Redes Sociais conectam ideias e visões de mundo

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Quando é hora de parar de mamar

Do desmame nosso de cada dia


"Um texto que traz o encontro da necessidade do crescer para ser e o incomodo da renuncia da ilusão prazerosa do ter. “O desmame nosso de cada dia” propõem refletirmos sobre a sucessão de perdas que é a vida.
O brigado e boa leitura".

Do Desmame Nosso de Cada Dia
Renato Dias Martino - Psicanalista

A experiência da frustração por não poder “ter” o seio, é um dos pontos altos no processo que conduz o ser humano a dura tarefa de se libertar da exclusiva relação com o amor materno (ou daquele que ocupa o lugar de cuidador). Essa experiência dolorosa de desligamento, quando vivida de uma forma serena, pode servir como modelo útil pela vida toda. É o que definirá grande parte dos padrões de funcionamento mental que se pode adotar durante a vida, isso enquanto forma de relacionar-se com as pessoas e as coisas do mundo, sobre tudo aquelas que nos são ligadas mais profundamente.


“Quando vem a época do desmame, a mãe se entristece refletindo que ela e o filho terão de se separar; que o infante, no principio sob o seu coração e depois embalado ao seio, nunca mais estará tão próximo dela. E junto sofrerão esta curta pena. Venturoso aquele que manteve o filho tão próximo de seu coração e não teve outro motivo de desventura!” Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855), Temor e Tremor, 1843.


Kierkegaard (1813-1855) filósofo dinamarquês, sob o pseudônimo de Johannes de Silento, descreve brilhantemente em sua obra publicada em 1843, sobre essa dolorosa experiência que aqui proponho cogitação. Tentemos ser, também aqui, serenos nas tentativas de refletir.

Se pensarmos num curso natural onde a saúde mental e o desenvolvimento emocional são presentes, cada experiência dolorosa vivida desde o inicio da vida do bebê, nessa série de encontros com a frustração, forçarão a busca de experiências no mundo externo. Experiências num lugar que fica além do eu, numa esfera de relacionamento mais ampla do que aquela, antes vivida. Agora o bebê, movido por Eros, é impulsionado em direção a relações com o mundo que existe além da relação intima mãe-bebê, onde o eu e o outro tem limites tão ténues que já não servem de referencias seguras no tocante a discriminação da realidade.

Tarefa difícil já que falamos de uma separação daqueles que um dia se estiveram fisicamente ‘grudados’. Para o bebê a perspectiva parte de quem realmente viveu ‘dentro’ do outro e dali foi tirado. Dependeu-se do outro para respirar, se alimentar, na verdade dependeu-se ‘dela’ para existir. E ainda, se não foi ‘dela’(mãe) que se dependeu, foi alguém de que ocupou esse lugar – falamos aqui muito mais da função, do que de quem a ocupa. Para a mãe é separar-se daquele que é efetivamente algo que saiu de seu interior e agora se afasta buscando o mundo externo.
Em alguns momentos, tratar desse tema parece com o dito popular ‘chover no molhado’ ou seja, falarmos dos óbvios da vida. Não obstante, isso talvez ganhe um sentido se percebermos o quanto a civilização anda nos forçando a desvalorizar nossas experiências emocionais, quem sabe a troco de uma vida mais prática e mecânica e supostamente sem sustos. Esquecemos a dolorosa e penosa tarefa que enfrentamos no caminho que percorremos rumo à maturidade emocional. A elaboração de recursos para se desligar de modelos de vínculo onde o que rege a relação é a fantasia da exclusividade. Isso, de uma forma afetiva, ou mais livre possível de ressentimentos.
Da saúde mental depende a capacidade para esse tipo de experiência e concomitantemente, é desse tipo de ensaio que se mantém a mente saudável.

Certo tipo de relação tão profundamente ligada como a que descrevo, é sempre tendente a confusões. Con-fusão entre aquilo que ‘é’ o outro e aquilo que se ‘imagina ser’ o outro. Conflitos não elaborados que originam-se dessa relação, buscarão naturalmente uma nova chance de serem novamente vividos e assim abrindo uma nova oportunidade de apreensão e vinculação com real. Mas, conflitos dessa ordem são especialmente delicados quando se foi arremessado de encontro à própria realidade, sem que se pudesse viver um desligamento ‘suave’ da relação primaria. Cria-se um ambiente de desordem emocional inundado de ódio pela experiência do contato com o real, dificultando ou interrompendo o encontro afetivo com aquilo que vem de fora, com aquilo que é do não-eu.
A situação passa a ser de fundamental importância já que esse encontro é o que permite o desenvolvimento da função do pensamento. É o que nutre de recursos o aparelho mental e aprimora o funcionamento mental. É com o encontro com o não-eu que se tem a chance de ‘realizar o pensamento’, aquilo que vem depois da imaginação. Sem esse encontro, a idéia ainda existe, contudo, simplesmente no imaginário, na fantasia e não conta com o outro para que se mantenha real. Isso, nos mundos externo e interno.

