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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sobre homem, gays e outros bichos

Don Juan cansado

"- Seja homem!". Quase todos os homens já devem ter ouvido este imperativo em algum momento da vida, e em muitos idiomas, mas a grande maioria hoje não sabe bem o que isso significa. O masculino estaria em crise?
Parece que o gênero masculino sempre esteve em crise permanentemente. Ao contrário do que muitos imaginam, as recentes conquistas femininas não ocasionaram a crise, mas a ampliaram e provocaram uma pergunta inevitável que os homens terão que enfrentar: o que é, afinal, ser homem?
Tradicionalmente, o destino dos homens nunca foi pequeno. Chefe de família, provedor, disposto a correr riscos e enfrentar sozinho a tarefa de sustentar um lar, o homem crescia ouvindo expectativas de todo tipo sobre ele. O heterossexual se definia especialmente em oposição ao universo feminino. Para ser homem, bastava que não fosse mulher, homossexual, passivo, fraco ou emotivo demais, por exemplo. Além de todos esses atributos, a indústria cultural ajudou a colar à imagem do homem uma aura de super-herói incansável, disposto a arriscar a vida e suportar dores e ainda dotado de uma espécie de energia inesgotável. Não era tão fácil ser homem até algumas décadas atrás como se pensa hoje.
Os homens sempre estiveram na berlinda, tendo que provar a todo momento sua masculinidade. A educação dos garotos sempre foi motivo de preocupação. Embora se afirmasse a maior liberdade dos meninos em relação às meninas, o comportamento masculino sempre foi muito vigiado desde muito cedo para garantir que o sujeito se tornasse de fato homem. As fronteiras entre norma e desvio sempre estiveram bem definidas para a maioria dos homens no Ocidente: "macho" vs. "bicha", "bem-sucedido" vs. "fracassado", "ativo" vs. "passivo", entre outras. Até pouco tempo atrás, os gestos, o andar, o falar, o vestir, os cabelos e a aparência não podiam deixar dúvidas sobre a masculinidade.
Para a maioria dos homens latinos, especialmente, "ser homem" significava (e para boa parte da sociedade ainda significa) ser sempre forte, não demonstrar desespero nem tristeza, não expressar afeto por outros homens, e muito menos recusar propostas sexuais de uma mulher ou fazer tarefas consideradas essencialmente femininas.
Esse modelo de masculino já está sendo radicalmente alterado em razão do acesso da mulher a espaços tradicionalmente masculinos, da reordenação de papéis nos espaços públicos e, especialmente, das mudanças de comportamento de alguns homens, da maior tolerância em relação aos homossexuais e, principalmente, do surgimento de um heterossexual contemporâneo com comportamento mais descolado dos padrões tradicionais.
Esse homem contemporâneo, no entanto, parece ter agora uma tarefa muito mais complexa: deve ser mais sensível, mas ninguém quer vê-lo chorar, deve ser mais afetivo, mas nada de ficar grudado na barra da saia da mãe ou da esposa e ainda tem que ser independente, forte, corajoso, descolado, cuidar mais da aparência, ser bem-sucedido, etc.
 Desde o final do século XX, o heterossexual perde um espaço que era quase exclusivamente seu para as mulheres no mercado de trabalho no Brasil. As revistas do final da década de 1990 noticiavam a intimidação que os homens sentiam pela atitude independente das mulheres. Muitos diziam estar assustados e desencorajados até mesmo para se aproximar de uma mulher, e a crise do masculino parecia ser culpa quase exclusiva da feminização do mundo. No entanto, um outro fenômeno, o número crescente de homossexuais masculinos que afirmavam publicamente suas identidades, começou a apontar uma outra coisa: a necessidade de o homem repensar seu papel e sua identidade.
Essas novas identidades gays, especialmente entre os mais jovens, não significa apenas uma aproximação com o universo feminino, mas um outro espaço de construção do masculino. O aumento de garotos que afirmam serem gays e que assumem publicamente sua identidade, no entanto, carrega problemas. Um deles é a que isso pode significar em muitos casos uma evasão, uma fuga de responsabilidades e a tentativa de viver com a crença de que a identidade de grupo o protege da tomada de decisões sobre si mesmo. Um exemplo disso, é que a "festa" gay só acontece até uma determinada idade. Gays pós-trinta anos ou que não sejam tão atraentes já não são tão bem-vindos nesses grupos. A intolerância com quem não compartilha do mesmo estilo de vida ou que não vai aos mesmos lugares ou com os heterossexuais também deixa claro que essas identidades se construíram numa reação de rancor ao arranjo familiar e ao estilo de vida dos heterossexuais.
