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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

As críticas de Chalita a Serra

As críticas de Chalita a Serra

Brasil - NOTÍCIAS - Chalita no ataque


Chalita no ataque

O segundo deputado federal mais votado de São Paulo faz um balanço da campanha, ataca José Serra, seu ex-colega de partido, e promete dedicação total à criação de uma Lei de Responsabilidade Educacional
Ricardo Mendonça
NA CÂMARA "Eu vou enlouquecer as pessoas lá de tanto que vou falar sobre a da Lei de Responsabilidade Educacional"

O deputado federal eleito Gabriel Chalita (PSB-SP) costuma ser lembrado como um fenomenal produtor de livros. Aos 41 anos, ele é autor de 52 títulos sobre os mais diversos temas, como religião, filosofia e educação. Nos últimos dois anos, Chalita comprovou que também pode ser considerado um fenômeno nas urnas. Em 2008, pelo PSDB, ele foi eleito o vereador mais votado de São Paulo com mais de 100 mil sufrágios. Neste ano, na sua primeira disputa para a Câmara Federal, recebeu 560.022 votos, a terceira maior votação nominal do país, atrás apenas de Tiririca (PR-SP) e Anthony Garotinho (PR-RJ).

Ao contrário de Tiririca e Garotinho, porém, a participação de Chalita na eleição continuou crescendo mesmo depois da apuração de seus votos. No segundo turno da disputa presidencial, suas aparições ao lado da então candidata Dilma Rousseff (PT) cresceram consideravelmente. Com fortes ligações no meio católico, Chalita atuou para neutralizar os ataques que a petista recebia por parte de José Serra (PSDB) e algumas lideranças religiosas. A movimentação foi tão intensa, que em determinado momento seu nome chegou a ser citado no meio político como possível ministro da Educação ou da Secretaria de Direitos Humanos no governo Dilma.

Chalita ficou conhecido na política como secretário de Educação de São Paulo na gestão Geraldo Alckmin (PSDB), de quem diz ser muito amigo. Além de escritor e vereador, ele também é professor universitário, palestrante e apresentador de programa de TV. Na Câmara, diz que pretende atuar em duas frentes: na Comissão de Constituição e Justiça e na defesa de uma Lei de Responsabilidade Educacional nos mesmos moldes da Lei de Responsabilidade Fiscal. Nesta entrevista, Chalita analisa a supervalorização do tema aborto na campanha; fala sobre sua articulação junto à cúpula da Igreja Católica a favor da candidatura Dilma; e critica o ex-correligionário José Serra, tanto pela exploração do tema aborto na campanha, quanto pelas políticas educacionais do Estado de São Paulo no período em que foi governador.
ÉPOCA – O senhor teve mais de 560.000 votos. Em São Paulo, só perdeu para o Tiririca. Como conseguiu uma votação tão grande?
Chalita – Eu tenho um trabalho muito grande com educação, né? E esse é um segmento muito leal. Os professores têm um reconhecimento pelo trabalho que desenvolvi na Secretaria (estadual de Educação, durante o governo de Geraldo Alckmin). Tive votos em todos os municípios de São Paulo..

ÉPOCA – E as relações religiosas, o programa de TV na Canção Nova?
Chalita – Também ajuda muito, é forte. Mas isso é mais forte fora de São Paulo. Na cidade de São Paulo mesmo não pega a Canção Nova. E tem ainda muitos votos de universitários, por causa das aulas e porque dou muita palestra em universidades.

ÉPOCA – E como deve ser o perfil de seu mandato de deputado?
Chalita – Na Câmara Municipal, sou Caxias na questão jurídica. Estou na Comissão de Justiça. Outros vereadores dizem que eu montei um supremo tribunal da Câmara, por estudar os projetos, derrubar o que não é constitucional, tentar viabilizar sempre o que é possível, pois muitos projetos são interessantes no mérito, mas não são constitucionais. Então, com essa experiência, pretendo participar da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara também, quero ser um defensor da Constituição. Outra questão é a bandeira que eu mais defendo: se eu puder aprovar um projeto, será o da Lei de Responsabilidade Educacional. Eu vou enlouquecer as pessoas lá de tanto que vou falar nisso.

ÉPOCA – Como é essa lei?
Chalita – É uma regra nos moldes da Lei de Responsabilidade Fiscal. Você estabelece alguns critérios que são impeditivos de modificação pelo administrador, seja municipal, estadual ou federal. Exemplo: você põe uma meta para melhorar o ensino infantil. Essa meta diz que prefeitos precisam fazer tantas creches num determinado período. Se mudar a prefeitura, o novo prefeito não pode mudar a prioridade. Ele continua com aquela meta, de X creches em tantos anos. Outro problema: salário de professor. Em todos os casos, se o sujeito não cumprir, fica inelegível. Tem de ter punição.

