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Eleições nos EUA

Roger Cohen: Barack Obama (infelizmente) não é Lula


Washington — Estive entre os primeiros e maiores apoiadores de Barack Obama. Os Estados Unidos estavam entrevados e me pareceu que ele poderia levar o país adiante no século 21, que começou tão tragicamente em Nova York e aqui na capital da Nação. Como muitos, na metade do mandato, estou enfrentando minha decepção.
Já me perguntei: será que Hillary Clinton, experiente e ligada aos Estados Unidos blue-collar [nota do Viomundo: trabalhadores de colarinho azul, em geral de classe média baixa] teria sido mais forte e mais capaz de levantar o moral nacional? Já me perguntei: será injusto sentir desilusão com a escala dos problemas herdados pelo Obama? E me perguntei, dado o desrespeito visceral pelo presidente que vem do Tea Party — um desprezo mal cheiroso, cheio de sugestões que beiram o racismo — se Obama poderia ter feito qualquer coisa para se aproximar dos adversários?
Para todas estas perguntas, em momentos diferentes, tive diferentes respostas. Não, diz uma voz, esqueça, ele está fazendo o que pode para tirar os Estados Unidos de duas pancadas — da guerra e do derretimento econômico. Ele é inteligente e curioso — e, de qualquer forma, é preciso considerar a alternativa mística-insular-nacionalista.
Ah, sim, diz outra resposta, ele é muito “cool”, uma construção mais do que uma pessoa de carne e osso, uma nave  vazia para carregar idealismo, um político que não gosta de se relacionar com os eleitores (e o que mais é a política?), um homem que — não por nada — levanta o queixo quando fala.
As vozes vão e vem, mas não tem como me afastar da desilusão. Este presidente parece vazio — e às vezes nem mesmo genuíno. Ele deveria colocar sobre a cama as palavras de Jonathan Alter: “A lógica pode convencer mas apenas a emoção pode motivar”.
Ao chegar a Nova York vindo de Londres, fui a uma festa no Upper East Side [nota do Viomundo: reduto dos liberais de Nova York, onde morei na 83 com a Segunda, nos anos 80]. Era uma multidão de gente bem de vida, quase toda formada por apoiadores de Obama há alguns anos. “Ele é uma enganação”, um convidado disse. “Precisamos de um Bloomberg, alguém que saiba gerenciar”, disse outro, se referindo ao prefeito bilionário de Nova York. “Toda esta nostalgia em torno do Clinton é causada porque Obama é um solitário, não tem interesse nas pessoas”, disse um terceiro.
Fiquei surpreso pela fato de que as pessoas não sabem qual é o caminho desejado por Obama. Não existe narrativa nesta presidência. Era sobre mudança em que se podia acreditar. Agora o presidente parece menos apaixonado pela ideia de ser um agente de mudança e mais um calculista incerto de suas crenças principais. Em Londres, sabemos o que o primeiro-ministro David Cameron quer: reduzir o estado e cortar o déficit. Concorde ou não, é a narrativa. Ajuda.
Outro líder estrangeiro do qual me lembrei, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil, que agora está próximo de deixar o poder depois de uma presidência extraordinária. Aqui estão dois políticos de fora do círculo de poder, com nomes fáceis de pronunciar e com rostos diversos dos que apareciam nas notas do dinheiro de suas nações, quebrando modelos de raça ou classe. Mas a comparação termina aí.
Lula experimentou de tudo — um de oito filhos do norte empobrecido do Brasil, um ex-operário metalúrgico que reparou a fratura social de uma das sociedades mais desiguais do mundo. Obama até agora fracassou no teste crítico de autenticidade.
Havia um frisson anti-establishment no Obama, o homem negro que batalhou para superar preconceito e o “pecado original” dos Estados Unidos para conquistar o cargo mais importante do país. Ainda assim ele se revelou um produto da elite e das escolas de elite dos Estados Unidos, um político que construiu sua imagem com grande inteligência mas mostra pouco apetite pelos detalhes. Bipartidarismo, quando não é apenas oratória, começa com pequenos gestos.
Estive conversando com um pequeno doador do Partido Democrata, um empresário de Kansas City. Ele deu 30 mil dólares para Obama e não recebeu uma nota de agradecimento. Está irritado. Muita gente acha que o presidente é muito convencido para escrever notas de agradecimento ou fazer chamadas de cortesia.
Depois da derrota inevitável nas eleições do meio de mandato, Obama precisa tomar algumas decisões. Ele está preso na defesa nas questões domésticas e de política externa. Os ataques fáceis nos “banqueiros gordos” precisam acabar. Eles não convencem a esquerda e deixam a direita furiosa. Processe-os, por todos os meios, mas deixe de falar. E lembre que os americanos tiveram uma boa limpeza doméstica. Uma injeção fiscal de 787 bilhões de dólares é suficiente.
Os americanos estão tentando se livrar das dívidas. Eles seguirão um presidente que diz que estender os cortes de impostos para os ricos é loucura [nota do Viomundo: herança deixada por George W. Bush]. Os americanos podem até aceitar impostos sobre o consumo. Mas o presidente precisa liderar.
Obama está enfrentando uma convicção internacional de que é hesitante. A revisão da estratégia que levou ao aumento das tropas no Afeganistão deixou uma impressão de incerteza. No final recebemos o que alguns chamaram de plano do Groucho Marx — Alô, estou de saída — um reforço que será revertido a tempo da campanha de 2012. No Oriente Médio, também, a política doméstica evitou mudanças, resultando em erros e a familiar paralisia.
A ousadia marcou a campanha de Obama; só ela poderá reelegê-lo em 2012. Ele precisa revigorar sua equipe com “fazedores” em vez de “pensadores”. Ele precisa encarar com seriedade o equilíbrio do orçamento. Ele precisa de uma política externa que reflita um mundo em mudança, não um Congresso dividido.
E ele precisa admitir que talvez os decepcionados com ele não são mal aconselhados, mas racionais e até mesmo científicos — palavras das quais ele tanto gosta.

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