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segunda-feira, 7 de março de 2011

Livro digital

Livro digital pode unir América Latina, afirma professor peruano

O mercado editorial mundial vive uma grande dúvida: qual será o impacto da digitalização do livro sobre esse ramo da economia e da cultura e como o velho livro de papel e as livrarias físicas reagirão ao avanço tecnológico?

Recentemente, um dos pontos mais tradicionais de venda de livros de papel dos Estados Unidos, a loja da Barnes & Noble localizada no Lincoln Center, em Nova York, fechou as portas. Mas será que a tecnologia é a principal responsável por este fracasso empresarial?

Pelo menos na América Latina, um cenário de livrarias físicas fechando por conta do avanço do livro digital é um pouco distante. O escritor argentino Alan Pauls declarou em entrevista que duvida que um objeto tão antigo acabe rapidamente: “Essa é uma realidade muito mais norte-americana, a cultura deles vem se digitalizando há muito mais tempo”.

O professor Manuel Herran Sifuentes, coordenador do Programa Acadêmico do Livro Educación Continua (Lima, Peru), acredita que o livro digital e a internet podem 
ser cada vez mais um ponto de união da América Latina. Ele defende o livre comércio literário entre estes países e tem convicçāo de que a América Latina só tem a ganhar com a conexão.

“É uma forma rápida de intercâmbio de informaçāo e conhecimentos atualizados, seja através da internet ou de leitura dos livros em diversos formatos para os e-books que estāo surgindo.” confia Sifuentes.

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“Poderíamos editar livros digitais em vários idiomas ao mesmo tempo, incluindo alguns regionais. No caso peruano posso citar o quechua e aymara”. A distribuiçāo e a proliferaçāo destes idiomas pouco conhecidos “unificariam e fortificariam os povos latino-americanos”, disse Sifuentes.

O professor nāo ignora a questāo econômica, que atrapalha os planos almejados por ele, mas mesmo assim tem a certeza de que os proximos governantes devem dar prioridade e mais atençāo a isso.

O Peru vive um bom momento cultural. Em 2010, o país teve seu primeiro filme indicado ao Oscar — A Teta Assustada, da diretora Claudia Llosa — e este ano o prêmio Nobel de Literatura foi entregue ao peruano Mario Vargas Llosa. O fato é que o país tem chamado a atenção nos noticiários culturais de todo o mundo.

A feira internacional de livros do país cresceu nos últimos anos, aproximando-se do destaque que têm a Feira de Guadalajara (México) e a Bienal do Livro do Brasil. “Mas ainda temos muito o que crescer”, ressalta Sifuentes. “Vivemos um ótimo momento para a leitura, mas ainda sofremos muito para convencer as pessoas a ler e para fazer com que acreditem na importância do livro”, completa Sifuentes, que esteve no Brasil em palestra na Universidade do Livro, mantida pela Editora da Unesp.

O Peru tem uma história política em que a leitura foi pouco valorizada, em boa medida devido à colonização espanhola. O problema, no entanto, atravessou os séculos XIX e XX. “Há cerca de 15 anos, fui visitar um vilarejo que não tinha televisão, rádio ou qualquer outra fonte de informação rápida. Foi difícil convencer os pais de que seria importante incentivar seus filhos a ler, mas acho que realizamos um trabalho significativo”, afirmou.

“Hoje, os filhos daqueles pais já veem uma importância na leitura e criam bibliotecas em casa para que a próxima geração já tenha um contato mais efetivo com o livro”, completou.

Iniciativas

Com o envolvimento dos cidadãos e governos locais, programas em parques e praças públicas são organizados, e bibliotecas ambulantes levam os livros à população peruana. O país também conhece uma forte entrada de novas livrarias com áreas destinadas as crianças. “Antes o livro era vendido em bancas como um produto comercial qualquer, mas não podemos esquecer que o livro é mais do que um simples objeto”, disse o professor.

Entre os fracassos colecionados nos últimos anos pelo Peru, Sifuentes elenca o Plan de Lectura, que exigia que os estudantes lessem pelo menos 12 livros por ano. A vida do programa foi curta, e ele explica a razão: “A obrigatoriedade da leitura é sempre um desserviço”.

“Os cidadãos estão com vontade de crescer e fazer mais pelo país, depois de tanto tempo travados. Ainda não existe muita coisa que o governo em si faça, mas aos poucos acho que tudo caminha para melhor”, explicou o professor, já pensando nas eleições presidenciais que acontecerão em abril próximo.

“Todos os candidatos falam muito sobre este tema, mas vamos ver o que efetivamente vai ser feito pelo livro. A luta é constante.”

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