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domingo, 21 de novembro de 2010

A TV é quem educa o seu filho?

Tela quente

jovem sentada em frenta a televisão jovem sentada em frenta a televisão (Imagem: Daniel Oliveira)
A televisão tem um poder extraordinário como veículo de comunicação. Nessa era de globalização, a sua força reside menos em suas características de movimento, som e imagem, do que na facilidade com que se coloca no interior dos lares, onde frequentemente ocupa o centro das atenções.


Cada vez mais, se cria uma falsa necessidade desse aparelho em nosso dia-a-dia. A tevê passa a ter a “verdade” global, a “vida” a ser imitada, e o “caminho” (canais e suas programações) que você deve percorrer todos os dias. Ela tem se tornado onipre-presente na vida da maioria das pessoas, principalmente de crianças. Recente estudo afirma que, no Brasil,

as crianças passam, em média, de três a cinco horas diárias diante da TV. Considerando que, para muitas dessas crianças, esse tempo é maior do que o que ficam com os pais ou na escola, a televisão passa a desempenhar papel significativo na sua educação e na relação entre pais e filhos.


Formação do caráter


Os pais ou responsáveis não têm a exata dimensão do quanto essa onipresença da TV pode prejudicar o aparelho psíquico da criança. A infância é um tempo de formação, de experimentação do mundo para aprendê-lo e conhecê-lo.


Até os sete anos, a criança estará formando seu caráter no seio da família. Sob orientação segura e exemplo dos pais, ela aprende os limites de liberdade, respeito aos idosos, sentido do que é seu e do que é dos outros, a noção do permitido e do proibido, vida em comum, respeito aos direitos alheios, fraternidade, paz, estímulo para vencer as dificuldades, disciplina para os estudos e, sobretudo, aprende a amar.


Dentro de uma relação familiar saudável, a criança deve ocupar seu tempo com atividades que a mantenham sempre ativa e reflexiva. O mundo social da criança (a família) deve ser o facilitador do seu crescimento moral, intelectual, social e espiritual. É a família que deve gerenciar oportunidades para que a criança crie brincadeiras, exercite sua fantasia e criatividade, e desenvolva os conceitos de certo e errado.


Portanto, as mensagens de ética, fé e moral, sua dinâmica e valores, crenças, preconceitos, maneiras de ser, vivências e filosofia de vida de uma família moldam o caráter de seus membros.

A família é o referencial mais forte e seguro que o indivíduo pode alcançar. Lá estão as diretrizes de todas as batalhas e desafios. De lá surgem as possibilidades e as impossibilidades.


Com os referenciais que fornece, é a redoma familiar que incute a religião, mostra a face de Deus, aponta para os costumes e as tradições, preservando e guardando sua identidade e fazendo cada qual senhor do próprio destino. Daí, a necessidade e a importância de modelos adequados e saudáveis ao longo da infância.


Pais e modelos


Os pais de uma criança deveriam ser seus principais modelos. Entretanto, com todas as mudanças ocorridas na estrutura familiar, isso nem sempre ocorre.


Quando não estão na escola ou em creches, os filhos ficam em casa sob os cuidados de uma terceira pessoa, ou até mesmo sozinhos. Nesse caso, ficam à mercê da influência de outras fontes de modelos e de informação, entre elas, as diversas mídias, principalmente a televisão.


Levados pelo cotidiano do mundo moderno, as crianças passam muito mais tempo na companhia dos heróis da televisão do que com os pais ou professores. Muitas crianças substituem a relação familiar e compensam sua solidão pela companhia de uma tela colorida, ágil, múltipla, sempre presente e disponível, pronta a transmitir sua verdade e ensinar o caminho a ser seguido.


Diante da televisão, uma criança se torna passiva, assimilando sem questionamentos aquilo que ouve e aquilo que vê. Não devemos nos esquecer de que o aparelho psíquico das crianças está pronto para assimilar e imitar o mundo externo.


Seja meu imitador! Esse deve ser o lema do aparelho eletrônico mais cobiçado do planeta. Quem sabe,

podemos substituí-lo por um lema mais moderno: “Experimenta!!!”


Diante de tal realidade, a tevê tem efeito hipnotizador para a criança, comprometendo e prejudicando seu desenvolvimento psíquico-emocional. Diante da televisão, a criança permanece afastada do  onvívio com os pais e com outras crianças. Ela deixa de vivenciar experiências essenciais para seu crescimento social, para somente “engolir” imagens, sons, valores e conceitos prontos, nem sempre saudáveis.


Quanto menor e mais frágil for a criança, mais influência sofrerá e mais suscetível será de encontrar num herói violento ou mau caráter o modelo no qual espelhará seu comportamento.


Desequilíbrio


Assim como acontece com mau exemplo de pais ou professores, uma programação televisiva perniciosa, em que a criança visualiza modelos de relacionamentos confusos, ambivalentes e imorais, acarretará desequilíbrio na sua estrutura, com prejuízo da personalidade em desenvolvimento e do caráter em formação.


As interações sutis repetitivas patrocinadas por programas de televisão exercem influência (saudável ou maléfica) tão decisiva quanto fatos (felizes ou traumáticos) da vida real.


Muitas crianças encontram nesse aparelho eletrônico uma maneira de fugir da realidade, pois essa é triste, fria e cheia de rancores. Pais que se desrespeitam e discutem fazem com que a criança se sinta melhor e mais protegida diante do mundo virtual que diante do seu mundo verdadeiro.


O que temos observado ao longo dos anos é que, nas épocas de crises familiares e econômicas, quando a insegurança, a ansiedade, e a falta de significado da vida se tornam quase insuportáveis, é mais acentuado o desejo de fugir e se distrair. Enfim, aumenta a audiência de filmes, novelas e outros programas. Nesses momentos, o recurso de ficar grudado na tevê não nos parece um ato patológico, pois o poder dessa ação está na sua capacidade de aliviar a dor. Por isso, esse caminho (assistir

aos programas de TV) passa a ser uma atitude “necessária” e desejada, produzindo uma sensação artificial de felicidade e segurança.


Contudo, devemos desconfiar deste “bem-estar”, pois a violência e a depressão infantil têm aumentado

de forma assustadora. Vivemos um momento em que a família precisa resgatar o papel de pai e mãe na vida dos filhos, em que brincadeiras, relato de histórias e momentos de confraternização devem ocupar o espaço da mídia no lar. Se assim fizermos, gradativamente, nossos filhos passarão a perceber na família exemplos que dão sentido à vida. Então, poderemos ter uma sociedade menos violenta e depressiva.


*Augusto César Maia é psicólogo



[Fonte: Vida e Saúde. Abril/09 p.48 e 49]



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