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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Diário daRegião

Nome e idade iguais, mas destinos diferentes

Allan de Abreu

 

Thomaz Vita Neto
Lara Caldeira (à esquerda) no seu quarto bem decorado, em casa do condomínio Damha 1; Lara Silva em seu quarto simples, sem reboco na parede, em casa na zona norte de Rio Preto
Elas moram em Rio Preto, se chamam Lara e têm a mesma idade, 11 anos completos. Lara Bardella Caldeira mora no condomínio de alto padrão Damha 1. Nas férias, costuma fazer viagens internacionais com os pais. Já foi esquiar na Cordilheira dos Andes, no Chile. Passou temporada na Disneylândia e conhece inúmeras praias do litoral paulista. Entre os presentes recebidos nos últimos tempos, lista alguns: um netbook, um celular Nextel e uma cadela shih-tzu.

Filha do cirurgião plástico Luiz Fernando Caldeira, Lara - do Dahma - tem uma agenda diária lotada. À tarde, depois da escola, tem psicóloga na segunda-feira, aulas de jazz toda terça e quinta, futsal de quarta e professor particular às quartas e quintas. Seu colégio custa R$ 750 mensais aos bolsos dos pais.

Sua xará, Lara Pinheiro Rocha da Silva, mora numa casinha alugada no Parque das Flores, um bairro periférico da zona norte da cidade. Estuda em escola pública e se lembra de ter saído de Rio Preto duas vezes: uma viagem a Aparecida do Taboado, no Mato Grosso do Sul, e outra para a Capital, com a avó. Ao contrário da primeira, Lara Silva nunca viu o mar. Sua lista de presentes, pelo que se lembra, se resume a dois itens: uma boneca que dança e uma bicicleta, presente de um carteiro.

No período do dia inverso às aulas, ela ajuda a prima a fazer salgadinhos para vender no bairro e ganhar uns trocados para colaborar nas despesas. Em sua casa, toda a renda familiar é de R$ 500. Lara Caldeira tem tudo que uma menina de sua idade gostaria: casa grande com piscina, pai, mãe, irmã e cachorro de raça. Bom colégio, boa comida, viagens, presentes, um quarto repleto de brinquedos e enfeites.

Lara Silva vive com a avó num imóvel cujo espaço é menor do que a área de lazer dos Caldeira. Hoje, a casa está sem energia elétrica, cortada há um mês por falta de pagamento. Na falta de uma TV, à noite seu lazer é ler gibi, iluminado por uma lanterna movida a pilha. O que Lara Caldeira tem na vida. Lara Silva tem de sonhos. O cotidiano das duas Laras reflete a desigualdade social de Rio Preto.

Lara Caldeira tem todos os dias à disposição fartas refeições, com direito a iogurte, frutas, massas, peixe. A outra Lara, criada pela avó, se contenta com pão e manteiga pela manhã e o tradicional arroz, feijão e bife no almoço e no jantar. A Lara do Damha é sócia do Automóvel Clube e também frequenta o Monte Líbano e o Harmonia. “Adoro nadar”, diz. Perdeu a conta das vezes em que foi ao shopping ou ao cinema, com os pais ou as amigas. “Gosto de comprar roupas, tenho um guarda-roupa cheio.”

Sua xará foi apenas duas vezes ao shopping, a última delas com os amigos da escola, há três anos. “Assisti ‘Tá chovendo hambúrguer’. Foi muito bacana, a tela é enorme.” As diferenças entre as duas Laras ficam ainda mais evidentes no quarto de ambas. O de Lara Caldeira, além da cama, tem banheiro, TV de LCD, estante e um armário tão abarrotado de roupas que as peças são divididas por cores de cabine: rosa e amarelo para as blusas, verde para os casacos, branco para os vestidos, prata para as saias.

O da Lara do Parque das Flores se resume à cama e a um cabideiro. As paredes não tem reboco, e no chão de cimento está perfilada meia dúzia de bonecas. As poucas roupas ficam no quarto da avó, que tem armário. Outra discrepância está no quintal. No do Parque das Flores, há apenas mato misturado a lixo reciclável, muito diferente da outra casa, no Damha, que exibe piscina, churrasqueira, sofás.

A geografia também é barreira na vida dessas duas Laras. A chance de uma delas cruzar com sua xará nas ruas de Rio Preto é mínima. A primeira conheceu a carente zona norte poucas vezes, quando foi com a mãe levar a empregada doméstica para a casa. Já a outra nunca pisou em condomínio de luxo. “Dizem que é bonito, com casas chiques. Mas nem tenho muita noção.”

