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terça-feira, 30 de novembro de 2010

O jovem está sem lugar na sociedade

Joel Birman – o lugar do jovem na sociedade

Por Blog Acesso

Médico, Mestre em Saúde Coletiva e Doutor em Filosofia, Joel Birman conjuga diversas áreas do saber para desenvolver seus estudos em Psicanálise. Professor e pesquisador do Programa de Mestrado e Doutorado em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e professor adjunto do Mestrado e Doutorado em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Birman tem se dedicado a estudar o comportamento do jovem urbano e suas relações sociais. Em entrevista exclusiva ao Acesso, ele explica como as conjunturas econômica, social e cultural tendem a estimular e a desenvolver jovens violentos e excluídos.
Acesso – Em seus estudos e palestras, o senhor costuma dissociar juventude e adolescência. Eles não seriam sinônimos?

Joel Birman – Muitas pessoas se espantam com isso. Mas tendemos a acreditar que existe uma justaposição entre ser jovem e ser adolescente. Tendemos a tratar de um e do outro como se fossem sinônimos, parte de um mesmo conceito. No entanto, essa articulação entre juventude e condição adolescente é uma construção histórica, desenvolvida no século 19, que perdurou até os anos 1970, em torno de uma cultura que podemos denominar de cultura das idades da vida. Michel Foucault [filósofo francês do século 20 ] diria que essa concepção trata-se de uma construção biopolítica, na medida em que se baseia em um processo linear, biológico, dividido em quatro etapas – infância, adolescência, idade adulta e velhice. A questão central aqui seria a reprodução – a ausência do potencial reprodutivo na infância; sua emergência na adolescência; plenitude na idade adulta; e desaparecimento na velhice. Esse modelo foi, evidentemente, construído em torno de uma ideologia muito poderosa no século 19: o progresso.
Acesso – E o que fez esse modelo ruir no século passado?

J.B. – Foram feitas várias críticas ao modelo. E pelos menos três delas nos importam: a psicanalítica, a histórica e a genealógica. A primeira surge com a psicanálise, quando Freud mostra que é preciso desarticular sexualidade e reprodução. A segunda é desenvolvida pelo historiador francês Philippe Ariès, que afirma que os conceitos de criança e de adolescente como os conhecemos são produções do século 19, advindas da família nuclear burguesa. Depois, Foucault diria que o modelo das idades da vida seria produzido a partir de uma certa concepção biológica.
Acesso – Na prática, o que mudou nos conceitos de adolescência e juventude?

J.B. – Segundo o modelo anterior, a adolescência seria o período de experimentação, um ensaio para o ser. Um símbolo forte desse projeto é o Werther, de Goethe, que mostra o lado trágico da experimentação, levando o personagem às últimas consequências, o suicídio. Com o fim do modelo das idades da vida, na década de 70, a cultura da experimentação ultrapassa o plano da adolescência, se estendendo a outras etapas. O que vemos, hoje, é um alongamento da adolescência, que começa bem mais cedo do que outrora e que se prolonga, também, por bastante tempo no campo que se denominava antigamente de idade adulta
Acesso – A associação entre violência e juventude está muito presente em estudos conduzidos pelo senhor na rede Juventude, Subjetivação e Violência/EPOS do Instituto de Medicina Social da UERJ. Como essas duas questões se conectam na atualidade?

J.B. – Com o trabalho no grupo de pesquisa EPOS – Genealogias, subjetivações e violências, no Instituto de Medicina Social da UERJ, percebemos que a questão da violência na juventude brasileira estava presente em diferentes classes sociais. Historicamente ligada à juventude de baixa renda no Brasil, a violência passou a se manifestar no seio da classe média, há cerca de 15 anos, com casos como o dos três jovens que incendiaram um índio em praça pública.

Acesso – Este foi um dos primeiros casos de violência envolvendo jovens de classe média…


J.B. – Sim. E eram jovens com um alto padrão econômico, educados… Há também os exemplos dos jovens cariocas que atacavam mulheres, alegando que eram prostitutas; e dos constantes ataques a homossexuais. Tem ainda um caso emblemático, o da Suzane von Richthofen, que matou os pais. Vivemos um momento bastante ostensivo, com os jovens se envolvendo cada vez mais em situações de acidentes de carros e de brigas em bares. Há, ainda, o surgimento de uma cultura corporal, uma cultura de academia, voltada à exibição da força; uma espécie de simulacro do poder pela força.
Acesso – O afunilamento do mercado de trabalho, com oportunidades ínfimas para os jovens, agrava a situação?

J.B. – Na América Latina, o jovem entra cada vez mais tarde no mercado de trabalho. Assim, na medida em que não está no mercado, não ganha reconhecimento social, se sente afastado da sociedade e passa a reproduzir o comportamento de jovens das classes mais baixas, a cultuar a força como recompensa.
Acesso – Esse quadro é visto, também, no plano internacional?

J.B. – São os mesmos sintomas de experiências violentas. Há um mal-estar social generalizado, com adultos que não encontram seu lugar na sociedade e com a disseminação de problemas como o buling e a gravidez precoce. Nas classes mais baixas, as meninas engravidam para ganhar o status de mães, teoricamente, pessoas com maior responsabilidade e inserção social. Nos Estados Unidos, hoje, 1 de cada 3 jovens tem problemas criminais. Há dez anos, essa proporção era de 1 a cada 4 jovens.
Acesso – Pode-se dizer que não há lugar para o jovem na sociedade atual?

J.B. – Sim. Do ponto de vista simbólico, eles estão fora da sociedade. A relação social é muito frágil e, por isso, a violência se manifesta.
Acesso – E na relação de apropriação do espaço urbano, a violência também funcionaria como uma forma do jovem sentir-se integrado?

J.B. – Não necessariamente. Existe também a formação de grupos, a tribalização. Essa seria uma outra forma de reconhecimento, que passa por uma cultura mais criativa e organizada.
Acesso – Em sua opinião, seria possível promover a inclusão social e diminuir os índices de violência entre os jovens com um processo de democratização cultural?

J.B. – Sim, mas somente se as políticas públicas voltadas aos jovens de todas as classes sociais levassem em conta os processos de democratização cultural, social e econômica. Para ganhar o reconhecimento social, o jovem precisa ter condições de sair da casa de seus pais em busca de uma vida própria.
Luíza Costa / blog Acesso
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