Se os homossexuais não entenderem o significado de sua rebeldia, correrão o risco de cair na mediocridade e acreditar que fazer parte de uma comunidade gay hoje é sinônimo de vanguarda. Terão que ir além disso, se desejam representar algo novo para a sociedade. Casar e ter filhos é atualmente uma das aspirações centrais dos gays, o que mostra que a nau gay não está indo muito longe, já que esse sonho foi e é ainda a maior aspiração heterossexual. Eles podem desejar isso sim, nada lhes pode ser negado. No entanto, parece muito pouco para que sejam referência de comportamento no futuro. As atitudes na cena pública e profissional é que indicarão a evolução dos homossexuais.
O universo descolado e interessante em que circulam os gays só será mais interessante no futuro se eles perderem o medo de se relacionar abertamente e longe das sombras com homens e mulheres heterossexuais, e pensarem sua existência em função de seu próprio desejo e não apenas para contestar a vida heterossexual.
Entretanto, é difícil não notar que as atitudes machistas e violentas dos homens continuam sendo vistas em todos os lugares, e a violência doméstica e contra homossexuais parece até mesmo ter se acentuado. O que se esconde atrás dessa máscara belicosa é um ser masculino acuado e que assiste à redução de seu espaço a cada dia. A identidade masculina define-se para muitos homens como a identidade sexual. A capacidade sexual e a negação da homossexualidade ainda é para a maioria as duas esferas onde o masculino se traduz.
De alguma maneira, os gays também vivem acuados, procurando desviar dos heterossexuais. Somente uma aproximação entre hetero e homossexuais pode ser uma saída para a evolução de ambos. Será que isso é possível?
As mulheres por outro lado devem repensar suas expectativas sobre o masculino e rejeitar um produto cultural idealizado. Devem relacionar-se com a ideia de homem real e existente e não com um ideal de parceiro. Embora tenham mudado com o tempo, as publicações atuais para o público feminino ainda reduzem os homens a tipos fictícios e não seres reais, caras de carne e osso. Além disso, ajudam a propalar um ideal de beleza física e de estilo de vida agradáveis ao olhar, mas angustiantes ao serem comparados com o real.
Algumas mulheres independentes e em busca de um relacionamento amoroso reclamam frequentemente que não conseguem encontrar parceiros interessantes, inteligentes mas, sobretudo, com "atitude de homem". Dizem encontrar somente gays em quase todos os lugares que frequentam. Elas perguntam: "- Onde estão os homens?". E talvez a ausência seja a recusa do homem em representar um papel com tão poucas recompensas – a de Don Juan cansado. Socialmente, há pouco reconhecimento para o heterossexual, que paga caro para ser marido, pai e profissional. Não compensa ser homem. Há muitas expectativas e pouco a desfrutar. Se o princípio que rege nossa sociedade hedonista é o do prazer e do conforto (essas duas coisas nunca vem juntas, acredite!), o sintoma do descompasso masculino é a ausência dos lugares e papéis em que ele sempre podia ser encontrado.
A perda de espaço do masculino coincide com a conquista feminina do espaço público e decisório. No entanto, a perda tem um outro lado para o qual os homens podem não estar conscientes. A demanda sobre o comportamento masculino também está mais leve, dando-lhes o direito de não ter que provar a todo instante sua masculinidade.
O homem também é um produto cultural. A exemplo do que ocorreu com as mulheres nas últimas décadas, o homem terá que se reinventar ou viverá sempre com medo de perder sua masculinidade. Uma boa pergunta inicial nessa tarefa de reinvenção é "-o que é ser masculino hoje?".
Respostas interessantes estão sendo dadas em todo o mundo por homens que não querem desempenhar um papel pré-programado para eles durante séculos, mas que cultivam valores e princípios em suas vidas.
Se o homem contemporâneo está em crise, ele também tem nas mãos uma oportunidade de mudança. Nas crises, há seres que param para evitar a ruptura, congelando seus movimentos e atrofiando a possibilidade de evolução e há seres que continuam se movimentando, vendo a crise como a corrente que traz o cardume ou a onda que sacode o barco, mas que também o empurra para frente.
                A crise do masculino é uma possibilidade única que se abre à frente dos homens nestes tempos. Quem a deixar passar, viverá acossado, como uma espécie de predador enjaulado e contraditório, aceitando migalhas de carne congelada de um mundo em mutação (e vegetariano).

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