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Livros que devem ser lidos

“A queda”, de Camus: Um gesto que nunca fazemos

Caminho sozinho noites inteiras e sonho, ou falo sozinho interminavelmente, diz um certo Jean-Baptiste Clamance, advogado decaído, bebum de um boteco desclassificado de Amsterdam chamado México-City, a um interlocutor que o leitor nunca saberá quem é.

Primeiro grande achado de um romance curto, melhor dizendo, uma novela, que é, na verdade, o melhor de todos os (poucos) livros que Albert Camus escreveu. Estamos diante de um daqueles tipos da noite, dos bares que tardam em fechar e acolhem insones e estropiados, no anonimato de cidades para as quais calor humano é luxo ou frescura.

São tipos que o leitor deve conhecer – sujeitos que falam demais, que querem ser ouvidos, que se agarram ao colarinho do primeiro ouvinte em potencial que lhes apareça e não desgrudam mais, porque o desespero (que lhes aumenta a profundidade e a chatice) é completo, e nem importa que sua vítima (ou ouvinte) concorde, discorde, ouça. A técnica utilizada por Camus é esse diálogo com um desconhecido que torna o livro um longo monólogo, um fluxo ininterrupto de confissões tão viscerais quanto cínicas, colocando o leitor no epicentro do interesse: ao abrir o livro, sem divisões de capítulos por números ou títulos, os intervalos dados por espaços em branco, o leitor já entrou no universo de Clamance, que se intitula “juiz-penitente”, já foi agarrado no colarinho por ele, e será obrigado a ouvir, ou melhor, a ler.


A solidariedade impossível

É o livro mais enigmático de Camus, na verdade. Faz tempo que ele saiu da moda, embora relembrado aqui e ali por algum admirador. Os que irão conhecê-lo agora, certamente serão levados aos inevitáveis “O estrangeiro” e “A peste” ou aos volumes filosóficos de “O mito de Sísifo” e “O homem revoltado”. Tudo bem, Camus estará lá. Mas, há um certo tom presunçoso e retórico no argelino, de “fazedor de frases”, o que torna seus personagens pouco críveis. Talvez ele se tivesse em consideração elevada demais, talvez gostasse demais de sua própria efígie – que foi o que ele se tornou em vida, reconhecido com um prêmio Nobel, existencialista bonitão amado pelas mulheres etc. Até na capa de edições mais anteriores de seus livros pela Record, com aquela foto em preto & branco de machão charmoso com cigarrinho na boca, percebe-se que ele nunca foi alheio aos apelos da vaidade e do mito. “A queda”, pelo cinismo, pela radicalidade, porque não se esforça por agradar, é muito superior aos outros.

E não é um livro agradável. Cai-se nele como num mundo que já está cristalizado, do qual participamos como “voyeurs” impotentes, fascinados, indignados, querendo não aceitar o que Clamance diz. O “juiz-penitente” pode ser definido como um guru às avessas: chama a nossa atenção para o irremediável, diverte-se lugubremente com a sua decadência e lança, com prazer sádico e “penitente”, suspeitas as mais odientas sobre a condição humana – com as quais, repugnados, acabamos concordando. Ele é um pouco como “o homem do subterrâneo” de Dostoievski, mas agravado por um século que viu o humanismo desaparecer sob o brado heideggeriano de “o Pior já aconteceu”.

Clamance é simplesmente o hedonista comum, o egoísta, o prepotente, o corrupto e cínico que há em todos nós (ou não haveria tanta corrupção e cinismo no mundo). Até uma certa altura, ele estava convencido de agir humanitariamente, de ser um sujeito até exemplar, bem-sucedido com as mulheres, com veia filantrópica, intelectualmente brilhante, profissionalmente admirado, fisicamente bem-dotado etc. – em suma, um homem de sucesso.

Um dia, um incidente curioso lhe deu a consciência exata de sua pequenez e do mal-estar irremediável do Mundo: passando por uma ponte, viu uma mulher, cuja intenção era óbvia, mas ele a ignorou, até ouvir um grito – um pedido de socorro? – quando já ia bem longe. Não se voltou para salvá-la: a noite estava fria e ele não queria se molhar.

A partir daí, o livro todo é compreensível como o longo desabafo de um omisso que de modo algum consegue escapar à consciência de sua culpa e da culpa do Mundo, afundando-se numa auto-degradação lúcida, que só faz corroborar tudo que de horrível pensa de si mesmo e dos homens.

Importante, nesse livro, é a denúncia – forçosamente difícil de aceitar – de que mesmo os melhores homens que conhecemos podem, por insídias do narcisismo – que é nosso verdadeiro pecado mortal – não serem mais que pilares da opressão, da indiferença e da crueldade que nos cercam. “A queda” põe dedo em brasa na ferida que os ilustres, os admirados, os muito louvados – mesmo aqueles que parecem mais humildes e despojados – detestam admitir em si mesmos. Revela em Camus uma coragem incomum. Num personagem como Rieux, o médico de “A peste”, cheio de ótimas intenções, de auto-complacências e atenuantes, apaixonado por seu papel de consciência única de uma comunidade afetada pela epidemia, enxerga-se essa vaidade e o pendor pela retórica, pelas grandes frases. Digamos que “A queda” é superior porque neste romance Camus obriga Rieux a passar por essa ponte onde a mulher grita e não é ouvida. Pode ser triste, mas é muito mais verossímil. Há pouco heroísmo em nosso mundo, e santos, nenhum. O gesto que Clamance não fez é o gesto que nunca fazemos por ninguém.

Livro obrigatório. Continuará interessando quando os outros Camus nem mais forem lembrados.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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