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sábado, 13 de novembro de 2010

Artigo: Luciano Alvarenga

Adolescer

O adolescente sempre foi um problema, mas em outros tempos ninguém lhe dava bola, e muito menos queriam saber de suas típicas "neuras". No mais das vezes, alguns berros e algum castigo que lhe privasse de suas alegrias, era o bastante para mantê-lo domesticado por uns tempos.
A adolescência era a parte chata da vida de quem tinha posto tal tipo de figura no mundo. Entretanto, era uma questão de tempo para que o “aborrecente” se integrasse definitivamente no mundo dos adultos. Como nesses tempos eram os adultos o que todo mundo queria ser, diferente de hoje, em que ser jovem – leia-se sem compromisso – é o que seduz a maioria, a adolescência era uma viagem com pouca duração.
Era costume dos pais quando percebiam as espinhas e rebeldias dos filhos, a denunciar a nova fase em que estavam, imediatamente colocá-los para trabalhar. Geralmente, os pais recorriam aos parentes e amigos para que arranjassem algum emprego de meio período para os filhos. Trabalhos como empacotador em supermercados, office boy em escritórios, atendente no comércio, eram comuns aos jovens. A idéia que entrecortava tal atitude dos pais era a de que o trabalho ajudava nessa fase, criava um sentimento de responsabilidade nos jovens, educava para o convívio com o mundo dos adultos, o que significava, principalmente, respeito e obediência para com os mais velhos. Aqui, o que importava era o amadurecimento que se conseguia nessa experiência, o que muitas vezes redundava em uma vida inteira de trabalho naquela atividade que se iniciou ainda na adolescência.
Se por um lado, o trabalho era encarado pelo adolescente como uma obrigação que o impedia de fruir seu tempo de forma menos séria, por outro, o que geralmente acontecia era a satisfação de ter algum dinheiro, de poder adquirir algumas coisas, para além das estritamente necessárias fornecidas pelos pais.
A idéia dos estudos como forma de ascensão social sempre foi valorizada pelas camadas médias brasileiras, entretanto, não rompia os fios sociais que ligavam valores, tradição e costumes, o que significa dizer que, o trabalho era agente construtor da sociedade, produzia cultura e identidade, dava sentido à vida, permitia as pessoas – aos homens fundamentalmente - se reproduzirem como pessoa, como homem, esposo e pai. Era a ética do trabalho que norteava os comportamentos dos pais; os estudos eram importantes, mas não como algo em si mesmo, que define tudo o mais. Em outras palavras, a idéia de estudar e se formar eram importantes, mas não ocupava o centro social da vida das pessoas, não era a razão que conformava as relações pais/filhos, filhos/sociedade, etc.
A idéia muito forte hoje de sucesso profissional como o cerne da realização profissional e pessoal é, certamente um dos componentes que angustiam, incomodam e distanciam pais e filhos. Os adolescentes se vêem cercados por uma estratégia de guerra que envolve pais, escolas, cursos técnicos de todos os tipos, infra-estrutura logística, que visa transportá-los de sua condição de filhos dependentes a profissionais reconhecidos, bem remunerados e, de preferência, de sucesso.
De repente, o adolescente percebe o engodo de sua formação. Percebe que desde o berçário, sua ida à escola não tinha outra razão senão colocá-lo numa escola superior de ponta com inequívoco prestígio. Descobre que os amigos que fez, as experiências que viveu, os professores que elegeu como suas referências, são resultado não de algo espontâneo e natural em seu processo de vivência: eram, na verdade, uma teia algebricamente preparada e pensada para torná-lo algo que só agora percebe que terá de realizar, isto é, ser um profissional de sucesso. E o que é um profissional de sucesso senão aquele que ocupa cargos de liderança, é por todos reconhecido, tem carro do ano, um parceiro ou parceira de beleza televisiva, e trabalha muito. O colegial, que sempre foi o cursinho, se transformou na última etapa antes da batalha final que é cursar uma universidade de ponta e se transformar num reconhecido profissional.
A questão é: como o adolescente encara essa idéia de futuro, em que medida o adolescente às vésperas do vestibular está realmente interessado nessa experiência. Depois de ter passado a parte mais significativa de sua vida em escolas, um garoto ou garota que vá ao vestibular com 17 anos, terá passado 15 anos de sua vida nessas fábricas de pré-profissionais. Com essa idade o que ele está pensando, certamente não é na sua futura vida profissional, mas, certamente, em quem são as pessoas que pagaram para ele fazer isso durante tanto tempo e o porquê disso.
Do lado dos pais, é a angústia de verem retornado o dispendioso investimento que fizeram em seus filhos ao longo dos anos, que explica a enorme pressão que exercem. Nesse sentido, é curioso observar, que as famílias, isto é, os parentes próximos, observam muito mais entre si onde seus filhos estudam ou estudaram do que propriamente se os adolescentes estão angustiados, deprimidos ou agressivos. Aqui, a escola cola sua imagem, posto que, sua propaganda não é sobre o futuro e felicidade dos jovens, mas sobre a maior possibilidade dos pais reverem seu investimento financeiro.
Transitamos de um tempo em que a formação profissional se ligava ao amadurecimento da pessoa na sociedade, para outro, em que a aprendizagem e a profissionalização infantilizam os indivíduos.para a convivência na sociedade.

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