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Artigo: Luciano Alvarenga

Sem infância não há maturidade

Vem crescendo nos Estados Unidos um movimento de recuperação das brincadeiras infantis. De repente, o pessoal vem percebendo que é importante devolver a infância a seus donos. A infância nada mais é do que as férias da vida, é o momento do lúdico, da magia, do conto de fadas em que a criança não vê realidade, apenas sonhos. Brincar é viver o sonho acordado. Este movimento está em consonância com o aumento crescente de adultos emocionalmente doentes, depressivos, entristecidos, sem ânimo para a vida e incapazes de encarar a vida como ela é. Crianças que não brincam se transformam em adultos inseguros, emocionalmente frágeis e incapazes de tomarem a vida em suas mãos.
Essa experiência nos coloca a questão de como estamos nós, no Brasil, nos relacionando com nossas crianças. Cresce entre nós também o número de adultos deprimidos, angustiados e que não conseguem enxergar saída para suas vidas. Serão adultos sem infância? Adultos que não tiveram suas brincadeiras? O que estão estes adultos fazendo com seus filhos? É certo entupirmos as crianças com cursos de idiomas, dança, computação, aulas e compromissos sem fim, quando na verdade deveriam estar apenas brincando?
Quais as consequências de enchermos as crianças com nossas expectativas, nossos desejos irrealizados, nossas vontades de que façam ou realizem coisas que nem ao menos sabemos se realmente são boas para elas? E aquelas crianças abandonadas nas creches por mães relapsas e pais desaparecidos, que tiveram filhos sem planejamento e que agora não conseguem dar ao filho a possibilidade de uma infância? A infância não é um presente, é estado que se cria, e, quem cria condições para a infância de uma criança são os adultos. Adultos maduros, saudáveis emocionalmente, conscientes de seu papel junto aos filhos, capazes de se desprenderem de si em nome da infância de seus filhos.
O direito à infância pelas crianças recai sobre o dever dos pais de serem adultos e proporcionarem a seus filhos as condições para isso. Quando me refiro a ter condições não digo apenas condições matérias mínimas, mas condições emocionais, subjetivas. Adultos maduros, equilibrados, éticos, compromissados com suas crianças, isso sim é fundamental para uma infância decente e normal. Quantos pais e mães não despicam em seus filhos os rancores, os arrependimentos, as frustrações, a raiva inclusive de ter colocado um filho no mundo. Quantos pais e mães não largam para os avós a responsabilidade total pela educação de uma criança, enquanto terminam de viver sua adolescência que poderia existir sem a presença de um filho em hora errada?
Aqui é fundamental dizer que a banalização do sexo como comportamento social tem seu lugar e sua responsabilidade. Um pouco de conservadorismo pode preservar as crianças e sua infância. Aliás, acredito que mesmo os adolescentes vêm se ressentindo de pais mais sérios, mais firmes, mais inflexíveis diante de uma sociedade tão liberal, solta e sem princípios de dignidade.
Adultos imaturos, crianças sem infância, banalidade do sexo como comportamento sem sentido e sem razão, pedofilia em escala assustadora, jovens se desnudando na internet dentro de suas próprias casas, adultos estressados e deprimidos, tudo isso é parte das consequências de uma sociedade que preferiu desvestir-se de suas responsabilidades perante os valores que construiu e que deveria defender.
Recuperar a infância das crianças, e assegurar que elas possam vivê-la distante dos interesses do mercado e de adultos doentes, é um passo fundamental na construção de uma sociedade futura mais equilibrada e feliz.

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