ÉPOCA – O senhor é novo no PSB. Como foi parar nesse partido?
Chalita – Tem pessoas que eu admiro muito no PSB, como a (deputada Luiza) Erundina. A Erundina foi a mulher que colocou o Paulo Freire na Secretaria de Educação. Eu comecei a conversar com as pessoas do PSB, como o Márcio França (deputado), e quis conhecer o Eduardo Campos (governador de Pernambuco), que é o presidente do partido. No nosso primeiro encontro, em Brasília, toda nossa conversa foi sobre educação. Eu estava conversando com outros partidos também, com a Micarla (prefeita de Natal, pelo PV), com a Marina (Silva). Mas tudo que ele (Campos) falava sobre educação, o Roberto Amaral também, me empolgava cada vez mais.

ÉPOCA – Por que você saiu do PSDB? O que determinou?
Chalita – Fiquei 20 anos lá, desde o Montoro. Entrei quando tinha 19 anos. Olha, a minha vida é uma vida de educador: sou professor, educador, trabalhei fora do Brasil, dentro do Brasil, fui secretário de Educação, presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) por dois mandatos, o que foi inédito, inclusive com o apoio de secretários do PT. No Consed, defendemos a permanência do ministro Fernando Haddad quando o Tarso Genro saiu e tudo mais. Então eu sempre tive uma visão muito técnica dessa questão. E minha presença na política é a presença de quem defende um sonho ligado à educação. Quando o Serra assumiu o governo de São Paulo, todo esse sonho da educação foi ruindo. A gente teve uma gestão marcada pela relação harmoniosa com a rede. Não tivemos problemas com os professores. O que a gente fez do ponto de vista da técnica da aprendizagem, de pagar mestrado, de formação de professores, de levar para cinema, teatro. Um foco era formar professor, valorizar professor. Outro foco era abrir as escolas nos finais de semana, na visão de que o processo para redução da violência passa pela educação. E isso deu resultado, São Paulo recebeu prêmios internacionais. Então ele (Serra) mexeu na parte de formação dos professores, ele foi fechando as escolas nos finais de semana, foi fechando as escolas de tempo integral...

ÉPOCA – Mexeu na formação de professores?
Chalita – Ele parou de investir, parou com a bolsa mestrado, parou de dar formação para os professores em faculdade e diminuiu substancialmente o que se investia. A gente gastava R$ 140 a R$ 150 milhões por ano com formação e ele passou a gastar R$ 40 milhões. Programa a programa foi se desfazendo. Eu não conseguia entender. Eu estava no PSDB e tentava mostrar que isso estava estragando a educação em São Paulo. Ele teve que trocar três vezes de secretário da Educação, né? E uma guerra com professores, que eu não entendia a justificativa. Eu tentava discutir isso dentro do PSDB. Mas como o Alckmin estava enfraquecido naquele momento, eu não tinha nem fórum para essa discussão. Antigamente eu era convidado para participar de todos os congressos do PSDB sobre educação, a partir disso eu não falava em espaço nenhum. Eu era convidado até por outros partidos para discutir educação, mas dentro do PSDB eu não era mais ouvido.

ÉPOCA – Na campanha desde ano, Serra citou a educação na propaganda. Ele dizia que colocou dois professores por sala.
Chalita – É... ai... Eu acho que não resolveu, né? A educação foi um dos pontos mais críticos na campanha dele e na campanha do Alckmin para governador. Se você olhar o último Datafolha do Alckmin, a área melhor avaliada foi educação. Naquela eleição, o tema era pedágio, outras coisas, nem se falava em educação. E agora voltou com carga total, por essa dificuldade de dar continuidade em políticas públicas. Olha, eu não tenho raiva de ninguém, tenho relações excelentes com o PSDB, meu dou muito bem com o Alckmin, me dou bem com o Aécio, com o Perillo, com o Anastasia, que é um gestor público de primeira grandeza, tenho a melhor das impressões do Beto Richa, uma relação muito boa com deputados do PSDB.

ÉPOCA – Como foi sua participação na campanha de Dilma? Sua presença cresceu no segundo turno, né? Quem chamou?
Chalita – A Dilma chamou, o Gilberto Carvalho chamou, o Palocci. Mas a gente conversava desde antes do primeiro turno sobre temas: temas que são relevantes para a educação, os direitos humanos, a igreja.

ÉPOCA – Mas intensificou.
Chalita – Intensificou. No final do primeiro turno teve uma reunião com várias lideranças religiosas. Eles (os organizadores da campanha) tinham uma preocupação maior com os evangélicos. As pesquisas mostravam que era o voto evangélico que estava migrando de uma forma muito forte. Aí me convidaram para discutir sobre esses temas, como aborto, ver o posicionamento que a Dilma tinha, fazer uma ponte com grupos religiosos. Mas de uma forma tranqüila: o que a gente pode fazer para levar a verdade a essas pessoas? Não eram reuniões para maquiar o que ela pensava. Era para que ela dissesse assim: “olha, isso que as pessoas estão dizendo não é real, eu não vou mudar a legislação, aliás, isso (aborto) é uma discussão do Congresso; a minha discussão é cuidar da mulher que fez, melhorar a saúde pública do Brasil”. Ai eu comecei a participar mais intensamente. Eu falava com alguns bispos assim: “O que você quer que a Dilma esclareça? O que você acha importante?”.