Algo caótico que procura se organizar e conta com o outro para isso. Certa dependência afetiva que novamente se pronunciam para o mundo, com a ajuda de Eros.
O desmame é algo penoso não só para o bebê, mas, sem duvidas para a mãe (em muitos casos mais difícil para ela). Porém, a única forma de criar espaço para si é libertando-se do (o) outro. Aos poucos a mãe perceberá que não se pode trabalhar enquanto se tem alguém no colo e esse modelo que proponho aqui pretende transcender o nível concreto ou perceptível pelos sentidos, onde cada quilo que o bebê ganha é também um sinal de que se inicia o tempo de andar com suas próprias pernas. Quero propor que a capacidade de pensamento é algo que se encontra numa esfera que guarda certa individualidade e que, quando alguém pensa pelo outro normalmente o faz em detrimento de si mesmo. Certo tipo de fantasia de onipotência que possa ter uma mãe referente a possuir um seio inesgotável, pode estar sacrificando uma parte importante de sua saúde e também impedindo que o outro (filho, marido) descubra sua função e desenvolva suas capacidades para exercê-la, sobre tudo a capacidade de pensar a si mesmo, ou pensar para e por si mesmo. Capacidades que só podem surgir através do desmame. Aquela que nunca se sentiu realmente desejada, pode encontrar na maternidade uma chance disso e talves se perder ai. Quando olhar para os olhos do bebê durante a mamada perceberá a experiência magnífica de receber alguém que realmente a deseja e necessita dela para viver. É como um ópio propondo o vício de ser mãe. Assim, corre o risco de odiar e lutar contra tudo que aparecer e perceber no filho que possa capacitá-lo para algo mais do que ser simplesmente filho. Ocorrendo até mesmo na articulação de sabotagens quanto ao processo de desmame. Movida por inseguranças cria um movimento em prol de impedir que o outro aprenda a viver independente dela e atacando qualquer que seja outro tipo de vínculo que não o de ser mãe. Sob a imaginação (construída antes da maternidade) de que de outra forma nunca será valorizada. Ela faz de tudo para o outro e se nutre da sensação de poder; o outro se aproveita dessa situação prazerosa, entretanto, não se desenvolve (cria uma impressão de um ser impotente e dependente em suas realizações). Até por que, a demasia de quefazeres pode ser um indicativo de um outro processo perigoso. Uma forma perversa de vínculo com sigo mesmo e logo, com o outro. Falo aqui da evitação do “auto conhecimento”. Esse processo doloroso que muitas vezes é recoberto pelas tarefas de ser mãe.


“Quando vem a época do desmame, a mãe enegrece o seio, pois manter o seu atrativo será maléfico ao filho que o deve deixar. Desse modo ele crê que a mãe mudou, ainda que o coração dela continue firme e o olhar seja da mesma ternura e do mesmo amor. Venturoso aquele que não precise recorrer a meios ainda mais terríveis para o desmame de seu filho!” Kierkegaard, Temor e Tremor, 1843, pgs. 27, 32.

A questão toma proporções importantes quando se percebe que escolhas afetivas de um adulto estarão o tempo todo, permeada destes impulsos conflituosos enraizados na origem da vida. O que nos faz escolher alguém para nos ligar está intimamente associado com fatos arcaicos na gênese do desenvolvimento emocional, e que hoje nos aparece como paixão. Aquele modelo de relação do qual não se sabe muito bem por que se sente tão fascinado pelo outro, no entanto e mesmo assim, sente-se extremamente atraído. São impulsos infantis que hoje mascarados pela moral e normas sociais, tentam ganhar lugar na personalidade de cada um de nós.
Lembro-me de um paciente em analise que, frustrado por uma separação e tentando me dizer - muito bravo - sobre esse tipo de escolha inconsciente, xinga seu cupido de cego.
A fase da amamentação talvez seja o símbolo maior do período onde se esteve totalmente dependente do outro. Se for isso um fato, a fase que se sucede e tem o desmame como divisor de águas sugere o medo, a insegurança e a incerteza que caminham lado a lado com a independência. Enquanto adultos, tendemos a pensar que isso tudo, é algo muito simples e que a própria natureza da criança ira se encarregar de mostrar o melhor caminho.

Entretanto, a dificuldade que se encontra no adulto em reconhecer a real dor presente nos entraves afetivos da criança, está diretamente ligada à incapacidade de ter aprendido em sua vida, com a própria experiência infantil. Cada experiência mal sucedida na vida emocional infantil, está velada na historia do adulto como um código de silencioso esquecimento. Isso, tanto dele para com ele mesmo, quanto daquele que esteve (está) com ele no momento da experiência. O desmame, assim como cada percepção da realidade de que a mãe não é “sua”, ou que seu amor não é exclusivo, é uma encruzilhada no caminho deste pequenino ser que chegou ha muito pouco tempo nesse mundo. Ele irá experimenta sentimentos como raiva, inveja, ciúmes, que são gerados a partir da experiência da perda, daquilo que se vai. Uma sequência de perdas consecutivas que irão gradualmente forçando o eu a se responsabilizar-se e assumir o comando de suas próprias escolhas.
Podemos então, a partir deste modelo, perceber que na verdade, passamos nossa vida toda tentando (ou evitando) nos desmamar de substitutos do seio original.

--
Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Músico
Fone: 17-30113866 renatodmartino@ig.com.br
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/

Nenhum comentário: