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sábado, 26 de fevereiro de 2011

O mito do Pãe


Renato Dias Martino -Psicologo


No modelo atual de família, o que se percebe é um forma onde a dedicação mutua está visivelmente ausente. Famílias que podem contar com um cuidador dedicado são raras. As formas de cuidado partem sempre de certo modelo primário chamado maternagem e essa função materna é imprescindível para a saúde mental. Isso porque enquanto seres humanos, aprendemos a pensar a partir da relação com a mãe. Isso se ela estiver sendo suficientemente boa, como coloca D. Winnicott (1896-1971), importante psicanalista e pediatra inglês. A palavra ‘suficiente’ traz a conotação da metade do caminho em meio ao maravilhoso e o desprezível. O modelo sugerido por Winnicott, não é da mãe exageradamente cuidadosa, que acaba por não permitir que o bebê se desenvolva, mas também não é de alguém desleixado no cuidado com aquele que olha.

D. Winnicott (1896-1971)
 A relação materna é o primeiro contato com o mundo e dela partirão todas os modelos de percepções do que é real. Essa relação é o primeiro contato com aquilo que existe além do ‘eu’ no mundo. Nessa configuração, a forma como se pode pensar o mundo é desenvolvida a partir de uma boa experiência com aquela que ocupa a função de mãe. No entanto, apesar de entender que a função materna tem sua importância independente de quem se dedica a sua prática, penso que a mãe que desejou e gerou essa criança, ainda é a figura mais adequada para essa tarefa árdua de se dedicar á maternagem. Quero dizer com isso que, dificilmente alguma pessoa se dedicará como mãe para cuidar de alguém que não pode desejar, assim como deve acontecer na gestação. Sem a mãe, esse bebê contará então com a caridade de um ser humano disposto a dura tarefa de ser mãe, mesmo sem ter escolhido isso.

Quando, como Winnicott, proponho aqui um desempenho suficientemente dedicado no que me refiro ser a tarefa da maternagem, penso em um modelo onde exista um pai, que se encontre presente em sua tão dolorosa (tanto quanto à de ser mãe) experiência na função paterna. O desempenho dedicado na função paterna inclui a capacidade de suportar todo sentimento de inveja que se origina da atenção da mãe, que se desloca dele, para chegada do filho. A tolerância a ataques de impulsos primitivos que certamente acontece na chegada de uma nova vida será determinante para a saúde do vínculo familiar.

A importância desse vínculo me parece indiscutível, entretanto se torna é mais clara ainda quando constatamos que aquele foi fruto do relacionamento de um casal que se ama, dessa mesma forma se adequa, com maior habilidade ao mundo e logo descobre sua função natural. Esse sujeito, sem duvida tem vantagens no que diz respeito a ser humano e desempenha com maior interação a troca afetiva com o mundo.

Apesar disso, em geral a história do pai atual é de alguém ausente. Trata-se daquele que até gostaria de estar lá, mas que não pode por causa das obrigações profissionais, ou por qualquer outra ‘razão maior’ do que o desempenhar de sua função paterna. Ou até mesmo, ausente porque, ainda que fisicamente presente, reserva certa ausência emocional severa. De uma forma ou de outra, incapaz de suportar o exercício de sua função de pai, que não é nada fácil. A incapacidade na ocupação do lugar adequado na concepção do ambiente familiar fez surgir um personagem novo nessa complexa estrutura grupal que chamamos de família.

A denominação “pãe” é ao mesmo tempo, intrigante e perigosa. Uma palavra criada em épocas contemporâneas e que reflete muito sobre o curso do desenvolvimento emocional do ser humano, para além do sujeito. O pãe, nome usado para descrever um sujeito que ocupa duas funções ao mesmo tempo se torna cada dia mais comum. Pai e mãe. O pãe sugere a onipotência (extremamente prejudicial como modelo de ser humano), um super herói sem definição sexual ou de gênero, que na verdade não existe, pois deixa de viver sua própria vida em função do outro.


É muito comum se ouvir mulheres que optaram por ‘produções independentes’, ou seja, a expressão coloquial querendo referir-se a experiência de se ter um filho sem a participação de um homem. No entanto, a fora essa situação que acontece por uma escolha visivelmente narcisista, não é a proposta aqui a de criticar um modelo que em grande parte acontece sem que se escolha. Mas o intuito do texto é o de cogitarmos a ideia de que criar um filho é tarefa para uma dupla (mais especificamente uma mulher e um homem), nunca de um só. A psicanálise nos ensinou com muita clareza que existem mecanismos psíquicos e experiências emocionais extremamente importantes para o desenvolvimento da personalidade, que só podem ser vividas no triângulo formado por Mãe, Pai e Filho. Quero propor que a função de cuidar do que se criou em dois, continua sendo um papel de uma dupla, assim como foi no momento da concepção.

Qual a possível saída, então? Arrisco uma resposta bem curta. Bem mais curta na definição do que na prática. “O pensamento”. A família que pôde ter sido pensada já é algo que vingou. A mulher que pode brincar de ser mãe quando era menina e que desejou isso, cria um espaço interno que comportará essa função de forma harmônica, na vida adulta. Da mesma maneira, o homem que aprendeu a amar, amará sua mulher e os frutos da união com ela. Cuidará de sua função como se cuida de si mesmo e será certamente um bom pai. É só a partir de certo espaço criado que permita o desempenho do conhecer e ser a si mesmo que abre-se espaço para conhecer e aceitar o outro. Conhecer-se a si mesmo não é pensar apenas em si, mas pensar-se em relação ao outro. Dessa forma depende diretamente da capacidade de amar . É a partir do cuidado que se tem consigo mesmo, que se desenvolve a capacidade do cuidado para com o outro.

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Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Músico


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