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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O custo social da precarização do transporte urbano

O custo social da precarização do transporte urbano


Por Neves
O custo social da precarização dos transportes urbanos é imenso. As classes médias e abastadas pensam que a coisa não é com elas. Não se comovem com o povão espremido como sardinha na lata, transportado aos solavancos como gado, preferem a fuga individual. Não basta mais o carro da família, é necessário agora o segundo, o terceiro, o quarto carro... conforme a garotada atinja a maioridade e tenha que se deslocar para a faculdade e as baladas. Os muito ricos escapam de helicóptero. Brasileiro abastado ou remediado só anda a pé ou em coletivos na cidade, quando está no exterior; por aqui pesa um certo sangue azul, de quem se sente mal junto ao populacho dentro do busão - ah, o cheiro do povo! - há uma memória atávica das liteiras, dos tempos coloniais.
Eles pagam o custo direto, multiplicado por cada veículo, dos financiamentos, da gasolina, da manutenção, dos seguros, do estacionamento, do flanelinha, do IPVA, da indústria da multa e da propina. Parou aí? Não, tem mais. Eles percebem que o apartamento espaçoso herdado dos pais é do tempo que havia um carro por família, uma garagem; a degradação recente das cidades, principalmente dos equipamentos de transporte coletivo, criou a "necessidade" do mínimo de três por família; são tangidos para mudarem para os novos e carésimos apartamentos-cafuas, com área "útil" engordada pelas três garagens, o conforto do carro vale mais. Mas ainda não acabou. Uma cidade atrolhada de carros "precisa" de muitas obras para garantir os custos de campanha de prefeitos e verroedores, com as devidas sobras de campanha, é claro. E toma de viadutos, pontes, túneis, alargamento de avenidas, todos os apetrechos do rodoviarismo urbano, que tem por finalidade, encurtar a distância entre um engarrafamento e outro; a conta descarrega no IPTU.
E o custo da aporrinhação? Desde as formalidades burocráticas do DETRAN aos engarrafamentos; da poluição diuturnamente inalada e das horas intermináveis perdidas no trânsito; da vida que esvai na observação tediosa da mesma paisagem urbana, sob a tensão nervosa da ansiedade, a Lesma Lerda, a imagem do motorista que arrasta sua concha, a extensão de sua casa.
Até cidades de tamanho médio no interior do Brasil convivem com engarrafamentos, sem qualquer esperança de que um dia o trânsito melhore. Nada melhora quando a prioridade urbana é ofertada ao automóvel como meio de transporte, ele tem de voltar a ser o que aparece nos papéis oficiais: veículo de passeio, para o lazer como regra e transporte como exceção. Não podemos fazer as cidades escravas de obras dedicadas ao rodoviarismo urbano, nenhuma resolve, apenas cria necessidade de outra, é pura ilusão malandramente aproveitada por demagogos. O que diminui engarrafamentos é transporte coletivo eficiente, combinado com restrições ao uso do automóvel nos centros urbanos; é assim que funciona em cidades mais civilzadas do que as nossas.
O transporte coletivo é uma tragédia nacional. O modelo está falido como propósito social, serve apenas aos empresários e agentes públicos envolvidos na mamata; é um monumento de irracionalidade, atraso de vida e desperdício de recursos. Pagamos preço demasiado alto pela omissão do assunto no centro das questões nacionais. O Congresso e as autoridades federais fingem que, um problema que afeta dezenas de milhoes de brasileiros em várias cidades é um problema municipal. Urge que se investigue a questão na esfera federal e apresentem uma proposta de soluções e correções.

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