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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Por que o Serra tem que sair da frente

Do Valor
Por Alberto Carlos Almeida | De São Paulo
26/11/2010 
Proponho ao leitor a seguinte simulação: vista uma camisa do PSDB, pegue uma bandeira do partido e vá para a rua pedir votos. A grande questão é: qual argumento você utilizará? Se tomarmos a campanha eleitoral derrotada de José Serra serão vários argumentos, todos indicando uma grande falta de rumo: aumento do salário mínimo para R$ 600,00, mutirão para cirurgias de catarata, próstata e varizes, 400 quilômetros de metrô nas capitais, 13º para o Bolsa Família, dois professores por sala de aula e coisas desse tipo. A campanha de Serra do PSDB no segundo turno foi um misto de congregado mariano com Garotinho. Digo isso porque foi irresponsável do ponto de vista fiscal tanto quanto Garotinho em 2002 e foi tão religiosa quanto seria a de um congregado mariano. Isso é o PSDB?
Peço ao leitor que faça o mesmo exercício para o PT: vista uma camisa do PT, pegue uma bandeira do partido e vá para a rua pedir votos. Qual argumento você utilizará? Tomando-se a campanha de Dilma Rousseff, você provavelmente afirmará que vai dar continuidade ao governo Lula; assim sendo, vai tirar mais 20 milhões de pessoas da miséria e as levará para a classe média. Você vai elogiar o Bolsa Família, vai elogiar todos os programas sociais de transferência de renda e dizer que o PT defende o aumento de consumo dos pobres. Seguindo essa linha de raciocínio, você vai afirmar que é necessário aumentar o tamanho do Estado (jamais, obviamente, você afirmará que isso resulta sempre em aumento de impostos) para reduzir a desigualdade e gerar bem-estar para toda a população brasileira. 
PT tem uma ideologia geral clara: ele defende maior presença do Estado tanto na área social quanto na área econômica e justifica isso dizendo que vai melhorar a vida dos mais pobres. O PT se transformou em um típico partido social-democrata europeu. Guarda enormes semelhanças com os partidos de centro-esquerda da Europa: o Partido Trabalhista britânico, o Partido Socialista Operário Espanhol, o Partido Socialista francês, o famoso SPD alemão e o ex-Partido Comunista italiano, entre outros. Todos começaram muito pequenos e muito radicais. Todos foram ficando extremamente moderados à medida que cresciam. Abandonaram o antigo ideário socialista para apenas defender o aumento do consumo dos mais pobres. Todos eles querem mais Estado na economia e mais política social. Todos afirmam que defendem os pobres. Todos são mais votados nas regiões mais pobres de seus países.
O Nordeste, região mais pobre do Brasil, passou a votar maciçamente no PT. O Partido Trabalhista tem uma votação expressivamente maior do que o Partido Conservador no norte da Inglaterra, região industrial e de operários, e na Escócia. A Andaluzia, que é o "Nordeste" da Espanha, vota sistematicamente no Psoe. Na França é em Bordeaux, região famosa por seus vinhos, que o Partido Socialista sempre derrota seus adversários. Os nomes alemães são mais difíceis de escrever, mas lá acontece o mesmo: o SPD derrota os democratas-cristãos nas regiões mais pobres do país.
Todos eles guardam outra enorme semelhança: os pobres votam proporcionalmente mais neles porque acreditam que com mais intervenção estatal a vida deles vai melhorar. Outra coisa importante: todos esses partidos têm origem sindical e até hoje alguns de seus parlamentares são ex-líderes sindicais. Eles também têm ao seu lado o apoio de uma (ou mais) grande central sindical nacional.
Mais claro impossível: o PT pertence à família dos partidos sociais-democratas europeus. As diferenças existentes entre o PT e seus congêneres do Velho Mundo se devem às diferentes circunstâncias de nosso país tropical: dimensões continentais, herança escravista e extrema desigualdade. Porém, de um modo geral, para saber o que o PT quer fazer no Brasil é preciso ver o que esses partidos tentam ou tentaram fazer na Europa. O PT fez a parte dele: ocupou o terreno da centro-esquerda. O eleitor que compartilha do valor básico de que mais Estado é melhor do que menos Estado se sente representado pelo PT e provavelmente acaba votando no partido de Lula.
Há, todavia, no Brasil um eleitor órfão: aquele que prefere que o Estado ou o governo não tutele a vida das pessoas, aquele que dá preferência à iniciativa dos indivíduos quando a questão é a melhora do bem-estar da população. Esse eleitor está abandonado. Ele acaba votando no PSDB, fez assim em 2010, por exclusão.
