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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Trabalho Interno | Documentário | A crise que poderia não ter sido





Carol Almeida

Desesperado por mais uma chance de conquistar o mundo, o protagonista malévolo vai ao banco pedir um empréstimo para roubar a Lua e eis que se abrem as portas de uma agência que mais parece a entrada do Inferno bíblico. Uma placa nos diz onde estamos: o banco Lehman Brothers, cujo anúncio de concordata disparou a crise financeira internacional em 2008. A cena pertence à animação Meu Malvado Favorito (2010) e, claro, trata-se de uma piada. Imagine então que Trabalho Interno, documentário indicado ao Oscar este ano, são os bastidores de tudo que deu origem a essa nada ingênua cena com o Lehman Brothers travestido de entrada para o Inferno. O fato é que agora, a história não é nada engraçada e, em lugar do riso, nos deixa de presente uma indigestão moral quase apocalíptica.

Charles Ferguson, o diretor que assume as rédeas de toda a artilharia crítica do filme, não nasceu ontem, é cientista político por formação e, mais importante ainda, está bem longe de ser a estrela de seus filmes, prática comum ao questionado modelo Michael Moore de fazer cinema. Anteriormente indicado ao Oscar pelo filme No End in Sight, sobre como a administração Bush tentou criar a legitimidade de uma invasão americana no Iraque, Ferguson sabe que não é preciso lágrimas correndo pela tela (ainda que este recurso seja usado em um rápido momento do filme) para provar que a crise econômica do mundo é séria e, sobretudo, dramática. E isso vale para gregos, troianos e para todos que acompanham o desenrolar da História na distância segura de sua LCD ou TV de plasma.

Bastante substancioso de informações, Trabalho Interno tem como intenção redesenhar as origens e o desenrolar da crise financeira americana de 2008 que, ao contrário daquela de 1929, afetou não apenas os Estados Unidos mas o mundo inteiro em um efeito dominó irreversível. Naturalmente, em duas horas de filme, a quantidade de dados, gráficos e depoimentos exibidos para que se feche esse documentário chega a ser vertiginoso e, pode ter certeza, para quem não é familiar as premissas básicas do assunto, haverá momentos de confusão e dúvidas. Ainda assim, Ferguson, com toda sua bagagem de metodologia acadêmica, consegue conduzir seu documentário sem criar grandes fossos de entendimento.

Para organizar as suas ideias, o diretor dividiu o filme em cinco partes: Como Chegamos Lá; A Bolha; A Crise; A Prestação de Contas e Onde Estamos Agora. Explica basicamente que toda a volatilidade do mercado financeiro americano começou quando Ronald Reagan desregulamentou a até então rígida lei que controlava a atuação dos chamados bancos de investimento. O crédito se abriu, as pessoas passaram a prosperar em cima de empréstimos e, chegados os anos 00, o mercado imobiliário começou a inchar com um sistema que, além de desregulamentado, era ratificado por grandes bancos e seguradoras como investimentos altamente seguros.

Os pormenores econômicos que, sim, são bastante complexos para uma sala de cinema e particularmente estranhos para quem desconhece o malicioso sistema de hipotecas e seguros nos EUA, ganham explicações razoavelmente didáticas. O filme consegue, por exemplo, deixar claro que toda a especulação trilionária em cima do dinheiro que não existe é sustentada por uma teia tão espessa quanto a do Homem Aranha: de um lado, universidades de renome, como a Columbia e a Harvard, endossam a desregulamentação e, em troca, seus grandes professores recebem boas quantias de dinheiro para prestar serviços de "consultoria" ao governo federal.

Do outro, um sistema legislativo que não tem autonomia para punir gente que faliu e continua falindo o bolso do planeta. Pessoas como os últimos Secretários do Tesouro norte-americano - Henry Paulson e o em exercício Timothy Geithner - e os últimos chefes do FED (o Banco Central americano) - Alan Greenspan e o em exercício Ben Bernanke, são mostrados como ardilosos seres (humanos?) que, desde Reagan, continuam recebendo cafuné da Casa Branca. Por razões óbvias, nenhum dos nomes acima citados se sentiu à vontade para bater uma prosa com o diretor deste filme.

A voz narrativa e explicativa do filme - que é de ninguém menos que Matt Damon - nos ajuda a perceber como esse sistema é, ao mesmo tempo, complexo e simples de se entender. E, claro, mesmo sem as explicações dos protagonistas, é importante observar como Ferguson arranca daqueles que se dispuseram a depoimentos incríveis - para o bem e para o mal.

Naturalmente muito bem recebido por personalidades estrangeiras como Christine Lagarde, ministra de Economia da França, Dominique Strauss-Kahn, membro do Partido Socialista francês que hoje é diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e George Soros, o húngaro-americano conhecido por seu um dos mais sábios (e ricos) investidores do mercado de ações e taxas de câmbio, Ferguson teve uma recepção bem menos calorosa de membros do sistema em si. Pessoas cujas respostas, ora quase humoristicamente evasivas, ora irritadas e nervosas, dão ao filme seu carimbo de legítimo drama.

Drama porque, na ponta de tudo isso, estamos nós, protagonistas de uma história cujos bilionários vilões não são de animação como no caso de Meu Malvado Favorito. São seres bem reais que, administração após administração, recebem beijos e abraços da Casa Branca, seja ela de Bush pai, Bush filho ou de Barack Obama. E atenção: Trabalho Interno talvez tente nos dizer que, mais do que roubar a Lua, eles queiram mesmo é roubar a Terra.
Fonte: Terra

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