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Artigo: Luciano Alvarenga


No espelho ninguém se olha

Por que temos tanto medo de pensarmos em nós? Por que sempre temos as melhores palavras e ótimas idéias para darmos aos outros, mas nunca a nós mesmos? Por que a dor do outro sempre é mais urgente do que a nossa que sempre nos esquivamos de curar, que nunca nos encorajamos de lhe dar a atenção de que precisa? Por que o silêncio e a ausência nos assustam e nos angustia e dele sempre fugimos em direção a rua, ao mp3, ao telefone celular que quase sempre está aceso nos mostrando coisa alguma?
Por que fazemos coisas que mais agradam aos outros do que a nós mesmos? Por que pagamos uma faculdade quando na realidade nada sabemos a respeito do que realmente queremos? Por que trabalhamos em empregos medíocres e idiotizantes quando sabemos que nossos talentos são evidentes e nossa força transformadora?
Por que nos deixamos aproximar de pessoas más, autoritárias, sem escrúpulos e cínicas, e que de nós só querem o que não podem nos dar? Por que nossos sonhos são os primeiros que largamos para fazermos coisas que não acreditamos e que certamente nos arrependeremos? Por que nos aninhamos entre familiares que em nós fecundam suas angústias, frustrações e incapacidades? Por que aceitamos conselhos de pessoas que por elas mesmas nada fazem?
Por que não olhamos para nós mesmos e enxergamos as trincas, rachaduras, infiltrações e mofos que só fazem aumentar em nós? Por que procuramos pessoas que nos prendam, nos amarrem, nos humilham e a isso damos o nome de amor? Por que desistimos tão rapidamente de nós e nos apressamos a justificar nossa luta nos filhos que geramos? Por que inventamos filhos para colocar sobre eles nossos desejos não realizados?
Por que a culpa é sempre de outrem? Por que a culpa é sempre da oportunidade que não veio? Por que a culpa é mais do mundo do que minha? Por que a verdade é sempre mentira quando a mim endereçada? Por que a inveja é a primeira a nos tomar quando não aceito que desisti? Por que o grito é o primeiro gesto quando a beleza e a virtude já não se encontram em mim?
Por que os corpos estão sempre malhados e enxutos e a cabeça quase sempre cheia, dos remédios, das angústias, das culpas? Por que as casas têm grandes salas e pequenas cozinhas? Por que a TV é maior do que os diálogos trocados em família? Por que comemos churrascos e não fazemos almoço? Por que os carros possuem mais lugares do que as casas possuem quartos para os filhos que não temos?
Por que somos tão rápidos em magoar quem a nós se liga e, tão lentos em acreditar que alguém pode estar ligado em nós? Por que casar é mais importante do que amar? Por que confundimos amor com ciúme, carinho com carícia, parceria com casamento, objetivos e sonhos com construção e casa? Em que momento acaba o casamento e nascem os filhos? Por que depois dos filhos somos tomados pela vontade de não tê-los mais? Por que alguns despejam nos filhos o peso do que não realizou, enquanto outros descobrem neles o que agora deseja ser?
Se a vida é curta e por ela só passeamos uma vez, por que não fazemos nossa vida ser melhor do que é, por que queremos que outros façam o que somente nós poderemos fazer? Se acreditamos nos que nossos pais dizem, por que continuamos a ter a mesma vida que tiveram?
Luciano Alvarenga

"Meu ou teu" - Prof. Renato Dias Martino.


Comentários

Anônimo disse…
Que belo texto
Não é somente enfeite
É água e espelho
Mas há pouca água pra muita sede
E muita rede pra poucos peixes
Que deseja, ou seja; se proliferar
Em palavras essenciais
Despertar
Versos
Incrível reverso
De valores
Que rompe com a tradição
Até mesmo os preconceitos
Contra Narciso
Que não era humano
Mas perfeito
Porque mergulhou na profundidade
Do amor
Que refletia
O drama de si mesmo
O matou
E toda a substância
Perdeu-se
Em Eco...
E floresceu
No seu texto?

Por Ariel Estrella

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