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O que a ignorância vê que nós não vemos



Quando digo que festa demais pode ser evidencia de mal estar, desencanto, com isso quero apenas dizer que estamos padecendo de um desequilíbrio.
As festas precisam ter um sentido para que possamos retirar delas o mais profundo dos seus significados. Teve um tempo em que as pessoas recebiam feste de aniversário de seus familiares, hoje nós mesmos nos damos estas festas. Isso pode significar que nossos familiares sumiram ou perderam a importância. E que mais importante que a ausência deles é a minha presença. É uma questão.
O resultado de aniversários comemorados na ausência de nossas famílias, ainda que com amigos, mesmo que amigos momentâneos é um sentimento de solidão ao fim da festa. Nos fim estamos sós.
A vida urbana é algo que nos carrega invariavelmente para a solidão, não temos como fugir disso. Isso porque a cidade separa, divide, distancia. Quando vemos estamos sós. É por isso que não conseguimos recusar os convites para churrascos, festas, carnavais, carnariopretos. Elas, as festas, podem nos devolver aquele sentimento de pertencimento que não sentimos mais.
No meio da massa desvairada e bêbada ainda que continuemos sós, pelo menos estamos no mar das gentes. É mais difícil encarar a solidão deitado num sofá, à meia luz, assistindo a alegria alheia desfilar em nossa televisão.
As pessoas sabem que as festas não lhe darão aquilo que prometem, mas mesmo assim vão, e bebem e pulam, e gritam e se filmam e contam que estava ótimo, ainda que na verdade estivesse a mesma coisa de sempre.
Estar no meio de todos é uma maneira de não pensarmos sobre nos mesmos, estarmos numa festa é a melhor maneira de mostrarmos a nos mesmos que estamos bem. Depois de uma noite bem cansativa, caímos na cama sem tempo para pensar sobre coisas que desconfiamos não possuem solução.
Depois dos 35 40 anos começamos a admirar as pessoas mais velhas e nos perguntamos que respostas elas deram as perguntas que agora nos fazemos. Eu tenho a impressão que havia muita inteligência social naquela rusticidade de antigamente, aquela falta de informação guardava muito conhecimento sobre a vida, a falta de escolhas revelava que na vida escolher é um luxo mesmo.
Aquilo que hoje chamamos de ignorância, talvez antigamente fosse simplesmente a clareza sobre o que realmente é a vida.

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