Iguais mesmo, só os planos para o futuro. Ambas querem aprender inglês por meio de intercâmbio nos Estados Unidos e cursar universidade - Lara Caldeira deseja seguir a carreira do pai como cirurgiã plástica, enquanto Lara Silva garante que será médica veterinária. “Sou de família pobre, mas tenho muita vontade”, diz.

‘Os sonhos para ela se concretizam rápido’

O excesso de conforto na vida de Lara Bardella Caldeira preocupa o pai, Luiz Fernando, que teve uma infância simples na periferia de Rio Preto. “Os sonhos para ela se concretizam muito rápido. Minhas duas filhas têm muito conforto. Proporcionei aos meus filhos tudo aquilo que não tive quando era jovem, e isso, em parte, não é bom. As pessoas precisam ter metas”, diz.

Lara, uma menina alegre, educada e simpática, cursa o 7º ano do ensino fundamental no colégio Anglo e é aluna aplicada, segundo o pai. Gosta de história, ciências e “um pouco” de língua portuguesa. Nos fins de semana, gosta de dormir na casa das amigas - ela interrompe a entrevista com o Diário para pedir ao pai para dormir na casa da Malu - e costuma passar o dia na beira da piscina do Automóvel Clube.

É fissurada por lanche do McDonald’s, e aprendeu a fazer miojo. “É bem fácil.” A última viagem realizada pela garota foi na virada do ano, com os pais, para Miami, nos Estados Unidos. “Gostei muito da praia de lá, é diferente do Brasil.” Católica, a garota diz que costuma ir acompanhar o pai às missas, sempre aos domingos. Além disso, conta que frequenta a catequese.

Realidade: estrutura familiar às avessas

As drogas e a bebida sempre rondaram a vida de Lara Pinheiro Rocha da Silva. Quando ela nasceu, ambos os pais tinham 15 anos, e a mãe, Janaína, era viciada em maconha. Acabou criada pela avó paterna, Isabel, até os 4 anos, quando passou a morar com a mãe e a outra avó, alcoólatra. Dois anos depois, porém, Janaína foi trabalhar na Espanha, e Lara voltou para Isabel, com quem mora até hoje em uma casa alugada.

Mesmo morando com a avó, Lara visita com frequência o pai, que hoje vive em Mirassolândia, e a mãe, que mora com outro rapaz no bairro irregular Azulão, zona norte. Gosta de ler, principalmente gibi, e na escola vai bem nas disciplinas de literatura e produção de texto. “Queria muito conhecer a gibiteca da biblioteca, no Centro. Minha avó prometeu me levar lá.”

Nas horas de lazer, gosta de andar de bicicleta. “É o xodó dela”, diz a avó. Até 2009, quando estudava na escola Darcy Frederich Pacheco, praticava handebol, mas parou quando foi transferida para a Maria de Lourdes Andrade de Camargo, onde hoje cursa o 6º ano. Como Isabel ainda não é aposentada, a renda da família vem de pequenos bicos da avó como vendedora de roupas, recicláveis e salgados, além dos R$ 90 do Bolsa Família.

Renda interfere na visão de mundo

A renda familiar interfere na visão de mundo de adolescentes como as duas Laras. “São vivências diversas, conforme a classe social. O pobre costuma ser mais pragmático, porque precisa sobreviver com pouco, mas também têm limitações culturais e educacionais. Já o rico têm conforto e acesso à educação e tende a se acomodar com a falta de desafios”, diz o psicólogo da Unesp Sandro Caramaschi.

A única pesquisa que mensurou a desigualdade entre os rio-pretenses foi feita em 2008 pela Prefeitura em parceria com a Unesp, a UFSCar e Faperp. Pelo estudo, das 137 mil famílias de Rio Preto, 2.750 delas (2% do total) estão em situação de risco, ou seja, sem acesso à infra-estrutura, com renda per capita inferior a meio salário mínimo.

Outras 7 mil famílias (5,1% do total) estão em alta vulnerabilidade. Na faixa de média vulnerabilidade estão 24.100 famílias (17,6%), seguida dos 39.200 núcleos familiares em situação de baixa vulnerabilidade (28,6%). Com vulnerabilidade muito baixa há 52.850 famílias (38,6%) e em situação de segurança, ou seja, com condições plenas de vida, há 11.100 famílias (8,1% do total).

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