa capacidade. Quero propor que pensar é também capacitar-se no desempenho da vida, no que diz respeito à realização de mundo. A criação de certo continente mental que sustente o processo do pensar sem que se entregue antes á ação.
Sigmund Freud (1856-1939)

Na verdade, quando a percepção feita através dos órgãos dos sentidos indica a necessidade de ação, a capacidade de pensar pode adiar essa ânsia. Isso até que se perceba com mais acuidade a realidade. Nesse momento o significado semântico da palavra nos orienta com grande ilustração: avaliaremos pelo pensamento, o peso das ideias para se decidir o que escolher. Essa é talvez a primeira das funções do pensamento, ou a mais básica delas. A partir da capacidade em adiar ações inicia-se então, uma serie de expansões na perspectiva dos processos mentais. 
Ora, a psicanálise nos mostrou com muita propriedade que só podemos aceitar no mundo real, aquilo que já existe no mundo interno, ou dentro de nós. Criamos espaço em nossa mente e só depois conheceremos na realidade. A capacidade de reconhecimento do mundo interno é o encontro e o reconhecimento de fantasias, medos, desejos apaixonados, ódios e tudo mais que está em nosso mundo interior. São características do incerto, do informe. Nosso mundo interno nunca é bem definido e sempre pobre de referencias da razão. Por conta disso é um terreno escuro, sombrio e cheio de ameaças. No entanto, só conhecendo nosso eu interior, que podemos distingui-lo do que está fora, o que chamamos realidade. Logo, o estado emocional do ‘eu’ (dentro) tem menor chance de se abalar na situação de ambiente emocionalmente danoso (fora), isso se estiver dedicando-se a um reconhecimento do si mesmo. O pensamento é por assim dizer, a capacitação do ‘eu’ (compreendendo o mundo interno) na ligação afetiva com o mundo (externo).
O exercício do pensar só se efetiva na experiência, como já se tomou por entendido. Experiência que compreende a ação junto do outro. O pensar é então certa capacidade que se desenvolve impreterivelmente através do vínculo com o outro. A partir da imaginação, fantasias sobre a realidade, o encontro com a verdade do outro promove o pensamento. Depende-se do outro para se pensar, mesmo que seja o outro internalizado através de uma experiência afetiva. Quando não se inclui o outro, o movimento mental não pode levar o nome de pensar, pois ainda conserva características imaginarias. Ainda se encontra como ilusão que só será quebrada na introdução da verdade externa. Dessa forma, sou forçado a depositar meu descrédito em qualquer tentativa de batizar como pensamento, experiências que não compreendam o outro, ou o encontro com a verdade do outro.

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