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Artigo: Luciano Alvarenga

Viver as crises é viver com a alma
O problema dos livros de auto-ajuda é que eles não ajudam. Não foram feitos para isso. A idéia de uma pessoa maravilhosa, cheia de talentos que precisa apenas olhar no espelho de manhã e convencer-se disto, para que passe a trilhar os caminhos da vitória e da felicidade é o primeiro passo rumo à incapacidade de lidar com o que somos na realidade.
Teve um tempo em que as angústias eram entendidas como parte constitutiva da vida, algo inescapável.  A angústia, assim como a alegria, era experimentada há seu tempo, e nos talhava para a vida em comum. Apenas apelávamos aos céus para que não nos desamparassem na luta que travávamos com os desígnios da vida. De qualquer forma, entendíamos as angústias e frustrações como algo real com o qual se lidava e com o que muito se aprendia e que se sabia nunca se poderia fugir definitivamente.
Vivemos um tempo, em que frustrações, tristezas e crises são indicações de pessoas derrotadas, fracas e despreparadas para a vitória que, só os fortes, os altivos, os dinâmicos, as pessoas felizes e bem resolvidas é que podem viver. Tristes tempos. Isto porque a leva de pessoas que não conseguem fazer parte deste banquete da felicidade vai se avolumando a cada ano que passa, e enchendo os consultórios dos psicólogos e fazendo a riqueza dos laboratórios farmacêuticos.
Numa sociedade que esconde os problemáticos, isto é, os alcoólicos de fim de semana ou, de todas as tardes e que ninguém assume como tais; os compulsivos pelo trabalho, fugidios que são de suas frustrações familiares e pessoais; os comedores de remédios para emagrecer, aceitos socialmente porque este fim justifica aqueles meios; os dependentes de antidepressivos, porque antes a alegria via drogas químicas, do que um são infeliz e, ainda; melhor um devedor contumaz que sustenta ricas e falsas imagens, do que a realidade das limitações materiais que hoje não são aceitáveis. Recuperando... Numa sociedade que esconde seus problemas, por que sinônimos de fraquezas e/ ou problemáticas contradições, não são de se estranhar que os tais livros de auto-ajuda sigam a linha de nos dizer que temos o dever de sermos apenas felizes. É mais ou menos como, seja feliz custe o custar.
Desaprendemos a lidar com as crises, e temos muita dificuldade em aceitarmos que não estamos bem. Estamos obrigados a estar num constante estado de felicidade. Isto porque a felicidade nos enobrece, nos torna melhores aos olhos alheios, nos projeta como pessoas realizadas, gente que no caminho que leva ao sucesso só colheu vitórias. Não aceitamos mais que a derrota é parte constitutiva da vitória.
Este compromisso com uma felicidade permanente e que precisa ser constantemente afirmada entre amigos, colegas e familiares, tem causado desgastes e depressões que poucos têm coragem de assumir. O preço a ser pago por esconder de si mesmo e, querer fazer acreditar aos outros que nada há de errado é sabidamente mais alto que aceitar a nova situação e, encará-la com a normalidade com que se devem viver tais momentos.
O problema de assumir que não estamos bem é passamos a sermos vistos como alguém problemático, complicado e diferente de tudo e todos, no mundo encantado dos super-felizes. “Se seus sofás têm a assinatura das grifes locais, seu carro é o mesmo do seu chefe, seu parceiro ou parceira passa inconteste defronte aos espelhos, qual é o seu problema?”. O problema é que estamos cercados pela idéia de que felicidade é alcançar a plasticidade de se consumir permanentemente. Quem consome não é infeliz, dizem os mestres da publicidade. A felicidade e a crise são partes inerentes do nosso ser; esteja você num paraíso, seja você rico ou não, esteja você com tudo que sonhou e desejou, nada disso o priva da possibilidade das crises. A questão não é a crise, mas se está preparado ou não, para ela. A profundidade e o tempo em que se fica na crise dependem de como lidamos com ela e o quanto amadurecemos na última crise que tivemos.
Fato é que as pessoas não estão bem e não tem o direito de assim permanecer. Estar em crise é aprender a ser feliz. A felicidade mesma nos exige uma parcela bastante razoável de infelicidade. As crises nos permitem uma viagem interior riquíssima, nos permitem nos encontrarmos com nossos medos, nossos sonhos esquecidos, nos olharmos com olhos menos complacentes. Enxergarmos com lente de aumento nossos defeitos e mediocridades. Somente assim nos tornamos pessoas melhores.
A crise, quando tratada como algo salutar e parte constitutiva da vida, resulta em pessoas melhores e mais equilibradas. Estar em crise aceitando que o dia não se compõe apenas com as certezas das horas iluminadas, mas também com os vultos e sombras da noite é preparar-se com melhores instrumentos para a vida que só se alonga.
Numa sociedade que tenta desesperadamente manter sob controle todas as incertezas, ter segurança sobre tudo que a rodeia e pagar seguros que a socorra na vida e na morte, estar em crise é sem dúvida o pior dos mundos. Entretanto, a crise é o que nos põem os pés na realidade do existir, nos lembrando de que a vida é mais funda e com mais corredores que o largo e iluminado salão da sociedade dos prazeres e do consumo.
Luciano Alvarenga

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