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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Depois do conforto, a angústia


A busca pelo conforto se transformou na maior busca das pessoas, e responde certamente pela carga de trabalho excessiva a que elas se impõe. Um sofá de 3.000 reais é mais confortável, mais bonito que um de 700 reais, este mais confortável, mais bonito do que um de 450.
E assim é com todas as coisas. Desde o fogão, passando pela cama e o colchão até o carro e as roupas que vestimos. Mas conforto custa caro, vicia e exige uma capacidade crescente de compra. Quem tem conforto hoje o quer amanhã também. E sempre se possível.
Conforto se liga ao poder de compra, e isso dá status. Me lembro de uma professora amiga minha que disse certa vez que gostaria de fazer um jantarzinho com os amigos na casa dela, mas que antes precisava trocar os sofás. Respondi, que nós iríamos comer na cozinha e que se houvesse cadeiras já estava ótimo. Como já faz três anos este papo, acredito que ela ainda não tenha trocado os sofás, deve ser por que quer e não consegue comprar o de 3 mil reais.
A maioria de nós está mais preocupada com o conforto do que com a saúde. Até lamina de barbear tem que ser confortável, tem uma marca que diz assim, é muito mais conforto para barbear. Mas conforto acomoda, paralisa, da preguiça, e pior angustia. Conforto é apenas uma idéia estética, não tem substáncia, não alegra, nem deixa mais feliz.
E que nem uma cadeira gostosa é gostosa na primeira vez, nas outras é a cadeira simplesmente. Aqui é que entra o segredo da coisa. Somos levados a acreditar que conforto é fundamental, mas para termos conforto precisamos de dinheiro, e para isso precisamos trabalhar, e muito. Depois de tudo isso, o resultado é que temos mais conforto, mais nada. Fazemos nossa vida diária e de trabalho extenuante girar em torno do conforto e a recompensa é quase nada.
O que é melhor viver ou ter conforto. Viver passa por algo ativo, em que me torno sujeito daquilo que estou vivendo. Conforto é a passividade. Todos procuramos dar conforto aos nossos filhos, até a barbearia aqui perto de casa, na Abrão Tomé, tem ar condicionado, visando o conforto dos clientes. Estamos tão viciados em conforto que tem gente que prefere não se relacionar com ninguém para não ter de lidar com o desconforto de viver com alguém diferente de si mesmo. Por isso somos tão narcisistas. Ninguém vive melhor comigo do que eu mesmo. Será? Tá cheia de gente vivendo sozinha e não querendo ninguém e sendo atormentada pelos próprios fantasmas.
O tripé conforto, estabilidade e segurança que todos buscam é uma miragem. Por exemplo, um carro mais seguro é vendido ao mesmo tempo como mais estável e confortável. Mas e o preço? O preço de tempo que preciso trabalhar para obtê-lo, o desgaste emocional de me impor mais trabalho do que é saudável fazer. A minha ausência junto as pessoas que me amam e que nunca poderei repor. Como repor a uma criança de 2 anos o tempo que você não passou com ela.
Estamos trocando vida por conforto, muitos de nós tem mais conforto do que precisam ou sonharam um dia. A questão é que esta troca é desfavorável para nós, e benéfica para a indústria do consumo.
Quem somos nós e o que realmente precisamos para sermos felizes. Luciano Alvarenga

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