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quinta-feira, 3 de março de 2011

A ilusão de não ver



Meus alunos do colegial me disseram estes dias que minhas aulas os deixam desanimados, frustrados e tristes. Pedi para que falassem desse sentimento.
Disse aos alunos que a disciplina de Sociologia visa nos esclarecer sobre os problemas da sociedade, nos fazer ver as razões escondidas por trás dos dramas da sociedade, da exploração, crise ambiental etc.
De repente uma aluna virou e disse que ela não quer saber de nada disso que prefere viver na ilusão de que não há problema algum. Uma outra aluna disse que queria ser adolescente para sempre. Não ficar adulta nunca.
Percebi que os adolescentes, não todos, mas pelo uma parte deles tem grande dificuldade de lidar com a idéia de que as coisas estão mal como estão. Crise ambiental, criminalidade, dissolução da família, o melhor seria não pensar em nada disso.
Esse enterrar a cabeça no chão para nada ver é sem dúvida nenhuma bastante infantil, como as crianças que para se esconderem de seus pais cobrem a cabeça com uma coberta.
Esse desejo de esconder-se dos problemas, ou viver como se eles não existissem revela, de um lado, uma enorme imaturidade, muitas vezes não apenas dos adolescentes, mas também de muitos adultos, e, de outro, um sentimento de impotência diante dos desafios colocados à sociedade na atualidade.
Ao mesmo tempo que vivemos graves problemas convivemos com uma tentativa de dizer que tudo está bem. Como você está?, estou bem. Sentimento esse alimentado por uma literatura de auto ajuda que mascara os problemas e impede que os vejamos como são. O desejo de imaginar que estando eu bem tudo melhora, está ao lado de uma obsessão profunda consigo mesmo, com a própria beleza, com o próprio corpo.
Tentamos não ver o mundo a nossa volta nos escondendo em nosso corpo. É claro que aqui convivem dois sentimentos, o da impotência diante da dimensão do que estamos vivendo e a idéia de que sendo feliz individualmente posso passar ao largo dos problemas e dramas da sociedade atual. Não podemos.
A sociologia assusta os alunos, ou lhes provoca medo por que desmascara nossos truques, revela a mentira de nossas tentativas em não vermos a realidade. Por isso que todos preferimos livros de auto ajuda e filmes românticos de vampiro, são palatáveis e não entram em conflito com nosso desejo em continuarmos não vendo. Ou como disse a aluna, prefiro continuar na ilusão. L.A

3 comentários:

Prof. Renato Dias Martino disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Prof. Renato Dias Martino disse...

Interessante!
Já havia escutado pela rádio.
Estou em total acordo!
Um forte abraço!

Isabela Furquim disse...

Quando era pequena, não sabia de mortes, não sabia de fome, não sabia de preconceito, não sabia de capitalismo. Doce infância. Pois se não sei, não há nada que eu possa fazer para ajudar. O romantismo em que somos criados é lindo ou terrível? Terrível para mim é ver gente passando fome enquanto eu reclamo de comer filé de frango pela terceira vez na semana. O problema é que quando você vê uma pessoa bocejar, tem vontade de bocejar também. Lutemos contra cruel comodismo. Professor, você não nos deixa esquecer o que nos atormenta a cabeça, lembrando de mostrar a verdadeira felicidade. Ninguém me disse que viver não era fácil.
(segue o link do texto que queria te mostrar: http://ideiasempretensao.blogspot.com/2011/01/um-texto-sobre-trava-que-impede-o-ser.html )

Abç, um bom final de semana para você e sua bicicleta.

Isabela Furquim, sua aluna do primeiro colegial.