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Multi mulher

Acumulo de funções
Renato Dias Martino
A única forma de criar espaço para si é libertando-se do (o) outro. Não se pode trabalhar com alguém no colo e esse modelo que proponho aqui pretende transcender o nível concreto ou perceptível pelos sentidos, onde cada quilo que o bebê ganha no peso físico é também um sinal de que se inicia o tempo de andar com suas próprias pernas. Esse tipo de fantasia de onipotência em que provavelmente vive a grande parte das mulheres pós-modernas ou contemporâneas pode estar sacrificando uma parte importante de sua saúde e também impedindo que o outro (filho, marido) descubra sua função e desenvolva suas capacidades para exercê-la.
Aqui seria interessante pensar na possível origem de certo modelo de vínculo. Aquela que nunca se sentiu realmente desejada, pode encontrar na maternidade uma chance disso. Contudo, corre o risco de odiar e lutar contra tudo que apareça no filho que possa capacitá-lo para algo mais do que ser simplesmente filho. Ou até mesmo impedir-se outro tipo de vínculo que não seja ser mãe de... Isso incluindo aqui a relação com o marido, onde um vínculo de maternidade facilmente se instala caso não seja constantemente pensado. Isso tudo, sob a imaginação (construída antes da maternidade) de que de outra forma não será valorizada.
Ela faz de tudo para o outro e se nutre da sensação de poder; o outro se aproveita dessa situação prazerosa, entretanto, não se desenvolve (transforma-se num ser impotente e dependente em suas realizações).
A demasia de quefazeres pode ser um indicativo de um outro processo perigoso. Uma forma perversa de vinculo com sigo mesmo e logo, com o outro. Falo aqui da evitação do “auto conhecimento”. Esse processo doloroso que muitas vezes é recoberto e adiado pelo prolongamento das tarefas de ser mãe.
Muitas vezes o excesso de trabalho é uma característica encontrada na vida daquele que tem muita dificuldade em se relacionar com sua sexualidade. O trabalho, enquanto tarefa diária acaba por se tornar o único tipo de referencial de reconhecimento do sujeito frente ao outro e a si mesmo. É daí que o sujeito busca reconhecimento e auto reconhecimento quanto a sua potencia, capacidade e desempenho.



A psicanálise de Sigmund Freud (1856–1939) nos ensina que a civilização e todo o bem estar que esse sistema pode nos trazer vem exatamente da dessexualização dos impulsos (sublimação) que se transformam através da repressão e posteriormente elaboração, em bem comum ou algo que contribua com a realidade, em ultima instancia, o realizar. Todavia, aqui proponho algo que se estrutura de uma forma extrema, onde a aversão ao sexo conspira a favor de certa forma de patologia psíquica. Constrói-se assim um substituto da atividade sexual, entretanto um suplente perigoso, pois o objetivo final nunca é alcançado em sua finalidade, forçando o sujeito a trabalhar cada vez mais, até por que, assim tem um outro beneficio, se vê afastado do próprio sexo enquanto trabalha.
Agora, inundada pelas preocupações, ela chega a fingir o orgasmo, apenas para satisfazer temporariamente um ego imaturo. Percebemos por esse exemplo, uma questão emocional bastante séria. Percebemos assim, o sexo sendo trocado pelo trabalho num contorno muito injusto se pensarmos no desenvolvimento do próprio ego. Percebe-se como o momento do próprio gozo (em forma de dissimulação) transforma-se em mais uma obrigação, para que possa receber a aceitação ou aprovação, seja do outro ou de si mesmo.
A realização só pode vir daquilo que é real, e o real só é conhecido através da experiência, logo, para nos tornarmos reais e dignos de realizações temos que conhecer-nos a nós mesmos pela experiência.
Quando nos propomos estudar o pensamento pelo vértice do psicanalista Wilfred R. Bion (1897-1979), percebemos que é só assim que seremos reais, ou seja, conhecendo nossa própria realidade. De outra forma, viveremos como imaginamos ser. Exatamente como a ilusão da super-mulher, que faz de tudo e mais um pouco, mas, desvia-se de si mesmo, deixando uma parte de si própria pra traz, descuidada.
O relacionamento com o outro é uma extensão do relacionamento com sigo mesmo e tanto um como outro sempre são compreendidos no nível da necessidade. Necessidade do aparelho psíquico de manutenção e nutrição. Enquanto o corpo nutre-se de comida, a alma se alimenta de verdade e isso é inexorável, já que nunca temos uma verdade final, concluída, ou acabada. É justamente do vínculo com o outro que se extrai a realidade, a verdade. Se o sujeito não encontra tempo para se relacionar com o outro, não faz mais nada nesse mundo e sua alma definhará desnutrida, logo adoecerá. Dessa forma anda-se em círculos. Não tem narrativa de vida, não cria a própria histórias pra contar. Não percebe que fica cada dia mais longe da própria realidade - único lugar onde se pode realizar. De uma forma ampla, não se vive. A vida é feita, ou construída de afeto pela realidade, amor à verdade.
Se estivermos a meditar sobre dupla, então sempre se tem cinqüenta por cento de responsabilidade para cada lado. Se existe alguém fazendo por dois é por que tem um que não faz nada. Se alguém está vivendo sem pensar é por que alguém pensa por ele. Jaques Lacan (1901-1980), seguidor francês de Freud, aborda uma questão muito importante quando propõem que não é só o neurótico que se beneficia de seus sintoma, mas também aquele que se relaciona com ele. Assim, é muito importante que cada um possa assumir seu papel para que não se instale um modelo onde exista um acumulo de funções. A única relação onde um pensa pelo outro é aquela onde o bebê ainda não é capaz de tal tarefa.

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Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Músico

Fone: 17-30113866  renatodmartino@ig.com.br
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/

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