ÉPOCA – Falou com muitos bispos nesse período?
Chalita – Eu tenho uma relação grande com muitos bispos o tempo todo, né? Ontem mesmo, no meu programa de televisão, entrevistei um bispo da Pastoral da Sobriedade, Dom Irineu Danelon, sobre um dos temas que preocupam muito a Dilma, o crack. Esse é um tema que ela quer ouvir o tempo todo. Então eu apresentei esse bispo a ela. Olha, antes do primeiro turno, a gente levou a Dilma numa reunião em Brasília que tinha uns 30 bispos. Ela conversou com alguns, bateu papo. Ela também falou com o arcebispo do Rio de Janeiro no começo do segundo turno. E muitas outras pessoas faziam essa ponte, né? Bispos, inclusive. O Dom Demétrio, aqui em São Paulo, teve um trabalho fundamental.

ÉPOCA – E dava para desarmar os bispos?
Chalita – Alguns bispos desarmavam outros bispos.

ÉPOCA – O tema que preocupava era sempre o aborto?
Chalita – Sempre aborto. Para os bispos, o mais forte era aborto. Para os evangélicos, entrava a questão da união civil de pessoas do mesmo sexo. Os católicos não falavam muito nisso. Para eles (os bispos), era liberdade religiosa, liberdade de imprensa e aborto.

ÉPOCA – O Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos, se envolveu muito na campanha contra a Dilma. O senhor falou com ele também?
Chalita – Ele foi o que mais se envolveu. Eu falei com ele por telefone. Ele estava muito nervoso, assim... Eu tenho muito respeito por ele, mas... Ele disse que eu não deveria apoiar a Dilma; e eu disse que não estava apoiando a Dilma naquele momento, não comecei naquele momento. Aí citou um boato, que eu estava apoiando em troca de um ministério. Eu falei “não, não, eu apóio a Dilma desde quando ela estava com 8% nas intenções de voto, não tem nenhuma promessa de ministério, nada disso”.

ÉPOCA – No saldo final, entre os bispos, deu mais Dilma ou mais Serra?
Chalita – Mais neutro. É impossível saber. Entre os que se manifestaram no final, mais Dilma.

ÉPOCA – O senhor acha que essa discussão sobre aborto e saúde da mulher deve continuar?
Chalita – Não. Repare como essa rede de boataria era ruim: era uma rede para fazer alguém perder a eleição. Agora, neste momento, ninguém está tratando disso. Até porque ela (Dilma) não vai tratar disso, é o Congresso. Isso mostra o artificialismo do que ocorreu na campanha.

ÉPOCA – Na sua opinião, qual foi a influência da questão religiosa na decisão do eleitor?
Chalita – O debate religioso forçou o segundo turno. Foi um dos elementos que ajudaram nisso. Acho legítimo a igreja participar da discussão política, tem temas caros a ela. Mas que o ruim foi a forma como esses temas entraram, com essa rede de boataria e a tentativa de desqualificação das pessoas. Não era a discussão de um tema, mas a tentativa de desqualificar uma candidatura ligada a um tema. E de uma forma inapropriada. No início, eu via muitos e-mails de entidades religiosas que não existiam. Depois, outras entidades religiosas reais replicavam essas mensagens. Foi aí que começou a pegar.

ÉPOCA – Foi um movimento espontâneo?
Chalita – Não, isso não nasce espontaneamente. Algum grupo articulou para utilizar o tema. Há outros temas que eles utilizaram, mas não pegaram. Este pegou.

ÉPOCA – O que mais te impressionou?
Chalita – Tinha imagens de crianças mortas, restos de corpos que estavam em gestação, e a pergunta: “é isso que você quer para o Brasil?”. Ou “o país do futuro é o país que mata criança?”. Cada dia eu recebia um diferente. Chegava um momento em que parecia que era uma proibição do nascituro no Brasil. Não era uma discussão de saúde pública. Virou um ódio. Era difícil dialogar com essas pessoas. Empobreceu um tema que tem de ser discutido.

ÉPOCA – Qual é a sua posição sobre o tema?
Chalita - Sou contra o aborto. Mas sou uma pessoa muito preocupada com essas mulheres que são vitimadas por fazer aborto de uma forma totalmente inapropriada. Sou contra, mas e depois que a mulher faz o aborto? Você socorre ou não socorre? Olha só: se um cara participa de um tiroteio, comete um homicídio, mas cai ferido, você cuida dessa pessoa. O Estado cuida. E essa mulher que fez aborto, você não cuida? Então você poderia discutir isso de forma muito mais racional, inteligente, ouvindo todos os lados. O ruim foi tentar colocar ódio nas pessoas.

ÉPOCA – O senhor responsabiliza alguém por ter conduzido o debate dessa forma?
Chalita – Seria muito irresponsável atribuir a alguém que você não sabe quem é. Mas, olhando ali, era alguém que estava dentro do processo eleitoral. Eu acho que a Marina não foi, né? E a forma como usava? A forma como o Serra usou isso na campanha eleitoral não combina nem com a biografia dele.

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