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Artigo: Luciano Alvarenga


Colchão velho

Não resta muito tempo, a cada minuto que passa as rugas, sem cessar, não param de ocupar todos os poros, cada vez mais rápida e de forma sempre imperceptível, mas sempre possível de perceber quando já não há mais tempo. Elas não descansam, nem ao menos quando descansamos o sono estressado de quem lutou bravamente com cosméticos e ferros alongados em academias lotadas sempre maiores e com muitos espelhos, acolhendo os desesperados e com fé; prometendo que agora a luta não será vã, que uma nova técnica de triângulos com bola recém descoberta de povos antigos ainda vivos e a salvo no Bálcãs, é a solução jamais pensada e nunca imaginada, mas que funciona.
Olhe para o céu, sinta o vento, lembre de tudo que não foi feito e das promessas não cumpridas e que você não se cansa de carregar, mas por não saber ou não acreditar continua reproduzindo, revendendo para si e para os tolos. Olhe para você, olhe bem por que as rugas não param e o tempo que lhe foi dado já não é mais o mesmo; outros como você, mas com a jovialidade que você perdeu, já chegaram e não lhe querem por perto; as cirurgias não resolvem, elas mais dizem o que você perdeu do que mostram o que você ainda tem; enganaram-te, trocaram seu sorriso flácido por uma boca repuxada, encheram teus peitos com ares que você não tem mais. A silhueta no espelho conta sua história, mas você não quer ver; ainda há tempo, os povos antigos, os triângulos com bolas...
A cada dia a cada minuto você é posto para fora, e outro ainda mais novo e mais pecegal vem ocupar o espaço que as rugas lhe tiram a cada dia, a cada noite mal dormida, a cada conta não paga, a cada problema que não é seu, mas que você criou; se você soubesse que eram escolhas tão perversas e que tão perversos eram os resultados, certamente você daria muitos dias para que todos os dias que você perdeu fossem recuperados. As rugas lhe contaram apenas agora que, há muito tempo você deu o direito de não ter rugas àqueles que agora, com despeito, zombam de ti. Riem por que sabem que a ruga que, escolheu para você, ninguém mais escolherá; você foi enganado, e nada há que possa ser feito; no tempo, as escolhas são rápidas, mas os resultados são lentos, lentos o suficiente para que cada gota, para que cada espinho, cada arrependimento e dia mal lembrado possam marcar e marcando não permitir que se esqueça; esquecer é coisa que os novos, os novos novos podem com privilégio ostentar, mas não você, você não. Você é velho ou velho está ficando, seu preço é baixo e está caindo rapidamente; as luzes e brilhos que emanam deste tempo que tanto quis, mas que não teve coragem ou não teve tempo de pegar, agora lhe parecem uma vingança que te lançam e que, você nos templos vazios em vão busca entender. 
O que antes te preenchia de vazio, mas que era cheio por que todo tempo do mundo ainda tinha, agora tardiamente, angustiantemente se revela como nada, raso. Isso, raso, é raso o tempo que lhe sobra, e que inutilmente ainda busca nas academias, nas tesouras que só cortam o que é inútil sem restituir os dias, quiçá algumas horas, que os ralos e bueiros engoliram sem demora.
Triste é definhar aos olhos de quem carrega na derme o orvalho da manhã. Perverso e saboroso, lento e muito rápido são estes espelhos que se emparedam de fronte ensimesmados pelo belo e pelo feio, pelo novo e pelo velho. Recolha, esqueça, apague, feche o círculo da realidade que inventou para si mesmo, vivendo o resto que lhe sobra a olhar seu espelhinho que só te mostra os tempos outros, os tempos que não viveu.
Luciano Alvarenga

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