Aliás, nesse sentido Serra foi um grande desserviço ao Brasil com sua concepção atrasada, para dizer o menos desabonador, de ativismo governamental. Foi absolutamente patética a resposta de Serra no último debate do segundo turno, na Rede Globo, quando um eleitor perguntou a Dilma se ela reduziria os impostos que incidem sobre a folha de pagamento. Dilma disse que sim, que reduziria os impostos. Serra, pouco mais de 24 horas antes da eleição e com todas as pesquisas indicando vitória de Dilma por uma margem maior do que 10 pontos percentuais, afirmou que não reduziria tais impostos porque era preciso ser responsável. Foi uma resposta tão estarrecedora quanto inacreditável. Jamais Nicolas Sarkozy falaria isso na França, nem David Cameron na Grã Bretanha, nem Angela Merkel na Alemanha nem o atual líder do PP na Espanha.
A família de partidos à qual supostamente o PSDB deveria pertencer é aquela que defende mais eficiência na economia e na administração pública. Esses partidos têm como ideologia geral não a defesa de mutirões para cirurgias de próstata, como fez a campanha recém-derrotada de Serra, mas a crença de que o governo precisa fazer a parte dele, que é dar condições para os indivíduos tomarem as próprias iniciativas.
Por isso, eles não têm vergonha de coisas como redução de impostos, privatizações, aumento do teto para o pagamento do ensino privado etc. Aliás, esta última medida acabou de ser tomada no Reino Unido e David Cameron e seu partido não titubearam uma vez sequer diante dos protestos que levaram à quebra de vidraças da sede do Partido Conservador. Sarkozy enfrentou protestos muito mais duros e mesmo assim aprovou uma medida supostamente impopular, de aumento de tempo de contribuição para aposentadoria.
Aqueles que disserem que no Brasil isso não é possível deveriam procurar no YouTube importantes líderes do PP espanhol defendendo a redução de impostos. A Espanha é insuspeita como exemplo. Nós, brasileiros, pertencemos à tradição ibérica. Se na Espanha é possível vencer eleições e governar com o discurso da redução de impostos, o mesmo pode ser verdade para o Brasil.
O fato é que precisamos urgentemente de um partido que se vincule à família dos partidos conservadores europeus: o Partido Popular espanhol, Le Mouvement Populaire (UMP) da França, a CDU e CSU na Alemanha e o Partido Conservador britânico. Todos eles sabem o que querem. Qualquer pessoa de seus respectivos países com uma bandeira na mão e uma camiseta do partido saberá como pedir votos: vote em nossos políticos porque uma vez eleitos eles reduzirão os impostos, feito isso você terá mais dinheiro no bolso para comprar e fazer o que quiser. Adicionalmente seria dito que a redução de impostos caminhará junto com a racionalização do setor público (nada de ativismo governamental serrista e dinossáurico), o que levaria à melhora da vida de todos, inclusive dos mais pobres.
Eventualmente, no que tange aos pobres seria prometido o aumento da restrição à imigração como maneira de defender seus empregos. Isso ensina algo básico: partido de matriz conservadora fala também para os mais pobres.
Repito o que afirmei no último artigo: na eleição de 2014 o PT vai atacar o PSDB como o partido das privatizações. É preciso começar a se preparar para isso desde agora. Em 2010 presenciamos a resposta absurda de Serra à crítica petista: acusar o PT de também privatizar. Eis outro desserviço prestado por Serra à nação e aos eleitores órfãos do discurso conservador.
Por meio de pesquisas qualitativas acompanhamos vários eleitores durante a eleição de 2010. Um deles me chamou a atenção: homem, pai de três filhas, morador da cidade de São Paulo em um bairro próximo ao zoológico, dá aulas de futsal aos sábados para crianças pobres de bairros vizinhos ao dele e coordena o grupo jovem da paróquia da Igreja Católica local. Ele tem o perfil típico de milhões de brasileiros que se associam para melhorar a sua vida e a dos outros. Além disso, esse eleitor estava preocupado com os boatos de que Dilma, se eleita, iria passar a cobrar impostos das contribuições que os fiéis davam para a igreja.
Eis aí o órfão do discurso conservador, tão órfão que acabou votando na Dilma. O candidato de oposição não defendeu de forma clara e inquestionável, em nenhum momento, o símbolo maior da família de partidos que se opõem, em qualquer lugar do mundo, aos partidos que se parecem com o PT: a redução de impostos.
Renovar-se, para o PSDB, significa abraçar com entusiasmo o tema da redução de impostos. É defendendo a redução de impostos que os partidos da família conservadora, aqueles que fazem as mesmas privatizações que Fernando Henrique fez no Brasil, comunicam ao eleitorado que são a favor da eficiência administrativa. Em outras palavras, defender a eficiência e afirmar que são bons administradores não dá voto. O que dá voto mesmo é reduzir imposto. Se isso não for feito, o PSDB continuará no mesmo rumo das últimas três eleições.
Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: menos Imposto, mais Consumo".
E-mail: Alberto.almeida@institutoanalise.com www.twitter.com/albertocalmeida

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